We´re dead already

BATATAS
Vende-se Batatas. Um cartaz atípico, embora bem posto, sem qualquer improviso, coisa encomendada, fundo azul, letras verdes, ao centro, Vende-se Batatas, e tinha desenhados barcos. Quatro: um em cima, outro em baixo, um à esquerda, outro à direita. Ao meio, a frase.

O portão fechado. Tudo murado. Como querem que uma pessoa entre para comprar batatas? Uma campainha. E tocará onde isto? Nem uma casa à vista, ninguém, nada. Nem sabia que queria batatas, e agora só quer as batatas. Mulher caprichosa. Até o pensamento se lê: vou descascá-las, cozê-las, regá-las com um belo azeite aromatizado com alhinho; depois de descaroçar umas azeitonas pretas e de as acrescentar às batatas, vou polvilhá-las com orégãos e fazê-las acompanhar de… de… de… bem, de um peixinho grelhado, mas qual? Já vejo, agora não me ocorre. Que rápido. De onde terá vindo? Diabo, parece que veio do nada.

– Boa tarde, diz aqui que tem batatas para vender.
– Olá, boa tarde. Batatas, tomates, chalotas, cenouras. Somos os maiores produtores de framboesas do país. Groselhas. Mel das nossas colmeias. Vinho. É tudo para exportação. E vendemos aqui, só aqui, localmente, pequenas quantidades para consumo familiar. Queremos manter esta ligação mais pessoal com quem passa para chegar à cidade e com quem vem de lá.
– No cartaz só está escrito, Vende-se Batatas. Disse framboesas? Gosto tanto de framboesas. São tão caras, é um despropósito. Também levo.
– O cartaz é uma brincadeira nossa. Entre.

Do lado direito, impossível de se avistar do portão, a casa de guarda convertida  numa delicatessen de quinta – há-as aí por todo lado, e rara é a quinta que a não tem, os vinhos, os queijos, os enchidos, os doces, enfim, o que por lá se produza, e até a própria vida em turismos mais ou menos rurais de fim de semana. Também tem a porta fechada. Abre-a. Cheira bem, cheira a lenha de azinho a queimar na lareira. E a alecrim.

– Que ricos figos. Vou levar: faço um morgado de figo com chocolate que é uma perdição com o café. O meu avô gostava muito, dizia que era igualzinho ao da tia Maria Antónia que obviamente nunca conheci já que era a tia avó dele.
– Sim, de facto, você é a imagem pintada da Maria Antónia.

Olha-o nos olhos. Estará a gozar? Porquê? Não faz sentido, tem um ar afável. Aquele ar de quem está de bem com vida, e todavia, ai se o chateiam. Percorre-o com atenção. Parecera-lhe tão familiar que, descontraída, nem tinha reparado nele: cabelo escuro, cortado curto, bem cortado, sem mariquices, alguns brancos, não muitos. Olhos bem colocados – é caprichosa, isso sabe-se, não gosta de olhos muito juntos, preconceito de má frenologista, assentam em gente de vistas estreitas, porém obstinada, o que podendo ser um bem, não deixa de ser uma chatice, a estreiteza, claro -, até as pestanas enroladas, quase de menino, são uma linha perfeita de curva. Tem uma camisa azul, um pullover azul, calças de ganga, uns ténis castanhos, de caminhada, enfim, vê-se que está em casa, que é fim de semana. Boca boa de beijar, um sorriso tão bonito, claríssimo. Há inteligência e bondade naquele sorriso. O sorriso é que lixa a maioria dos homens inteligentes. Um cínico tem falta de inocência, o riso é-lhe um esforço, faz eco quando lhe bate nas paredes da superioridade. Bons modos. Reservado sem timidez. Ou é solteiro ou não usa aliança. Tem cara de quem tem a casa cheia de livros lidos. É preciso ter cuidado, é fácil gostar uma vida inteira de um homem assim.

– Porque é que disse que eu era parecida com a Maria Antónia?
– Porque é igual. E é verdade, o morgado da Maria Antónia era uma especialidade. Mas ela servia-o com chá. Preto. Açoriano. Trazia-lho o pai de lá.
– Como é que sabe isso tudo?
– Sou o noivo da Maria Antónia.
– O noivo da Maria Antónia morreu há cem anos!
– Sim, foi um ataque de coração fulminante. Estou convencido de que foi excesso de felicidade, vida demais para um corpo.
– Não vejo fantasmas, não falo com fantasmas, não acredito na vida depois da morte, não consumo drogas e não estou a sonhar.
– Tem razão em tudo.
– Vou-me embora, não quero batatas nem framboesas nem coisa nenhuma.
– Não vai não. Aquele corpo ali sobre o volante é o seu. É o seu carro, repare. Não lhe vou dizer que está morta, porque está aqui a falar comigo – sabe perfeitamente que está viva. Mas para todos os efeitos da vida como a conheceu, está morta.
– E agora?
– Agora vão reanimá-la e nunca mais nada voltará a ser o mesmo.
– Porquê?
– É fácil viver quando sabemos que já estamos mortos.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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7 respostas a We´re dead already

  1. curioso (boa nota) diz:

    há aqui, nesta arte contista, umas quantas ligações à realidade.

    lembraram-me o relvas, o mestre, o vaz con cellos.

    nota dez 😉

  2. Sandra Barata Belo diz:

    gostei das framboesas depois da vida…
    gostei muito do seu conto.

  3. Sem interstícios esta passagem da realidade ao fantomático que logo volta a ser (verdadeira) vida.

    • Sem interslailailai porque nunca deixou de ser vida! Para que conste: prefiro esta que conheço com o corpicho do que a outra que a lógica me diz que existe mas não experimentei a não ser com o pensamento.

  4. nanovp diz:

    Estive lá Eugénia, será que também estou morto?…

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