Ai que homem bom…

PCruzPOEMAS COM ADÉLIA PRADO DENTRO – iii
AI QUE HOMEM BOM…

Meu amor é homem bom
Muito fino e letrado – coisa
De homem safado. É danado
De in-te-lec-tual, veja só
Ele diz que carnaval
É de razão pro-ce-ssi-o-nal
Antiga, lá de um Portugal
Desfilante e ba-rro-co
Eu lhe respondo:
Deixe isso, benzinho
Tome uma água de côco
E espie o samba no meu pé:
Melhor que Santo em andor
Meu rebolado é que nem meu cozinhado
É de vixe Maria, Nosso Senhor…
Meu amor é homem bom
Muito fino e letrado
Me oferece livro encadernado
Bonito demais para usar
– Mas leia, querida, é Machado
Vais gostar, e lembrar de ti no olhar de Capitu
– Logo leio o filme no cinema, meu bem
Agora, vem, que quero ver o livro em tu.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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26 respostas a Ai que homem bom…

  1. farta diz:

    Delicioso.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Intimada à porta-bandeira do nosso cordão local de pré-Carnaval para 2014: Unidos da Cachorra.

    Topa ou vai ficar nesse chove não molha? O qu’eu não dava para ver esse pé numa roda de samba. (rs)

    • Tem de perguntar à menina, cachorra ou não, não a mim que tenho dois pés esquerdos.

      Ps: e subtil é-se quando se quer ser, quem manda na caneta é mão.

      • Ruy Vasconcelos diz:

        Entenda, o bloco existe mesmo: Unidos da Cachorra. O nome é uma referência jocosa a uma tal Rua da Cachorra Magra. Confira no Google. E há lindas meninas integrando-o. Mulheres, que além de trabalharem — como advogadas, juízas, professoras, médicas, motoristas — divertem-se a rodo. E têm mãos que acariciam. São mulheres inteligentes e que interferem ativamente no amor, na vida, na carne. Não vivem só de se pôr atrás de pseudônimos para tirar risinhos amarelos. Diria que são mais astuciosas que maliciosas. Embora quando malícia seja necessária, não é artigo exatamente em falta. Tampouco sutileza. Seria uma honra ver minhas filhas crescerem e chegarem a idade adulta sadias o suficiente para fazerem parte de uma agremiação assim.

        Beijinhos na ponta dos dedos que comandam tão hábeis canetas, dileta Prima.

        Desse vosso Servo, nos longínquos trópicos…

        • Pelos deuses, Primo, então lá preciso da sua justificação?! É o meu jeito, assim, a direito, nem por isso menos risonho.

          Por outro lado, gostei de saber o que contou, claro, há humor nisso dos Unidos da Cachorra.

  3. Bruto da Silva diz:

    A Adélia é uma verdadeira musa, divina e amorosa 😉

    Gostei de a conhecer, obrigado!

  4. São tão estranhos os seus poemas. Falam de safadezas, enchem-nos de bebida e comida, riem-se divertidos, puxam-nos para dançar. São tão estranhos os seus poemas. Não são circunspectos, gamaticais, oficiais. Não estão sepultados, castrados nem canonizados. Tem a certeza de que, assim, com a língua em festa, são mesmo poemas?

    • Ó se tenho… se até fiz um poema com sutaque e desacordo ortográfico! Bonito isso de língua em festa, e o resto todo. Merci.

      Ps aos puristas: sim, sim, sei muito bem, mas sutaque é como soa sotaque.

      • Henrique Monteiro diz:

        Não há nada tão doce como o olhar de Capitu em Machado de Assis. Sobretudo depois da traição. Mas é curioso como Assis ficou na moda

        • Não sabia que estava na moda, mas fico muito contente se está: tenho uma enorme fraqueza por Machado de Assis.

          • Bruto da Silva diz:

            Já vem de 1226, passou pelo Brasil e pelo Machado e agora chegou ao Francisco de Roma.

            fraqueza que dá força 😉

          • Ruy Vasconcelos diz:

            Eu também, Prima. Se o António não me escutasse, diria até que o prefiro ao Eça. (Mas faz de conta qu’eu não disse isso).

            Também tenho um fraco danado pela prima. Um fraco de terceiro grau e 39 de febre. Ah, e imagino a prima sambando na avenida de salto alto. Um frisson danado. Iam cair muitos versos e cesuras do abadá.
            Sabia que o seu Vinícius foi tema de escola de samba este ano? Oh, puxa, e pensar no quanto a prima teria gostado de estar lá pelo Rio com um tamborim ou uma cuíca na mão. Lailailailai.
            Segura bateria da Beija-Flor!

            • Mas sabe que lhe encontro muito em comum com o Eça, não por serem contemporâneos, até no humor.
              E as Memórias Póstumas de Brás Cuba? Qual Shandy qual carapuça, nunca Sterne sonhou aquele upgrade.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Palvras para quê? É talento português e basta.

  6. maria diz:

    A lembrar O Alienista,o Dr Simão Bacamarte mais as palavras de Assis “…é que quando se faz um conto,o espírito fica alegre,o tempo escoa-se,e o conto da vida acaba,sem a gente dar por isso.”

    • Ah, a Casa Verde… isso é que é uma grande ideia para um texto. Merci.

      E, Maria, o raio do homem não conhecia bem que se fartava a natureza masculina e mesmo a feminina? Está tudo lá, até assusta.

  7. Ruy Vasconcelos diz:

    Meninas, por aqui, se vocês disserem ‘Assis’, ninguém irá saber. É conhecido por ‘Machado’. Chamá-lo de Assis seria o equivalente a chamar o Eça por Queirós.
    E você tem razão, Eugénia, há algumas semelhanças entre eles. Sabiam um do outro, não é? Machado, no entanto, sabia mais sobre Eça que o contrário. (Pois a ressonância de Eça era compreensivelmente maior à época). Machado chegou mesmo a fazer certas reservas ao Primo Basílio numa brilhante página de crítica.
    Uma das entusiastas de Machado em língua inglesa foi Susan Sontag. Há um ensaio dela sobre o ‘Memórias Póstumas’ e o estilo de Machado em geral. E é excelente, pra variar.
    A influência de Eça, á época, foi enorme no Brasil. Há romances naturalistas em que as heroínas leem escondidas das mães O Crime do Padre Amaro. Uma passagem assim se dá em A Normalista, de Adolfo Caminha, que teria sido autor de maior vulto não tivesse morrido com apenas 29 anos em 1897. Ele escreveu algo ousadíssimo para a época, chamado Bom Crioulo. Então há esses dois bons romances de um jovem autor: A Normalista e Bom Crioulo.
    Ficam como sugestões para leitoras tão compulsivas.

  8. nanovp diz:

    O homem letrado pode não ser sempre “safado”…. Mas ajuda não é?

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