Twin Shadow

Eu já tinha um fraquinho pela República Dominicana. A empatia começou, é certo, pela única razão pela qual a grande maioria ouviu falar da República Dominicana. Se disseram Punta Cana, acertaram, diz-vos alguém que teve a sorte de não ver lá o tenebroso turismo de massas que afasta os que gostam de se afirmar viajantes em vez de turistas. Continuou depois com o extraordinário A Festa do Chibo, o meu livro preferido de Vargas Llosa, que tem como pano de fundo os trinta anos em que o ditador Trujillo governou o país. O namoro prosseguiu o ano passado, nos Jogos Olímpicos de Londres, com o único momento que me arrancou (e ao Manuel também, como o contou aqui) uma lágrima do canto do olho, a emocionante vitória do dominicano Felix Sanchez nos 400 metros barreiras e, sobretudo, o que se lhe seguiu desde que cortou a linha de meta até que o hino acabou de tocar.

Mas só me deixei mesmo arrebatar quando descobri que a República Dominicana foi o país que, em 1983, viu nascer George Lewis Jr.. Viu-o nascer antes de ele debandar para a Florida e depois para Brooklyn, NY e se transformar em Twin Shadow, o autor dos dois magníficos álbuns Forget e Confess. Se lhe parecer ouvir um Morrissey a querer sair das cordas vocais de George, uma inflexão na melodia a soar a Prince, um riff de guitarra a deixar saudades do melhor que os eighties nos deixaram, não está enganado mesmo. Twin Shadow é capaz disso e de muito mais. Ora oiçam lá este irresistível Run My Heart e depois venham cá dizer se a República Dominicana é ou não é um país do caraças.

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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10 respostas a Twin Shadow

  1. Diogo, o Twin corre menos do que o Sanchez. E a Festa do Chibo, dizes bem, é um soberbo romance.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, o Twin é um corredor de longa distância, a sua meta está bem mais longe do que aquela para que correm os velocistas pop. Quando se fizer a história da década, ele estará, muito provavelmente, no pódio.

  2. Isabel Fragoso diz:

    Confesso Diogo, que não tinha ainda lido a segunda linha e o meu pensamento já se passeava de bikini entre beldades caribeñas, não só bípedes, mas também do reino vegetal, mineral (só pode ser influencia do frio que por cá me ajusta a pele aos ossos) e antes que começasse a flutuar na temperatura morna do Atlântico temperado de Caribe, surpreendes-me com esta introdução de “viajante” ao Twin Shadow! Novamente apertada pelo frio, ouvi Run My Heart e depois Patience, Forget, Five Seconds e lembrei-me das tuas palavras e de como a República Dominicana era berço de tantos talentos. Fechei os olhos, ouvi mais uma vez Run My Heart e pareceu-me que George Lewis Jr nasceu na R.D. por acidente e que não é dominicano em nada, nem no passaporte! A sua música tocada, a sua voz cantada é em tudo ocidental, até sinto as centenas, os milhares de ensaios de quem começou pelo princípio, é mesmo fantástico e consegue trazer memórias, muitas e optimas, dos bons concertos de antigamente. No entanto e aqui está a confirmação da sua origem dominicana e do sangue que o seu coração bombeia, é que ao seu som dei de novo comigo envolvida e embalada por um clima quente. Bom de verdade, é que Twin Shadow está a acontecer agora no nosso presente.
    bj

    • Diogo Leote diz:

      Isabel, em tempo de crise, em que todas as poupanças são bem vindas, folgo em saber que as minhas palavras, e sobretudo a música de Twin Shadow, te tenham transportado, sem sequer apanhares um avião, para as águas mornas do Caribe. Aproveita bem!

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Importante, além da adorável leitura do texto, é a distinção entre hordas de turistas acotovelando-se para o melhor «cjick» e a dos viajantes que correm mundo para o compreenderem, bem como o «eu».

  4. Diogo Leote diz:

    Maria, resta-me desejar-lhe uma boa viagem ao som de Twin Shadow. Depois não se esqueça de vir contar à Tia para que paragens foi levada.

  5. Maria diz:

    Gostei e repeti porém, lamento dizê-lo, não consegui ser transportada para “ninhumas” águas mornas; se calhar o frio por aqui é maior que o da vizinha Isabel 🙂

  6. Diogo Leote diz:

    Deixe estar Maria que não está só: o Twin, a mim, também não me leva para as Caraíbas. E faz-me viajar mais no tempo, para os anos 80, do que no espaço.

  7. nanovp diz:

    Não conhecia Diogo! Parece bom, tem qualquer coisa como dizes de “eighties”… de “Trujillo” já não sei. E leste a “Guerra do Fim do Mundo ” ?

  8. Bernardo, garanto-te que, com o Trujillo, o Twin Shadow só partilha mesmo o país de nascimento. Mas podes ler a Festa do Chibo ao som de qualquer dos álbuns do Twin. A Guerra do Fim do Mundo está, há muito, na minha lista de romances do Vargas Llosa que ainda tenho por ler (já não são muitos).

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