A Árvore, o Fruto

flying child

Ontem, quando fui pegar Isabela na escola, ela veio correndo para mim em tal açodamento que levou um pequeno tombo no saguão de entrada. Mas o abraço valeu a pena. E ela não chorou. E estava radiante de nos vermos depois de quase um mês. E aí foi logo mostrando-me os brinquedos mais companheiros da vez: um porquinho de pelúcia e um robô.

Do porquinho ganhei muitos beijos por tabela. Beijos ventrilocados. E o robô era um bocado engenhoso. À corda. Conquistou-o, ela me informa, de brinde, numa caixa de cereais. O design guarda seu charme. Movimentos super coordenados. (Quer dizer: coordenados naquele fluxo de desastre das engenhocas mecânicas). É frágil o suficiente para sobreviver, quiçá sem muito sobrosso, até a semana que entra. Quando, de outra forma, já deve ter sido posto de lado.

Um dia, também serei posto de lado por essa menina de cabelos castanhos claros e grandes olhos cor de mel, que ao dependurar-se em mim é, em verdade, a árvore da qual pendo. E mais já não sou que um fruto meio sazonado.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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18 respostas a A Árvore, o Fruto

  1. Carla L. diz:

    E será rápido e nem por isso indolor.Me parece que é assim mesmo que funciona a tal árvore da vida.A minha vez , também, ainda não chegou.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Será rápido? Tem sido a jato, Carla. Cem megas.

    Um serazinho. Um piscar.

  3. É bonito, mas não é verdade: para as meninas o herói é o pai, sempre.

  4. Para quem, como eu, tenha só uma filha, as palavras da Eugénia são gratas de ouvir como a música das esferas!

  5. Ruy Vasconcelos diz:

    Sim. Sim, Henrique. A Eugênia disfarça-se de durona. Agridoce, por vezes. Já saquei o jogo dela: “Para que tanta malícia, Eugénia Ciclista? Para melhor vos confortar, pais um tanto desolados”.

    Adiante, discordo apenas do “só uma filha”. Uma filha não é pouco, compadre. Especialmente hoje em dia.

  6. Rita V. diz:

    Ó…que amor!

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    Uhhmmm! 🙂

  8. Já tive esse abraço. Depois muitos outros, agora mesmo que, frágil robot, estou já meio de lado, tenho meus carinhos. Mas esse abraço, Ruy, de quem descobriu Vera Cruz e só Vera Cruz é o mundo, é tesouro de Ali Babá

    • Ruy Vasconcelos diz:

      O Manuel e sua clássica modéstia. Do jeito que é querido cá pelo EET, abraços não lhe faltam ou hão de faltar. E, aliás, pelo rijo dos abraços que envia — um quase me desloca a costela — tem ainda muitas Veras Cruzes, tesouros, quarentas ladrões e Alis Babás por diante.

      Principalmente ladrões e Alis Babás, bem entendido. Pois a Vera Cruz, ele veio sete vezes, e em todas era verão. Sete, essa cifra que soa sempre suspeita. E um pouco cinemática.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Entendo como bela metáfora o texto.

  10. Ivone Mendes da Silva diz:

    Preste bem atenção no que diz a Eugénia: para as meninas o herói é sempre o pai, os outros estarão no abraço a fazer de conta e nenhum deles perceberá como funcionam os robots e ursinhos de peluche.

  11. Ruy Vasconcelos diz:

    À Eugénia sempre se deve prestar muita atenção, Ivone.

    Mas, veja, o agradecimento à Eugénia, aqui, segue um tanto mais pelo desejo que ela demonstrou em confortar, em colaborar. Em, digamos, “ninar” esses pais sobressaltados.
    Pois a coisa é simples. É sem volta. É da vida. É a metáfora referida pela Céu: um pai é ao mesmo tempo pai e homem no imaginário da filha. Um dia, claro, será apenas pai. Isso gera, além de ressentimento, algum receio: aquele que prosseguir abraçando-a: o fará com o amor e a consideração que ela merece? Com a paciência de entender seus brinquedos (que à altura, naturalmente, não serão mais bichos de pelúcia ou robozinhos à corda)? Para isso não há garantias. E gostaríamos que houvesse, pois no decurso do tempo, nós, pais, seremos cada vez mais frágeis.

  12. nanovp diz:

    Tudo passa, menos o Amor.

  13. Ruy Vasconcelos diz:

    É isso. Grande Bernie. The Quiet Portuguese.

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