She’s gonna kill me!

A  20 de Fevereiro de 2006 no suplemento ‘DAS ARTES, DAS LETRAS’ de  ‘O PRIMEIRO DE JANEIRO‘ Filipa Leal entrevista a nossa mais triste autora, que foi considerada então a nova voz da poesia portuguesa.

Sete anos depois, com autorização da Filipa, reproduzo a belíssima entrevista que serviu de base à apresentação dos seus dois primeiros livros e que teve como título «A poesia existe como condição». Eugénia de Vasconcellos.

“A poesia existe como condição”

Eugénia de Vasconcellos nasceu em Faro, em 1967, filha de pai portuense e mãe algarvia. Frequentou os cursos de Língua e Cultura Portuguesa (Faculdade de Letras de Lisboa), Psicologia (Universidade Lusófona), Simbologia e Teoria das Religiões Comparadas. Considera que teve um percurso académico irregular, mas confessa: “foram apenas uma iniciação aos estudos que tenho vindo a aprofundar”. Fevereiro será o mês da publicação dos seus primeiros livros de poesia: «A Casa da Compaixão» e «Quem Pode Habitar em teu Monte Sagrado», das edições Colibri. O terceiro já está terminado. Chama-se «Na Rosa de Yeats». O «das Artes, das Letras» conversou, em primeira mão, com a escritora que à poesia tem dedicado “as horas todas”.
Filipa Leal 

As flores, o rio, as pastagens, a terra. Estamos perante uma poeta da natureza?

Ser poeta é não ser (diferente de ser omisso): é criar um lugar de necessário vazio em si próprio, onde o outro, natureza, pensamento, sentimento, acção, construção, possa manifestar-se na sua totalidade; não no sentido fusional pelo qual o eu e o outro são uma nova entidade superior à soma das partes, mas permitindo ao outro a absoluta liberdade de se revelar e permanecer em nós sendo outro. Reconheço, no entanto, à natureza um papel subordinador, na vida como na poesia: é o fio de Ariadne que me reconduz do estado de dúvida ao estado de harmonia, que é obrigatoriamente precário.

Por outro lado, estamos também perante o humano: um sujeito poético sujeito à natureza humana?

Sim, mas não à natureza do indivíduo. Ou apenas naquilo que de colectivo e perene habita na natureza de cada indivíduo.

No poema “As horas todas”, confessa o amor e a fidelidade à poesia, desde menina. É à poesia que tem dedicado as horas?

Amo a poesia. Descobri os poetas cedo, ou mais justamente, descobriram-me os poemas cedo. A minha mãe ia-nos lendo os poemas de Pessoa, Drummond de Andrade, David Mourão-Ferreira, Eugénio de Andrade, tantos, enfim… e a música também os trouxe: a minha avó, enquanto organizava a vida de todos nós, ia cantando os fados de Amália a cantar os poetas, os outros também. O primeiro poema de Cecília Meirelles, conheci-o assim. Ao meu avô, via-o com os livros de Jorge de Sena, Ruy Belo, Natália Correia e queria crescer para os ler. Alberto Caeiro estava na minha galeria de heróis, juntamente com a Janis Joplin, o Conde de Monte Cristo e o Che Guevara… E a Bossa Nova trouxe-me o Vinícius… seria uma conversa interminável. Ainda recentemente, há um ano, mais ou menos, a Assírio & Alvim “deu-me” o Tagore. Estou-lhes gratíssima, ao José Agostinho Batista, também…. Mas as minhas horas têm sido oferecidas à vida. Não há poesia sem uma total abertura à vida.

Concorda que a criação literária (neste caso, a poesia) seja “1% de inspiração e 99% de transpiração”? Qual é o seu ritual criativo?

Acredito que há uma dádiva inicial sob a forma de uma palavra, um verso, uma ideia, imagem ou som que comove. Esse movimento conjunto dará origem ao poema ou à tentativa de um poema. Em mim coabitam duas formas distintas de tratar essa dádiva. Quando é inequívoca, iluminada, anoto, geralmente num pequeno caderno da papelaria Fernandes, que nunca me pode faltar, ainda que escreva em qualquer papel, preciso de saber que tenho o tal caderno – é, talvez, a única mania incontornável que tenho –, eventualmente no portátil e, muito raramente, no gravador. Depois, ou construo a partir daí, ou corrijo a partir daí. Quando é mais encoberta, acompanhamo-nos dia após dia, às vezes durante períodos longos, até que ganhe a substância de que necessita para se mostrar ou se dilua. Nem sempre são histórias de amor felizes.

No prefácio de «A Casa da Compaixão», Daniel Pires define a sua poesia como o corolário de uma busca incessante de si própria (…), da ponderação dos valores matriciais que uma sociedade materialista, mais preocupada com o ter do que com o ser, indelevelmente rasurou.” É a busca do “eu singular” e dos “valores plurais” que a move nestas obras?

Mover é um verbo pouco funcional em mim; comover, sim. O outro é tão essencial quanto o “eu”. Mesmo a solidão é a solidão de todos. Busca, se houver, apenas de solaridade, sentida como um desejo de luz derramada sobre a existência, um desejo de sul, lugar interno onde essa luz se cristaliza e se torna facilitadora do conhecimento, mas para conhecer o outro, o mundo. Na relação comigo mesma espelho a relação que estabeleço com o mundo e que o mundo estabeleceu comigo. Jamais os entendo como objectos externos e independentes, mas como organismos pares e numa relação de interdependência.

