A Laurinha e outros segredos dos anos 60

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Uma noite, andava eu a caminho dos trinta anos, vieram sussurrar-me ao ouvido quem era ela. Ou melhor, quem é que ela tinha sido, num passado não muito distante. Contaram-me como se fosse um segredo mas, perante a minha reacção de espanto, logo se apressaram a dizer-me que “toda a gente sabia”. “Toda a gente” de uma certa geração, algumas décadas acima da minha, sabia. Ela, a dona do restaurante que eu frequentava semanalmente, a quarentona que se sentava ao meu lado no fim do jantar para desabafar sobre a vida, a matrona de olhos verdes berrantes que deixavam adivinhar que já fora dona de uma daquelas raras belezas que levam os homens à desgraça, era a Laurinha. A Laurinha do caso “Ballet Rose”. A “Lolita” que esteve na origem – ela e outras tantas meninas imberbes, seguramente não tão belas quanto ela o tinha sido – do maior escândalo sexual do Estado Novo. A coisa, afinal, não estava assim tão distante – o caso fora denunciado e abafado em 1967, no ano em que nasci e ela, a ex-Laurinha, não era assim tão mais velha do que eu, pois que, segundo dizem, tinha apenas treze aninhos à época.

O nome (o verdadeiro) da Laurinha e do restaurante – que continuo a frequentar, embora episodicamente – não são para aqui chamados, até porque prezo muito a senhora (se o Nacib da Gabriela aqui estivesse, dela até poderia dizer que é há muito uma “dama da sociedade”). E, por mais vontade que já tenha tido em puxar o assunto junto da própria, os meus bons modos continuarão a obrigar-me a ficar calado. Mas então porque vos trouxe aqui a história do caso do “Ballet Rose, meio a despropósito? Pois bem, porque este e muitos outros factos e efemérides da Lisboa e arredores dos anos 60 – a visita de Brigitte Bardot, os primeiros surfistas na Linha do Estoril, os serões em casa de Natália Correia, as vedetas da TV, as férias em Monsanto, a crise académica, os esboços de golpe de estado, as primeiras “boîtes”, os livros proibidos, os concursos de mini-saias e de ié-ié, os bordéis, os mamarrachos, os bairros emblemáticos e respectivos grupos e divisões sociais, a Vera Lagoa, a Io Apolloni, as festas do Patiño e do Sclumberger, o Salazar a cair da cadeira, as conversas em família do Caetano, o Cinema Novo, o Tempo e o Modo, o mágico que conduzia de olhos vendados, e por aí fora – aparecem revisitados (como nunca antes foram, arrisco-me a dizê-lo, tal é a qualidade da publicação) pela jornalista Joana Stichini Vilela e pelo designer Nick Mrozowski (e realço o papel da apresentação gráfica porque, como poderão constatar, é ela que começa por cativar o leitor) em LX60, dado em estampa muito recentemente pela D. Quixote. E só vos digo que, para aqueles da minha e de outras gerações que não viveram os anos 60, e saudosismos e ditadura à parte, até dá vontade de lá voltar. De lá voltar, claro está, e digo-o para que não me interpretem mal, sem saber o que sabemos hoje, só pelo prazer de descobrir o proibido que se escondia por trás de todo um mundo pacóvio de aparências, só pelo prazer da clandestinidade, da transgressão, só pelo prazer de fazer a revolução, de cada um fazer uma revolução à sua escala e medida. Só pela suspeita de saber que havia um futuro – um futuro de promessas, liberdade e esperança – à nossa espera ao virar da esquina. Coisa que, por mais liberdade que haja por aí nos tempos que correm, parece que já não existe.  

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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12 respostas a A Laurinha e outros segredos dos anos 60

  1. olinda diz:

    até eu fiquei agora com saudades do que não conheci. que texto gostoso.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Conheci tempos um pouquinho depois desses. E com algumas variações. Mas o texto me deixou saudades. E parece que por todo tempo os anos 60 foram um lugar danado de bom para passar até os vinte anos.

  3. Diogo, li com um bocadinho de raiva. Gostava de ter esse livro na minha editora…

  4. ERA UMA VEZ diz:

    Anos sessenta
    E as idas à sapataria Mariazinha ou à Hélio, ao Monumental ver a Laura Alves e o Adamo(Tombe la neige)A guerra do Solnado.

    Descobrir uma loja muito louca com o nome de Porfírios, festivais da canção ao rubro,gravações dos Beatles ao vivo, a desfolhada e a chegada de Simone à estação de st apolónia. A loucura.

    Barcos a partir da Rocha de Conde de Óbidos em tons de verde escuro.
    O País a descobrir o Algarve dourado depois da Europa toda já o ter feito
    Gente a dar o salto para França por vários motivos
    Um disco altamente proibido”Eles comem tudo”

    e mais importante …EU e ELE tão novinhos, a apaixonar-nos e a dar o primeiro beijo. O mais recente foi agora mesmo!!! Ups, já disse.

  5. ERA UMA VEZ diz:

    Tudo cinzento agora, sobretudo continuar a haver razões para tantos “saltos”

    Oxalá sejamos capazes de encontrar “algo cor de rosa”sobretudo nos afectos
    Sem esse equilíbrio…será que se aguenta???
    Pronto, já sei em quem está a pensar, colega comentador…

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