Stiletto

Em sentida homenagem às sevícias que as meninas deste blogue sofrem para nos agradar e para se agradarem, aqui deixo um textinho que publiquei o ano passado na bonita revista “Fora de Série” do Diário Económico:

by Louboutin

by Louboutin

Diz Madonna, que não é burra nenhuma: “Os sapatos são melhor do que sexo porque duram mais tempo”. Com sapatos de salto alto, junta-se o melhor de dois mundos – são os mais sexuais de todos os adereços. Aos stilettos, esses “killer shoes” ( nome vem da designação em italiano para os punhais de metal), também se chama por vezes “fuck me shoes”. Não é apenas o sexo. Como lembra Roger Vivier, o Rodin dos saltos altos, que levou o stiletto a alturas jamais vistas a partir de 1953, “usar sonhos nos pés é dar realidade ao que sonhámos”. Dez centímetros mais perto do céu. É por isso que as mesmas mulheres que queimaram soutiens nos anos 70 submeteram a seguir os pés a terríveis milagres de engenharia, destruindo-os? Foi em nome da aparência de pernas mais longas e da ilusão de cinturas mais finas?

Os saltos altos podem causar problemas de coluna, desfigurar os dedos dos pés ou provocar deformidades comparáveis às das chinesas que atavam os pés até 1911 para os tornar mais pequenos – o mais célebre dos contos de fadas, Cinderela, teve origem numa história chinesa do século IX, porque o pé minúsculo foi, durante séculos, o símbolo supremo da beleza feminina. As mulheres do século XXI continuam a sofrer horrores nos pés, enfiando-os em plataformas minimais, sustentando o corpo em agulhas estratosféricas, balançando precariamente oito ou dez horas por dia. Nove em cada dez senhoras usam sapatos demasiado apertados para os seus pés. Oito em dez admitem usar calçado que as magoa. De acordo com a “American Academy of Orthopaedic Surgeons”, as mulheres sujeitam-se a sofrer dez vezes mais problemas ortopédicos do que os homens por causa dos sapatos – altos, altíssimos – que enfiam nos calcanhares. O pé contém um terço dos ossos do corpo humano. Tem 35 articulações e mais de 100 ligamentos, tendões e músculos. Absorve 2,5 vezes o nosso peso quando caminhamos. Os saltos altos colocam uma pressão invulgar nos pés, dirigindo-a para os dedos em vez de a distribuir de maneira uniforme pelos dedos e calcanhar. O arco do pé, esse eterno sofredor, perde a estabilidade para absorver o choque e gerar  novo equilíbrio. Resultado: entorses, fracturas, roturas de ligamentos, lesões nas costas e nos tornozelos, tendinites, redução do tendão de Aquiles, aumento da batida cardíaca e da necessidade de oxigénio (é uma espécie de “rough sex”, portanto). Há até uma lesão conhecida como “fractura Gloria Gaynor”, resultado de uma dança a mais com stilettos. Nada disto demove a amante dos saltos altos. Há mesmo donzelas que, em vez de mudarem de sapatos, mudam de pés. Hoje, nos E.U.A. e na Europa, são cada vez mais frequentes as operações aos dedos dos pés para os tornar mais adaptáveis aos apertadíssimos  e imperiais – e altos como o Empire State Building – Manolos ou Loubotins. Já chamam ao pé “a cara do século XXI”: os produtos que se injectavam no rosto para o rejuvenescer injectam-se agora nos pés, para os tornar mais almofadados às sevícias do stiletto. E lá regressamos: Porquê?