Há uma musicalidade indesmentível nos seus versos, uma harmonia. Chega mesmo a proclamar “o equilíbrio do espaço entre duas palavras/ o intervalo da respiração”. A poesia deve ser um jogo entre som e sentido?

Esse equilíbrio, intervalo, é o vazio, a abertura que permite a entrega à vida e que a vida se entregue. Não, não pode jogar-se com a palavra, torná-la substituível. Pode esperar-se pela palavra, que ela nos encontre, que a encontremos. O som faz parte da própria substância da palavra. Escolhe-se a si mesmo para dar a tensão necessária ao verso.

Recentemente, ouvi o poeta Nuno Júdice dizer que “a poesia é antes de tudo o mais, canto, ou seja, um espaço amplo de som e de sentido em que coincidem a música, a palavra e, sobretudo, a ampla respiração que irá conduzir o verso a essa totalidade em que surge a possibilidade de imagem”. A imagem surge-lhe das palavras, ou são as palavras que procuram espelhar a imagem?

Penso que a poesia existe per si. O poema torna-a acessível. A palavra, ao serviço do poema, terá como função circum-ambulare a poesia e facilitar o poema. A imagem que surge das palavras nem sempre representa a imagem, interna ou externa, que a origina. Apenas a aproximação possível. Mas às vezes é a palavra que vai buscar a imagem.

António Ramos Rosa e Eugénio de Andrade são apenas algumas das vozes que refere, e com as quais dialoga, nos seus livros – leia-se o verso “Não se pode adiar o desespero”, numa referência clara ao primeiro. Quem são os seus mestres?

Todos. Qualquer pessoa, qualquer lugar. Tudo, até a ausência de algo ou alguém.

Quando escrevi esse verso que referiu [a integrar o livro «Na Rosa de Yeats»] estava a ler Yeats, mas acompanhada da poesia de Ramos Rosa. O que é natural… “não sei andar só pelos caminhos”, as palavras dos poetas transformam-se na nossa própria substância, num poema qualquer disse: “no meu corpo aberto/ à sombra dos pássaros/ germinam as sementes/ de outras palavras.” E disse-o outras vezes: “(…) o que li/ e foi carne enxertada em mim”. Tenho um grande amor pela poética de Ramos Rosa como pela de Eugénio de Andrade, como por outras. São os diferentes rostos da poesia. Mas os autores que mais releio são Eça de Queiroz e Herman Hesse.

Também se tem dedicado à tradução da obra de outros poetas, nomeadamente Oliverio Girondo e Emily Dickinson – traduções ainda inéditas. A tradução é também criação?

A minha posição em relação à obra dos poetas é de grande humildade. É um acto de amor e uma homenagem, no sentido em que o faço para partilhar algo que me acrescentou como pessoa, não será criação, um reflexo da criação de outrem, “o lado lunar” da poesia, se quiser. Quero escrever, sempre. Traduzir, sempre que quiser. Mais recentemente, numa modesta colaboração com a composição de José Peixoto e a voz de Maria João, descobri o prazer de escrever “letras” e descobri que gostaria de continuar a fazê-lo. E experimentar fazê-lo para fado. As crónicas também fazem parte do meu desejo de escrever.

Como é que nasce a poesia?

A poesia existe, como condição, não como estado. É.

O que é que procura?

Não procuro. Seria um movimento circular. Aceito.

OS FEIXES DE TAGORE
Tu dis­seste
vieste por den­tro da chuva
Era Maio
Olha agora a chuva que cai
não estou no teu olhar
e a face lím­pida das gotas de água
escu­rece nas pedras do passeio

[Do livro inédito «Na Rosa de Yeats»]

entrevista de Filipa Leal em ‘O PRIMEIRO DE JANEIRO, Porto, suplemento DAS ARTES, DAS LETRAS, 20 de Fevereiro de 2006’

Obrigada Filipa

Sobre Rita Roquette de Vasconcellos

Apertava com molas da roupa, papel grosso ao quadro da bicicleta encarnada. Ouvia-se troc-troc-troc e imaginava-me a guiar uma mobylette a pedais enquanto as molas a passar nos aros não saltassem. Era feliz a subir às árvores, a brincar aos índios e cowboys e a ler os 5 e os 7 da Enid Blyton. Cresci a preferir desenhar a construir palavras porque... escrever é triste.
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9 respostas a She’s gonna kill me!

  1. Ivone Costa diz:

    Não kill nada, Rita. A Eugénia é boa menina, vai ver, não tenha medo.

  2. Fera! E o direito ao esquecimento? Bem, bem sei, pressupõe que alguém lembre. Sabe que não tinha isto, não sabe? E que não lia tal desde que foi publicado.

    Já corei até às orelhas, de embaraço, e já me ri. Daqui a dez anos, ou amanhã, vou achar tão patetas algumas das convicções de hoje – confesso, não todas.

  3. LIndo. Isto de 2006, foi ontem, não foi? É uma entrevista risonha, contente. Bem bom.

  4. Panurgo diz:

    Há registo sonoro? A voz da Filipa é em si um Tratado Erótico… bem… Uma conversa boa entre mulheres, exageram sempre muito, o que tem muita graça. Falam da Poesia tal e qual Heidegger, mas com muito mais piada. Citando: “bem bom”.

  5. cc diz:

    Bonito sim, mas muito sério…a Eugénia aqui dos tristes é muito mais divertida!
    ~CC~

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