The Road

Houve o tempo do romance. E nele grandes romancistas, extraordinária obra. Esse é um mundo que se veio fechando – porque assim são os modos do mundo e hoje essa fórmula perdeu-se como antes outras. A epopeia, por exemplo. Há ainda meia dúzia de romancistas vivos. Cormac McCarthy faz parte dessa meia dúzia de excelência. 


THE ROAD, de Cormac McCarthy

You have to carry the fire.
I don’t know how to.
Yes, you do.
Is the fire real? The fire?
Yes it is.
Where is it? I don’t know where it is.
Yes you do. It’s inside you. It always was there. I can see it.

Em The Road, as personagens não têm nome. São o pai e o filho. Mas porque não têm nome, não são apenas aqueles pai e filho, são um pai e um filho indefinidos: somos nós.

Somos nós a caminho, numa estrada desconhecida, e desde uma terra por nomear, a norte do sul pretendido – o destino com que se justifica a viagem. Nós, numa estrada, em viagem. É a vida de cada um.

Este percurso de norte para sul acontece num tempo em que a civilização, por um incontado apocalipse, se desfez. Quando a civilização se desfaz, também a humanidade que a ergueu se desfaz. É o tempo da sobrevivência. Em cada dia. É cada dia. É hoje.

Sós, pai e filho, caminham para sobreviver. Caminhamos. Os outros que encontram são estranhos. E desconhecidos. São estranhos quando regressaram às entranhas da bestialidade. São desconhecidos porque não se sabe se cada um deles é já um estranho ou ainda um homem. E são o espelho da natureza humana dentro e fora da civilização.

Em cada decisão que preserva o valor humano, a ética, a inteligente besta sadia, o reduto de humanidade salva-se e transmitida de pai para filho, e inspirada pelo filho ao pai, a civilização refaz-se. No entanto, este fazer a favor da humanidade e da civilização é, essencialmente, esperança contra a realidade desesperada, assente num passo de perigo a seguir a outro, e sob a ameaça iminente que ronda, espreita, ruge: a do homem animal, amoral, reptiliano, canibal. Monstruoso. Bestial. Pior que tudo, a tentação de ceder aqui acreditando que não se cederá ali, a negociação do compromisso impossível: é já o monstro dentro quem sibila. É o monstro dentro que é preciso domar. Não matá-lo. Porque também é ele quem fareja os outros iguais a ele, em redor, é ele o dono do medo que esconde para proteger e da faca que rasga para sobreviver. O pai, não é apenas o pai do seu filho, é o pai em nós, ancestral, primevo.

Cormac Mcarthy fez um romance sobre a essência do ser. E, em perfeito equilíbrio, formalmente, fê-lo com essencialidade de linguagem, estruturalmente simples, um esqueleto revestido da matéria fundamental e só dela. E fê-lo deixando a poética da morte cair sobre a vida. Implacável, a cinza cai.

A cinza cai sobre a estrada. Duas vontades em conflito. Duas pulsões. O homem, em extrema solidão, sustentado apenas em si mesmo e no futuro de si mesmo, o filho, real ou simbólico. Duas pulsões, o homem para as integrar e nesse processo fixar a ideia perene da civilização na construção precária, diária, da civilização.

Se isto não for literatura, se esta sublimação da vida em palavras não for arte, então quero bem que literatura e arte se fodam.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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25 respostas a The Road

  1. maria joão Vasconcelos diz:

    Adorei……vou ler….que dificil é encontrar um bom romance , nestas livrarias tão cheias de livros!!!!!!!!!!!

  2. Henrique Monteiro diz:

    Exato. Muito bom. McCarthy bem lido.

  3. Já estava escrito, por McCarthy, com esse pessimismo que o optimismo da frase, da palavra, rasga! Agora Está Escrito, neste texto de confessional celebração da Eugénia: o homem, em extrema soli­dão, sus­ten­tado ape­nas em si mesmo, salva-se na escrita, construção precária de uma civilização que se desfaz (ou parece desfazer-se). Pode ser uma maneira errada, mas gostei muito, desta maneira.

  4. Paula Santos diz:

    Boa noite. Que vontade me nasceu para a leitura deste fragmento de vida, a julgar pelas palavras sempre tão apaladadas 🙂 da Eugénia.
    Obrigada pela sugestão. Fica na lista.

  5. ‘… I can see it.’
    gostei muito

  6. curioso (vir al) diz:

    eu já quero isso desde o tempo em que andava no ventre… estou (ainda) em desintoxicação. não saímos disto, nem com a eco logia rei nante 😉

  7. Pedro Norton diz:

    E que se fodam todos quantos disserem que McCarthy não é o Faulkner do século XXI.

    http://geracaode60.blogspot.pt/2007/08/estrada.html

  8. Nem mais! E vou já bisbilhotar isto…

  9. Gostei de ler o McCarthy através de si, Eugénia. Thanks

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    Não conhecia, ‘shame on me’. Através de si, vou-me daqui para compra de bem tão apelativo.

  11. nanovp diz:

    O pai ( nosso, de todos nós, como diz) que re-faz na sua relação com o filho, toda uma civilização!
    Sem dúvida um dos grandes escritores Americanos vivos, muito bem “visitado” por si Eugénia…

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