Beleza, selecção natural, poder, status, auto-satisfação, competitividade, apelo fetichista, sublimação erótica, as respostas são várias. Para antropólogos como E.O. Smith, o aumento da altura no calcanhar cria a ilusão de um pé mais pequeno, de um tornozelo mais delgado, de pernas mais esguias, de uma cintura mais fina, de nádegas mais firmes, de seios mais proeminentes. Digam lá: se fossem mulheres, não correriam já a comprar os últimos saltos altos da Prada (ou da Zara, que também os vende)? E há algum ser humano com pilosidade facial que não vire o rosto – e eriçe o pelo – cada vez que passa por uma mulher em stilettos? Depois, qualquer senhora vos falará da importância do contacto visual. Num mundo ainda masculino, o contacto do olhar faz-se com novas vantagens mútuas quando a altura dos intervenientes é equilibrada (embora os homens pareçam murchar a cada dia que passa, e as mulheres pareçam crescer a cada minuto). Os saltos altos reordenam a dinâmica do poder, tornando mais confiante – e mais espectacular – o movimento feminino. Ou seja: os centímetros a mais trazem alguma justiça ao universo. E quem se mete com a proprietária de uns Balenciaga de salto agulha ou de umas botas Gucci, ambas armas potencialmente fatais?

 Não se pense que o salto alto foi sempre um exclusivo das senhoras. Bem pelo contrário. Os talhantes do Antigo Egipto usavam saltos altos para evitar ficarem com os pés manchados pelo sangue  dos animais (não é uma recordação agradável). Ésquilo, dramaturgo de respeito, criou o “khortonos”, o primeiro salto oficial da História, para “adicionar majestade” aos heróis masculinos das suas peças. E os cavaleiros mongóis, esses machões, usavam saltos nas botas para ajustarem melhor os pés aos estribos.

A Renascença não foi apenas um triunfo técnico e cultural. Foi também um salto em frente para o salto alto. Começou com as “chopines”, umas plataformas de madeira de 60 centímetros, inventadas na Turquia, que chegaram aos pés das cortesãs de Veneza no início do século XVI – elas precisavam de escravas para as ajudar a caminhar (o que faziam pouco, já que o seu trabalho era mais horizontal do que vertical). Em 1553, Catarina de Médicis, uma miúda de 14 anos, baixinha mas esperta como um alho, importou os saltos altos de Florença, usando-os no casamento com o Duque de Orleães, futuro rei de França – sabia ir competir com uma mulher mais alta, Diane de Poitiers, a amante do duque. Em vinte anos, as mulheres nobres de toda a Europa tinham adoptado os saltos altos. Além de as distinguirem dos “outros” – o desgraçado grosso da população que lutava para não morrer à fome -, os saltos permitiam-lhes elevar os pés acima da lama. Os homens, sempre pobres imitadores, seguiram a moda. Embora não fosse fácil para eles, uma vez que o pé esquerdo era desenhado exactamente como o pé direito, e o maior peso levava-os a tombar para a frente (usavam bengalas para se apoiar). Luís XIV, outro baixote – porque acham que se auto-apelidou de Rei Sol? – popularizou ainda mais os saltos na corte ao longo do século XVII, acrescentando a obrigatoriedade do vermelho no tacão (são os “talons rouges”). Diz-se que, com os saltos e a peruca, Luís XIV ficava 30 centímetros mais alto. Por um obscuro desígnio “fashion” – estariam fartos das bengalas? – os senhores abandonaram os saltos a partir de 1730. Mas a Marquesa de Pompadou, a amante do rei seguinte, Luís XV, celebrizou o chamado “salto francês”.

Com as revoluções francesa e americana no final do século XVIII, a aristocracia entrou em crise, e os saltos desceram. As “demoiselles” das classes altas adoptaram os sapatos rasos do povo e da burguesia, e Maria Antonieta, prestes a desfazer-se da cabeça em 1793, não se conseguiu desfazer dos saltos altos a caminho da guilhotina. Era o fim de uma era.

Na Europa napoleónica, os saltos foram proibidos – o que a medida deve ter custado ao próprio Napoleão… – e na América, durante décadas, os puritanos associaram o uso de saltos altos com o Diabo (a colónia do Massachussets chegou a passar uma lei que condenava o seu uso como prática de feitiçaria, e não andavam longe da verdade). Foi preciso uma mulher de génio – Madame Kathy, dona de um bordel com o seu nome em Nova Orleães – para mudar novamente o curso da Historia: vendo o capcioso sucesso duma prostituta francesa recém-contratada, que  andava sempre de saltos altos, ordenou que todas as trabalhadoras do seu estabelecimento usassem o mesmo. O êxito foi tanto que os clientes encomendaram “sapatos franceses” para as respectivas esposas. Em 1888, uma fábrica de Massachussets – o feitiço lá se impôs – começou a produzir saltos altos em grandes quantidades.

