Comer arcas, alpergatas e ratos

image   Médico, ex-bastonário da Ordem apaixonado pelos Descobrimentos, Germano de Sousa dedicou-se, com pormenor clínico, a estudar a medicina portuguesa no tempo dos Descobrimentos. Das longas horas passadas a consultar livros, decretos, regulamentos e memórias nasceu esta História da Medicina Portuguesa Durante a Expansão, que a Temas e Debates e o Círculo de Leitores agora editam. As mais de 300 páginas, sem contar com ilustrações de instrumentos e práticas de então, abordam o ensino, a prática da medicina, os mais destacados médicos da época, a assistência aos doentes, a saúde (e falta dela) a bordo, a praxe médica e hospitalar nas terras descobertas e as novas doenças por elas trazidas. A isto somam-se diversos anexos com leis, decretos e regulamentos, além do quadro do Hospital de Todos os Santos e a composição de algumas boticas transportadas nas naus, com a descrição dos diversos unguentos e mezinhas. O livro, que o próprio autor considera “da pequena história”, ou seja de uma história setorial, ajuda, de facto, como Germano de Sousa esperava, a compreender melhor a grande História. É um enorme repositório do estado da arte na época, que nos transporta para a dimensão simultaneamente grandiosa, trágica e aventureira do século de ouro português. Um único reparo: creio que, por vezes, o autor se esquece de que não somos médicos pelo que lhe escorrega a mão para frases como “bacilo Gram-negativo que se multiplica rapidamente no intestino do homem e que, entre 190 serogrupos, tem dois que produzem uma enterotoxina”. Está a falar da cólera (doença), como fica explícito na própria página, antes mesmo desta descrição técnica, que num livro para o grande público fosse talvez escusada. Porém, o leigo, saltando estas poças de jargão médico que surgem aqui e ali, fica a conhecer como era, como se aprendia e como se praticava a medicina; qual a política hospitalar e como se encarava, de um modo geral, a saúde e a assistência no século XVI. O mérito é mais do que evidente. Nas naus comiam-se ratos e os coiros das arcas e das alpergatas depois de devidamente cozidos. A história da Nau Catrineta não é falsa, como poderíamos imaginar – há casos, embora raros, de canibalismo descritos nas “relações” ou relatos de viagens e naufrágios. Na costa do Brasil havia uma praga que fazia com que homens adoecessem “do sêsso (ânus) e criarem bichos nele”. Eram curados pela “herva santa”. Explica o autor que estamos a falar de uma anite e retite inflamatórias de origem disentérica. O resto do quadro clínico é verdadeiramente alarmante, uma vez que os bichos descritos existem mesmo – eram larvas de moscas varejeiras. A cura, a “herva santa”, não é outra coisa senão o tabaco. Nas ‘mercearias’ – designação que provinha da palavra mercê – teve-se o primeiro arremedo de estado social. Nelas eram recolhidas as pessoas (“bons homens e mulheres”, ou seja nobres e comerciantes) que tivessem caído na pobreza mais extrema, desde que tivessem tido uma vida honesta e de impolutos costumes, como determinaria o rei Afonso IV. Para as crianças, havia ‘criandários’. Para os doentes pobres existiam os ‘espritais’ (ou pequenos hospitais) e para os leprosos e gafos, as ‘gafarias’, mais tarde conhecidas por ‘lazaretos’. Para um apaixonado de História, o livro é uma revelação, de que ficam aqui apenas escassos exemplos. Para um médico, há de conter outras pistas. Por último, quando de tudo se pede perdão, sublinha-se nestas páginas o modo como a expansão também contribuiu para a disseminação de práticas médicas e assistenciais nas terras descobertas – do Brasil a Goa, Malaca e até ao Japão.

Texto publicado no Expresso em 16/3/2013

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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7 respostas a Comer arcas, alpergatas e ratos

  1. nanovp diz:

    A clareza e perfeita descrição dos episódios Henrique fazem-me querer ir ali desinfetar-me….!

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Excelente tema. E um bom texto.

  3. Panurgo diz:

    Está a um bom preço. Vou comprá-la. Gosto sempre de ver como um ofício desonroso na Idade Média se santificou em menos de nada.

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Belo livro. Vou comprar

  5. Maracujá diz:

    Muito interessante, caro Henrique! Uma boa sugestão para hoje, dia do Pai!

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Tendo ainda pai vivo, não hesitaria na compra. Assim, compro à mesma.

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