A thing of beauty is a joy for ever

Aurélie Dupont

Aurélie Dupont é uma bailarina como nenhuma outra. Há bailarinas tecnicamente superiores, ou de uma emocionalidade mais óbvia. Mas Aurélie Dupont encarna o rigor e a sensibilidade da escola francesa e esta é a que serve a alguns papéis do reportório clássico que obrigam a um equilíbrio muito difícil entre a contenção e a explosão – uma visão do ballet tão diferente da milimétrica escola russa onde cada inclinação do olhar é medida para a posição exacta do rosto na composição da figura perfeita – e por perfeita entenda-se bela da forma como o público percebe que é bela, há uma expectativa da encenação da beleza, daquela exacta beleza.

Um parêntesis sobre a beleza já que a Céu aqui a tocou de uma maneira e, ao fazê-lo, me lembrou de outra, a de Roger Scruton, num livro editado também em português por alguém aqui da casa e de título BELEZA. Este filósofo aborda a beleza, questiona-a enquanto faz com ela o trânsito da história e da arte para a filosofia, elevando-a de conceito a valor para uma elaboração estética reflectida também no quotidiano, numa linguagem aberta como um sorriso.

RS - Beleza - G&P

Aurélie Dupont é uma mulher de uma beleza cinematográfica, pede cinemascope. Todo o preconceito de um ideal feminino lhe assenta, da testa alta ao queixo, a linha do narizinho, o desenho de flor aberta dos lábios, a fragilidade muito atenta do olhar, nem se suspeita a força disciplinada do corpo. E a sensibilidade.

Entre as máquinas de dançar, misto de robot e ginástica, e o excesso expressivo, há o ponto exacto que permite manter o personagem que o repertório clássico exige e a assinatura que o torna actual e único. É fácil levar o eu ao palco numa coreografia de Pina Bausch ou de Angelin Preljocaj, é fácil porque é necessário explorá-lo. É difícil fazê-lo quando se é Aurora na Bela Adormecida ou em qualquer peça que é levada à cena há cem anos, de longa duração em palco, complexa e de grande exigência física.

Esta notinha vem a propósito da Violeta que o Henrique trouxe por junto com a Ária do Dia. A de Dumas. A mesma, porém retomando o nome Margarida, que Aurélie Dupont também foi, como nenhuma outra, ao lado de Manuel Légris, com coreografia de John Neumier e música de Chopin.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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4 respostas a A thing of beauty is a joy for ever

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Gostei de ver o Scruton dançado pela Aurélie. Ou foi a Auréloe escrita pelo Scruton que acabei por ver? E escrita ou despida?

  2. nanovp diz:

    Acho que só conheço a Aurélie por causa da Eugénia. E valeu bem a pena!

  3. Pedro Bidarra diz:

    tanta beleza

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