Em meados do século XIX, com a construção de largas avenidas pavimentadas em Nova Iorque e Paris, os tacões voltaram a dominar as ruas e, por volta de 1890, as bailarinas de Can-Can subiam as saias para revelar as botas de… salto alto. O início do século XX marcou-se ao passo dos botins, das loucas festas da Belle Époque, dos sapatos desportivos com salto, e a crise gerada pelo crash de Wall Street em 1929 não diminuiu a febre, antes subiu a temperatura. A Grande Depressão motivou a necessidade de escapismo, e os saltos altos surgiram nos pés de Jean Harlow, Paulette Godard, Carole Lombard, as novas musas globais de uma empresa de sonhos chamada Hollywood. Ginger Rogers dançava com Fred Astaire nuns saltos altos de marfim reluzente, e apesar das privações da economia de guerra na II Guerra Mundial, os saltos democratizaram-se, utilizando produtos que não eram racionados, como palhinha ou pele de cobra. A seguir ao conflito, os homens regressaram à vida civil, e as mulheres recolheram a casa por algum tempo. Mas já nada seria o mesmo. Era o momento do stiletto, criado graças aos esforços tecnológicos da guerra. Até então, os materiais limitavam a altura do salto,e a madeira por vezes quebrava sob o peso da utilizadora. Agora, com um novo salto feito de aço, leve, fino, capaz de suportar grandes pressões, o céu era o limite. E foi.

A autoria do stiletto ainda hoje é discutida – há quem fale das criações de Andre Perugia para a cantora parisiense Mistinguett, e quem jure pelo pioneirismo dos italianos Salvatore Ferragamo, Albanese Di Roma ou Dal Co – mas o primeiro artista do stiletto foi Roger Vivier. Em 1952, criou a imortal silhueta para a casa Dior. O comprido calcanhar era todo um programa fálico, mas foi a elegância do corpo feminino sobre o “salto agulha”, celebrizado por Vivier a partir de 1956, que fez a diferença.

A princípio, os stilettos não tiveram vida fácil: eram banidos de certos edifícios públicos devido aos estragos que causavam nos soalhos (distribuíam-se sacos para as senhoras guardarem objectos tão imorais), e algumas companhias de aviação proibiam-nos, com medo de que rompessem o solo das aeronaves. As feministas ainda berraram contra “o pé captivo das mulheres”, mas os stilettos em forma de vírgula, de piramide, de caracol fizeram-se ouvir nos pavimentos de todo o mundo, quebrando novamente as limitações de género.

A androgenia, a moda unisexo e o culto do “glam” voltaram a enfiar os saltos altos nos pés dos homens, e os fãs de Marc Bolan, Elton John ou David Bowie desafiavam-se para ver quem usava as maiores plataformas. John Travolta abriu “Febre de Sábado à Noite” a caminhar numas botas de “saltos cubanos” e os stilettos femininos invadiram o Studio 54 nova-iorquino e as discotecas icónicas de Paris, Londres, Berlim. Os saltos entraram no mundo empresarial para não mais dele sairem – era o “female empowerment” dos anos 80, com a cultura “yuppie” a repartir os stilettos pela alta costura e a “street fashion”.

by Manolo

by Manolo

Nasceram novos deuses da moda, do alto das suas infinitas agulhas: Manolo Blahnik, um miúdo espanhol que fazia vestidos para os lagartos das ilhas Canárias onde cresceu, começou a desenhar saltos “agulha” em 1974, mas foi uma série de tv chamada “O Sexo e A Cidade”, já nos anos 90, que o celebrizou (para Blahnik, o limite de uns saltos confortáveis são os 11,5 cms); Christian Loubotin lançou um salto com curvas, o “Marilyn”; Jean-Paul Gaultier criou o salto de centopeia, com vários níveis de tacão; Vivienne Westwood engendrou stilettos tão altos que Naomi Campbell tropeçou em plena passarela. Os stilettos tornaram-se os derradeiros instrumentos de status e de glamour, com as peças de Balenciaga, Gucci, Prada, Giuseppe Zanotti, Jimmy Choo a chegarem a preços estratosféricos.

