A Cartilagem do Amor

"Ferrugem e Osso", de Jacques Audiard

“Ferrugem e Osso”, de Jacques Audiard

Em 1993, a propósito da estreia de “Proposta Indecente” de Adrian Lyne, onde Demi Moore, no papel da mulher de um jovem arquitecto com muitas contas para pagar, aceita passar uma noite com um ricaço, interpretado por Robert Redford, em troca de um milhão de dólares, o veterano argumentista Nicholas Meyer comentou: “Essa história não tem conflito; conflito seria se a Demi Moore, em troca do milhão de dólares, tivesse de passar a noite com o Danny DeVito”. “Ferrugem e Osso” tem um problema semelhante. É a história de Alain (Matthias Schoenaerts), um talhante brutamontes que sai da Bélgica sem um tostão e com o filho de 5 anos a seu cuidado para se fixar na casa da irmã em Antibes, no sul de França. Com experiência no boxe tailandês, Alain arranja trabalho como segurança na discoteca Annexe, onde resgata Stéphanie (Marion Cottilard), treinadora de orcas na “Marineland” local, de uma situação delicada. Não mais se encontram, até ao dia em que Stéphanie, após um acidente lhe cortar as pernas pelo joelho durante um espectáculo, lhe telefona.

Ao escolher a vedeta francesa para o papel de Stéphanie, Audiard sabia estar a colocar obstáculos à identificação do espectador: Cotillard, os olhos verdes mais verdes da europeia verdura, é sexy até a dançar o “Loveshack” dos B’52 numa cadeira de rodas e, apesar da perfeição digital das cenas em que revela as pernas amputadas, é difícil a completa empatia pela sua desgraça. Mas Audiard, mestre do thriller contemporâneo – “Um Profeta” é quase uma viagem espiritual à génese da criminalidade -, cronista de proscritos e marginais, também sabe gerir os equilíbrios ténues do melodrama. Ele revela Stéphanie em transe ao som do “Firework” de Katy Perry sem cair no ridículo, faz-nos redescobrir o sal do oceano pelo corpo de uma paraplégica, atira Alain para o submundo da luta como toiro esventrado num matadouro e constrói uma história de amor entre dois vencidos da vida onde a palavra “amor” é dita apenas uma vez, de ecrã a negro. Baseado em dois contos do canadiano Craig Davidson, “Ferrugem e Osso” é a primeira ficção redentora do grande Jacques Audiard, e os críticos odiaram-no por isso. Vejam-na.

 Publicado na revista “Sábado”

 

 

Sobre Pedro Marta Santos

Queria mesmo era ser o Rui Costa. Ou sonâmbulo profissional. Se não escrever, desapareço – é o que me paga as contas desde 1991 (são 20 anos de carreira, o disco está a sair). Há momentos em que gosto mais de filmes do que de pessoas, o que seria trágico se não fosse cómico – mas passa-me depressa. Também gosto dos olhos da Anna Calvi. E das bifanas do Vítor. Aprecio um brinde: “À confusão dos nossos inimigos”. Não tenho nenhuns, só uma ternura infinita pelo azul das árvores e o amarelo do mar. E peço: digam-me mentiras.
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7 respostas a A Cartilagem do Amor

  1. Diogo Leote diz:

    Gostei muito do Profeta e, se me dizes que este (apesar do título pouco apelativo) é uma história de amor entre dois vencidos, vou já daqui para o cinema.

  2. Pierre, vi hoje. Ça m’est égal. E, a bem dizer, prefiro a Cotillard com pernas. Ao ouvido digo-te que conheço argumentistas melhores do que quem, para o mesmo filme, precise de partir as pernas a uma personagem e as mãos a outra. A questão, to be or not to be, é esta: qual foi o acidente, o Profeta ou o Osso?

  3. Não há nenhum acidente, doutor, o Profeta ou o Osso. Sei que abominas o cinismo como ponto de vista. “Un Prophète” é, para mim, uma obra-prima, a reconstituição de um homem que está morto aberto à possibilidade de salvação do mundo, graças ao crime que regenera (e há crimes que regeneram). O “Rust and Bone” grita o osso possível no mundo da indiferença. É excepcional? Não, não é. Mas o melodrama tem pernas para andar, e sugere a possibilidade de um novo realismo, feito dos limites da Europa desfeita. Isso é uma coisa que me agrada. Acredita que há necessidade, ética e estética, de um “Ladrão de Bicicletas” em 2013. “Rust and Bone” é um ensaio muito rudimentar disso. Socialmente inútil. Mas está no bom caminho. A resposta que o filme dá importa pouco. Mas a pergunta que o filme faz importa muito: O que resta do romantismo?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Master Peter, auteur à outrance, este Audiard? Diria que O Profeta, que tu me mostraste e agradeço, é um enormíssimo filme. Mas há uma brutal diferença entre aquele e este Osso. Á ideia de regeneração passa pelos dois filmes. Num como tragédia, infelizmente neste…

      Ainda por cima, a minha filha, e os 23 anos sábios anos dela, que se espantaram por eu ter visto o Profeta que ela me escondera, viu com olhos parecidos com os meus o Osso. E o que ela me diz, hoje, em cinema, para mim é lei.

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Não vi ainda. Com análise tão feliz, pela tardinha, o cinema espera-me; melhor, espero eu pela fita.

  5. Espero não a levar ao engano, Maria do Céu. O filme gerou mais ódios e indiferença do que estima. Doutor, estou contigo num ponto: há uma enorme diferença de arte e gravitas entre o Profeta e este Osso.

  6. nanovp diz:

    Pois nem tinha reparado que estava por aí, embora a Cottilard já estivesse a acenar…sou capaz de arriscar.

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