A Baiana, o Helvético, Rousseau & as múltiplas marcas da boa selvageria

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                                                            Dois aspectos da Praia de Jericoacoara

-E agorra, garroto, a gente vai parra o praia? – ela indagou. 

Faz tempo. Foi aí pela primeira juventude, e seguiram para Jericoacoara. Ela empolgada de descobrir os trópicos. Ele? De descobrir Kant, naturalmente. Passearam de canoa. Andaram a cavalo. Digrediram pelo uso dos pronomes tu e você. Degustaram canjica e caranguejos. Beberam refresco de murici, caipirinhas, água de coco. A água de coco era para sustar ressacas. Tomaram banho nus na lagoa, e a chuva caindo de manso. Alguns dias amanheciam chuvosos. Mas nem isso abalava-lhes o humor. Havia algo de pré-lapsário ambiente.

A alvura das nuvens duplicada nas dunas em dias de sol. As cristalinas lagoas de água doce no meio do nada. As campinas e banhados, onde quero-queros espalhavam ninhos. E, no passar de um jet-ski, gritos e gargalhadas rompendo com tudo isso. Ou incorporando-se. Uma gana de quero-quero apossando-se dos dias.

Do chalé ao lado, surtiam ruídos em desoras. Estranhos ruídos. Ocupava-o um casal roçando a surrealidade: um suíço, uma vistosa baiana. Ouviam grossas pancadas madrugada a meio. A princípio inquietaram-se. Mas só a princípio. O rebenque cantava solto. Ou palmadas, por vezes. Na manhã seguinte, o suíço assomava à soleira, cheio de hematomas, que levava a bronzear. Como se tivesse sido varado a marmelo. Hematomas de primeiro grau, é verdade. Mas múltiplos, espalhados por rosto e corpo. E o suíço os exibia como se portasse medalhas.

Ao romper da manhã, férias adiante, abraçados, satisfeitos, deitados na rede à varanda, os grilos e galos a ressaltar um silêncio tão eloquente quanto uma cantata de Bach, ouviam então o helvético urrar do lado de lá da parede:

 -Ai, ai, ai, mein Schätzlein!

Dentro em pouco a Schätzlein e o Suíço eram já assunto e reticência na pousada. E, dizem, mas eles mesmos não viram, entre as carícias da Baiana no Suíço, ao café, estava, prova de amor, um torcedura de orelhas que, como método de interrogatório, teria interessado à Gestapo. Uma vez, lera no Astérix algo sobre suíços e certa tendência ao masoquismo. Mas nunca pensou que a ilustração de um clichê fosse se dar em tão concertada forma. Ou assim, no trópico, tão distante dos Alpes. Afinal, clichês são apenas clichês. São? Pensava nisso quando, no refeitório da pequena pousada, ainda espreguiçando-se, só algumas mesas adiante do casal suiço-baiano, comentou em abraço e reserva:

-É, deve ter sido por uma dessas que Rousseau deu de delinear o conceito do bom selvagem.

 

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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15 respostas a A Baiana, o Helvético, Rousseau & as múltiplas marcas da boa selvageria

  1. Rita V. diz:

    primo é maldade pura. aqui chove e faz um frio danado e você plasmando Jericoacoara. Oh my dog!
    🙂

  2. isto não se escreve numa altura destas nem muito menos se publica.
    estamos no inicio da primavera, a babar-nos pelo verão, praia, com ou sem água de coco.
    e ainda falta tanto. falta atravessar um oceano numa caravela.
    misericórdia Ruy!

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Hahahahaha! Pois eu trocava sete dias de sol por uma semana de outono, Sandra. Mas é só.

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    Olha, quem fala. Quem mesmo possui um certo latifúndio à beira duma praia potiguar?

  4. Panurgo diz:

    As baianas são docinhas.

  5. Bruto da Silva diz:

    Agora entendi melhor a plantação de marmelos: aqui são os marmeleiros que dão os marmelos (que às vezes são delas… ) 😉

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    Há marmelos para todas as consciências. 😛

  7. Ruy, um tipo que se alimente a Rousseau só pode acabar com hematomas múltiplos.
    by the way como é ficou isso do pronome, tu com tu, você em tu, tu que nem você?

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Delicioso. Mais estaria a mais. 🙂

    • Acho que passei dos termos no comentário a seu último post (a propósito de Galeano), querida Céu. Mas apenas porque você é muito querida. E ainda assim nunca é bom investir contra grande entusiasmos.

      Vou me resguardar mais quanto a isso, no entanto. Porque o melhor deste blog são estes comentários constantes, alentadores, atenciosos. Como os que você ou o Bernardo deixam por cá. Impressiona o quanto, sobretudo vocês dois, encontram modos de achar proveito e bons pontos em tudo que segue postado.

      E se os encontram, é porque os há. E há nisso uma humanidade e um brio contagiantes.

  9. nanovp diz:

    Gostei do tratamento da “bela selvagem”, e acho muito bem que o Suíço tenha pago no “pelo” …que inveja Ruy dessa areia branca branca, e desse mar translúcido de verde e azul …

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