Lady Gaga doou os sapatos com salto de 27 cms do recém-desaparecido Alexander McQueen, que usara no videoclip de “Bad Romance”, após três manequins profissionais se terem recusado a usá-los nas respectivas passagens de modelos. A Crunch, uma rede norte-americana de ginásios com expansão nacional, começou a vender as “Stiletto Strength”, um conjunto de aulas para fortalecer as pernas e os pés das proprietárias de saltos altos. Como confessou à CNN Elizabeth Semmelhack, autora do livro “”Heights of Fashion: A History of the Elevated Shoe”, “a altura dos saltos aumentou durante a Grande Depressão dos anos 30, durante a crise petrolífeira dos anos 70 e durante a explosão da bolha das empresas de Internet, nos anos 2000. Os stilettos estão agora mais alto do que alguma vez estiveram”. Se tivermos em conta o maior estudo de sempre sobre fetichismos, levado a cabo em 2007 pela Universidade de Bolonha, onde se apontava a preferência por pés de 47% dos inquiridos, anda aí muita gente satisfeita.

"et pour cause: by Vivier

“et pour cause: by Vivier

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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10 respostas a Stiletto

  1. Ana Rita Seabra diz:

    Que belo texto Pedro!
    Adoro saltos e ando todos os dias a tentar fingir que sou mais alta 🙂
    Se a nossa calçada permitisse eu andaria de stiletto todos os dias!!!!

  2. Pedro Marta Santos diz:

    Seríamos todos mais felizes se a Ana Rita e as mulheres portuguesas usassem stilettos todos os dias. E há leis municipais mais parvas do que obrigar-vos amavelmente a isso (eu sei, deve dar cabo do mindinho, esse portento de dedo).

  3. Gostei muito, Pedro. Adoro saltos. É uma perdição, não posso fazer nada – mas tenho sempre umas havaianas giras enfiadas na carteira. Vá lá que também me pelo por Uggs, sabrinas e afins, e há sandálias rasas lindas.

  4. Escreveu-me o Diderot a pedir este teu artigo para incluir numa coisa que quer fazer com o Voltaire. Gostei muito e aprendi tudo.
    E já agora, queridos Tristes, vamos oferecer uns manolo blah­nik ao pms. Que número é que calças?

    • Ivone Costa diz:

      Que é lá isso, Manel. Se o nosso Pedro merece uma Manolos, eu quero uns Louboutin.
      Queridíssimo, PMS, este deslumbramento de texto merecia uma resposta de saltos finos, mas houve estou demasiado fraquinha, seja para o que for, mas en tout cas ainda deixo aqui uma grande verdade: homem que não percebe a importância de uns saltos bem altos, não percebe muita coisa importante, o que não é, manifestamente, o caso de Vexa.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Ai que alegria ler um homem que aprecia e recolhe estória dos nossos amados dependuros! Obrigadinha, sim? 🙂

  6. nanovp diz:

    “Altíssimo” texto Pedro, extraordinária viajem pela história, o lado irónico, real, artístico e sensual. Lembrei-me logo do Prince…

  7. Vim aqui a correr, mas aproveito para relembrar que o povo quer é uma confirmação empírica da sua existência, Eugénia, seja de havaianas, chopines ou burka. Calço 45, amigo Fonseca, palpita-me que o Blahnik ainda não confecciona para divas com estes opíparos pezinhos. Ivone e Maria do Céu, aguardo por deliciar-me com as meninas desfilando nas jantaradas em saltos dionisíacos. O Prince é um reguila, Bernardo, sabe-a toda.

  8. Fantásticos! O texto e os sapatos.

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