São Valentim, ó, não é para mim…

Em homenagem ao dia, um momento de, vá, fabulástica poesia…

VAMOS NAMORAR? VAI TU!
Se tivesse coragem fazia como a Agustina
Punha um anúncio no jornal
Precisa-se marido deste jeito e tal
Para acabar com um problema anormal
Não tenho pachorra para namorar
O que gostas de ler de ver de comer
Mas que seca do caneco
Apetece-me logo sair a correr
Mal começam a falar
Perco a vontade de os beijar
Ora viver de sequeiro
Faz mal aos lábios faz cieiro e pior
Não gosto de engates dá-me nojo só de pensar
Nas contas: quantas por quantos
Terão lá andado por lá a andar – blagh
Gosto e muito é de flirtar porém
Ao género trate só de olhar e de não tocar na menina
Que ela não queria mas ó desafina
Um marido parece-me uma coisa decente
Porém não há um raio de homem com quem queira casar
Se para isso seca do caneco tiver de o namorar
Mal comparado queria um marido com carta de referência
Como as criadas de antigamente não sei quantos ex de tal
Porque se com esta idade for solteiro
Ó diabo algo vai muito mal
CV  lailailai photo mãe e pai
Filhos também vale
Para conhecer o presépio pessoal
Acima de tudo
Não me diga banalidades
Prefiro barbaridades
Se for um original
Pronto ganhou e a conversa acabou aqui
Caso não continua ali
Que me faça rir sem eu o esperar
Saiba coisas de pasmar
Não sei amar sem admirar
Não me chateie
Com horas de preliminares
Como se o sexo fosse um grande frete
Tantra ou acrobacia de kamsutra
Nem com a história da santa e da puta
De preferência que adormeça no ballet
Mesmo que tenha o fetiche do pé
Se ressonar na ópera não me oponho
Faço-lhe cócegas no nariz
Há-de espirrar na hora x
Convém também que tenha um poço sem fundo de paciência
Para todas as partidas que lhe hei-de pregar
Não é que queira mas não posso evitar
Fazer maldades é como respirar
Um marido vá é uma ideia decente
Agora tendo que namorar
Não há garanto um raio de um homem
Que consiga levar-me ao altar

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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19 respostas a São Valentim, ó, não é para mim…

  1. Henrique Monteiro diz:

    Isto sim, é uma cantiga de amigo (por anúncio)

  2. mónica diz:

    boa boa tá lá quase tudo no ponto eheheheh

  3. Que linda homenagem, Eugénia! Ri tanto.
    Também gosto do Vai Tu. É um Grupo Excursionista ali da Bica, que conheci há uns anos quando fui em busca de fado vadio. Dizem as respectivas, ali na mesa ao lado, que os elementos do grupo se tornaram maridos competentes depois de muito torcicolo a namorar às janelas do 1º e 2º andar (felizes os que namoravam no rés-do-chão). Da competência não deram pormenores, mas pude comprovar que a resposta pronta e muito directa continua a ser o cartão de visita dos maridos do Vai Tu. Quem lhes fizesse uma poesia tinha logo um fado em troca, presumo.

  4. Ivone Costa diz:

    Já me fartei de rir com esta coisa tão gira, Eugénia. Mas olhe que marido … já tive dois e devolvi-os …

  5. Ó Eugénia, tem de se mandar musicar esta sua bela letra. Isto é mesmo uma canção que os Deolinda bem podem cantar. LIndo.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Retrato fidelíssimo do que pensam inúmeras mulheres. Deviam emoldurar este texto em lugar bem visível.

  7. GRocha diz:

    Bravo! clap clap!!! Revi-me neste texto 🙂

    “Um marido parece-me uma coisa decente
    Porém não há um raio de homem com quem queira casar
    Se para isso seca do caneco tiver de o namo­rar”

  8. nanovp diz:

    Que síntese ! E , como grande poema, tudo é verdade!

  9. Ana Vidal diz:

    Genial, m’na Eugénia, genial. Mas deixe que lhe diga (que eu, como a Ivone, também já tive dois maridos e devolvi-os) cuidadinho com o que deseja: um marido “com carta de refe­rên­cia
    como as cri­a­das de anti­ga­mente não sei quan­tos ex de tal”, tal e qual como as criadas só sabe fazer o trivial.

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