Uma espécie de crítica cinematográfica: Lincoln

 

Fui ao cinema e vi a democracia. Numa obra-prima chamada “Lincoln”. Gosto do filme com uma loucura que julgava esquecida. Ao vê-lo hoje, pela terceira vez, no cinema, senti-me como se tivesse vivido nos anos 50 e tivesse visto na estreia, um filme de Ford, o “Sun Shines Bright” ou o “Wings of Eagles”. Como se tivesse visto no seu tempo – e eu gostava tanto de ter tido 20 anos nos anos 50 do século passado, como tenho agora uma projectiva puta de uma vontade de voltar a ter 20 anos nos anos 30 que hão-de vir – como se tivesse visto no seu tempo, dizia eu, um filme de Ford a formar-se em luz e sombras, lentíssimos movimentos de câmara, interiores, actores e teatro, psicologia, voz humana, dicção, olhares.

Fui ao cinema e vi a democracia. A democracia do mundo sensível, da doxa, das coisas concretas, deste mundo da caverna. Bem sei que a democracia que muitos trazem na boquinha florida é a democracia do mundo das Formas, desse inteligível com que Platão nos partiu a cabeça ao  meio, uma coisa Ideal, Pura, Impoluta. Uma coisa que não Fode nem sai de Cima. Spielberg em “Lincoln”, em atravancadas e escuras salas, de fumo espesso e luz rembranditana, mostra-nos o rosto impuro, desapiedado da democracia, rosto manipulativo, corrupto. E, todavia, é o mais nobre dos rostos. Rosto de sofrimento e de sacrifício.

Não se conte com prazeres fáceis. Fazer custa. Custa à exaustão. O resto é conversa, jeremíadas, caguinchice e muito ranho. Fazer custa comó caralho. Leva ao desespero, à loucura. Morrem filhos nos braços dos pais. Vi tudo, a escarrada cara da democracia, o gesto altruísta, o consolo de ter valido a pena, mesmo, sobretudo, quando nada se ganha com isso. Num filme, o mais nobre dos filmes, kammerspielfilm de um homem numa solidão de Murnau, o único filme de Spielberg em que um filho pode confiar num pai.

Hei-de voltar a isto.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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17 respostas a Uma espécie de crítica cinematográfica: Lincoln

  1. curioso (pre venido) diz:

    felizmente ainda não o vi. vi só a apresentação. tenebrosa, quase. exagerada, certamente. já me falaram do Day. um apaixonado perfectionista. irei vê-lo, pre venido pela forte caralhada contra algum estilhaço que saia de cena 😉

  2. Rita V. diz:

    kam­mers­pi­el­film…interesting like your post

    • Rita o kammerspiel vem do teatro e Murnau, entre outros, passa o estilo para o cinema: um estilo cinemtográfico íntimo, de muito trabalho sobre o rosto dos actores que deve devolver a psicolofia da personagem, uma luz trabalhadíssima…

  3. Há vontade e gosto à fartura neste texto, Manuel Fonseca: fica-se logo contagiado!

  4. Panurgo diz:

    Então agora você vai ao cinema ver putas? E sai de lá a dizer palavrões? Mau. Democracias me fodam, se isto não está tudo mudado!

  5. fernando canhão diz:

    easy is to piss on the bath

  6. Spielberg? fazer obras primas? credo! só mesmo no ótimo marketing da indústria cinematográfica americana, e só para ferrenhos consumidores dessa cultura. Ele chegou a realizar um filme com algum interesse, Duel, e foi para a TV, depois, nem vale meio bilhete de cinema.

    • Já sabes que sou um ferrenho defensor “dessa” cultura. Aliás só há “cultura cinematográfica porque há “essa”, caso contrário Táxi, ficavas a chuchar no dedo.

  7. nanovp diz:

    Pois o tema para mim é realmente “o tema”, porque damos por garantida a (porra) da “democracia”, e esqueçemos que há que travar guerras sangrentas para a manter…pelo menos enquanto acreditarmos que este é o melhor de todos os maus sistemas…

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Fiquei «augada». Volte, volte. Espero-o.

  9. É bom ver-te a regressar ao cinema – há mais alguma coisa que interessa? – com tanta paixão.

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