Subsídios para o conceito de porte de saltos altos in lecto

A propósito do post da Eugénia, dos saltos e da conversa que se seguiu na caixa de comentários, deixo aqui um excerto do último Javier Marías, Os enamoramentos.

(… ) mas por prazer ou por comodidade acabava por me tirar as outras peças de roupa; bem, às vezes sugeria-me que calçasse outra vez os sapatos de pois de descalçar as meias, só se os que levava eram de salto, muitos homens são fiéis a certas imagens clássicas, eu entendo-os – também tenho as minhas – e não me oponho, nada me custa fazer-lhes a vontade e até me sinto lisonjeada por corresponder a uma fantasia já dotada de algum prestígio, o da sua perduração através de uma quantas gerações, não é pouco mérito. (p.191)

Ora bem, este porte de sapatos de salto alto in lecto (uso a palavra “porte” por analogia com  “porte de arma” porque o conceito de arma é muito extenso e talvez o nosso Diogo possa informar se já há jurisprudência sobre o assunto dos saltos altos na circunstância supra) aparece aqui sustentado por um argumento que me parece meritório que é o de que o prestígio que advém ao uso de saltos altos in lecto lhe ser dado por uma tradição de gerações. Um clássico é um clássico. Como diz a narradora do livro de J. Marías:  é entendê-los,  que também temos as nossas.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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14 respostas a Subsídios para o conceito de porte de saltos altos in lecto

  1. monica diz:

    o meu subsídio para portes é “os clássicos já não têm imaginação”

    • Ivone Costa diz:

      Oh, monica, isso daria conversa para muito tempo e eu sou velha e idosa e já me vai faltando o tempo. Mas obrigada pelo seu comentário.

  2. Não concordo, Ivone. Nem com a narradora de voz de homem que o Javier lailai traz para apoio das bases femininas.

    A compreensão não é erótica, é toma lá-dá cá, serviçal, induz à saciedade. O poder é erótico, satisfaz e dá fome – o poder, sim, é clássico.

  3. Seja como for, fiquei curioso: a que imagem clássica do homem in lecto são as mulheres fiéis? De chapéu? Só de gravata? Não peçam é a um homem que fique só de peúgas…

    • Ivone Costa diz:

      Manuel, Manuel. Os homens foram feitos à imagem de Deus, querem-se nus. Mesmo que in lecto seja só para dormir. Nem pijama. Uma adâmica nudez é um turn on dos diabos. O corpo de um homem foi feito para se andar por ele, das praças às vielas, recantos e outras demoras.

      ( a conversa entorna-se, de vez enquando, neste blogue … e logo eu que respeito tanto a Tia …)

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    A sério e com graça. Contribuo para o subsídio.

  5. nanovp diz:

    Nada como a tradição Ivone…

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