Sobre um diário

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A propósito de “Quase um diário” do meu mestre Fonseca

No meu diário nunca consegui passar da página um. Aquela em que se escreve Querido Diário. Os diários, acho eu, nunca me foram queridos (talvez por isso, há mais de 30 anos trabalhe em semanários). Presumo, pois, que mais facilmente faria um semanário onde apontaria escrupulosamente o que de mais importante me acontecera nos últimos sete dias. Nada! Sou muito dado ao sentimento instantâneo. Ao sábado não recordo a profunda melancolia das tardes dos domingos anteriores, nem as irritações de segunda-feira, quando muito a alegria estéril das sextas. Sem tempo para fazer um instantário, ou sequer um horário, não me registo. Se me perguntaram o que me aconteceu em 1994 ou em 2003, apenas posso responder: ah, eu na altura era outro! E nem sei se fui assim apenas mais 10 minutos ou se fui até ontem.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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13 respostas a Sobre um diário

  1. mónica diz:

    mais um post daqueles, perfeito. não há fotografia que valha ;)))

    • Henrique Monteiro diz:

      Muito obrigado. Tudo isto se deve à inspiração do Mestre Fonseca, que abaixo me amaldiçoa pela simples razão de o chamar Mestre.

  2. Já viste que se te metes a fazer instantários ainda mandas mais uma cambada de fotógrafos para o desemprego?
    Gostei muito, mas aquilo do mestre, tu e o Norton ainda mas vão pagar. É mesmo piadola de redacção.

  3. CeC diz:

    O problema dos diários sempre será o mesmo: admitir. Ao menos uma história, ainda que tenha a mesma carga de confessional, acaba sempre por fazer parecer que aconteceu a outro, ou que o pensamento e a inevitável conclusão igualmente nos são alheios.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    A ideia do semanário agrada-me. Num diário, surgem minudências que sete dias filtram. O texto? Muito bom como outros que aqui assina (noutro lugar também).

  5. Nem o mestre Fonseca consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo por mais marvellous que seja:

  6. nanovp diz:

    gostei do “instantário”…uma espécie de radiografia contínua do pensamento…

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