A quinta angústia

Descida da Cruz. Rogier van der Weyden. óleo sobre madeira (2,20 x 2,62 m), h.1432-1435 - Museo del Prado, Madrid

Descida da Cruz. Rogier van der Weyden. óleo sobre madeira (2,20 x 2,62 m), h.1432-1435 – Museo del Prado, Madrid

Cristo é descido da cruz em quase toda pintura europeia e podia fazer aqui um périplo por esse nunca mais acabar de representações, mas quero ficar em Rogier van der Weyden. Mais do que figuração da descida e da quinta angústia, a de Maria, é a representação da dor e dos diversos graus dessa dor que me prende a atenção. Tornaria o post muito longo, a Tia zangava-se, se fosse  caminhar rosto a rosto. Mas quem diz do todo dirá sempre da parte.

O quadro fazia parte de um políptico do qual se perderam as laterais, mas esta tábua central basta para interpretar um pathos que se expõe e se oferece aos olhos de quem o vê sem que tenha de renunciar a uma contenção que lhe tolheria a força. van der Weiden concentra-se na representação do grupo, conseguindo criar um volume que faz lembrar um baixo relevo dentro de uma linearidade assombrosa. Aliás, penso não estar a incorrer em crime de lesa-análise, se disser que este gosto pelos valores de superfície e pelo arabesco colocam van der Weyden na linha de uma reacção aos valores humanistas de Van Eyck, por exemplo.

As figuras, quase de tamanho natural, apinham-se debaixo da cruz pequena, cenário deixado para trás, e o realismo do pincel mostra os rostos doloridos, cada um com sua dor, cada um em sua mágoa. São dez ao todo: Cristo Morto, a Virgem, S.João Baptista, as  duas Marias, José de Arimateia, Nicodemos,  Maria Madalena, o anjo e um jovem desconhecido, num plano posterior. Há uma sugestão de quatro planos e também a de que as figuras formam escorços diferentes a contribuírem para uma aparência de perspectiva. O fecho da cena são as duas personagens curvadas em forma de parêntesis, à esquerda São João Baptista, à direita Maria Madalena. A diagonal do corpo de Cristo corresponde a uma paralela ao corpo da Mãe desfalecida e esses dois corpos, ao centro do quadro, convocam  a união de todos os outros, de todas as outras dores, ainda que em menor grau ou expressão. José de Arimateia sustém pelas axilas o corpo morto e Nicodemos segura-Lhe os pés. Na roupa de Maria Madalena, o cinto rico, presente, decerto de actividades antigas. E a dor, a dor-personagem, a dor feita quase serenidade no rosto de São João Baptista, feita rugas fundas no rosto de Nicodemos, feita cinza de morte na Mãe desfalecida.

O quadro ficou caro a quem o encomendou: o azul ultramarino vestido da Virgem era feito com um lápis-lazúli valiosíssimo, importado do Afeganistão, e as lâminas de folha ouro no fundo do quadro, inspiração gótica, impedem que o olhar do espectador se fixe em algo mais além das figuras. Esse mesmo fundo dourado cria a ideia de uma luz artificial a banhar toda a cena. Pintada para a capela da Confraria dos Arqueiros de Luvaina, foi posteriormente adquirida por Carlos V e, mais tarde, Filipe II logrou trazê-la para a colecção da casa real espanhola.

Rogier van der Weyden  é minha Páscoa deste ano. O ano passado andei em Kierkgaard e no escândalo da cruz. Na altura escrevi: “Não só a cruz é um escândalo.Toda a representação da dor pode ser uma demasia. Por metáfora, gesto, acto ou omissão, não se escapa ao grito que se preferiria silêncio.”.

A dor tornou-se-nos comum e rapidamente nos torna comuns e nos faz desertar o silêncio. Quantas angústias ainda teremos de representar?

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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8 respostas a A quinta angústia

  1. Carlos Teixeira diz:

    Belíssimo texto IS.Gostei tanto e aprendi.Mas,quem sou eu…..

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    Obrigada, mas isto é coisa de pouco merecimento. Texto de passagem, ao de leve, sobre as coisas.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Ivone, a via dolorosa ainda mal começou. E o que aí vem não terá Rogier van der Wey­den para o sublimar. Digo eu, antes do lava-pés.

  4. Ivone Mendes da Silva diz:

    Não duvido, Manel. Mas que haja sempre arte para o sublimar. É o que nos resta e o nos salva.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Que bom, Ivone, ter partilhado connosco esta sua Páscoa!

  6. nanovp diz:

    Que belíssima descrição da tela, e do significado da cena…

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