Alvin Lee

Alvin-Lee

Alvin Lee fez a tropa comigo. Na Escola de Aplicação Militar de Angola, já a libertação se assomava da mata. E a mão do Alvin Lee a esgalhar riffs. Desarrancharam-nos – vocês sabem lá porque tormentos eu passei – ainda em plena recruta. Eramos uns desorientados, esquerdizados, insuportavelmente libidinizados e eles não nos podiam arrear como ten years before. As nossas cabeças rapadas brilhavam, máquina zero, nas ruas do Huambo, sobretudo às portas dos liceus e o mais que queríamos era que a polícia militar fosse tomar no cu. Já a guitarra do Alvin Lee dedilhava solos a 120 à hora que era o que dava uma Honda 300 ou uma Kawasaki de motocross. Era um rock fórmula um. Nessa altura ser depressa era muito bom.

De que é que eu estou a falar? Perguntem ao caixão do Alvin Lee que encheram de terra esta semana se é que não o fumaram. A malta do rock quando se apaga não vai para o céu – morre mesmo. Eu tinha na mão uma G3 sem munições e ele uma Gibson que fodia a noite em putas que o pariu, senhores ouvintes, on the road to freedom. Onde eu o ouvia era um calor com um capacete de humidade em cima, mais flexões e abdominais que podia lá imaginar  –  rasteja cabrão e marchas finais –  uma testosterona de alto lá com ele, capaz de morder este mundo e o outro, e o cabrão do inglês, blueish tanto ou mais do que Keith Richards, putos brancos, súbditos da velha rainha com tanta vontade, era como eu, de serem pretos, a ensinar-me Love Like a Man.  Devia ter aprendido melhor, meu!

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a Alvin Lee

  1. É o que dá estar escrava do pc… apanham-se fresquinhas uma sucessão de frases que deviam ir já para a casa delas: aquele romance que o Manuel Fonseca vai escrever.

    Eu tinha na mão uma G3 sem muni­ções e ele uma Gib­son que fodia a noite em putas que o pariu, senho­res ouvin­tes, on the road to fre­e­dom. Onde eu o ouvia era um calor com um capa­cete de humi­dade em cima, mais fle­xões e abdo­mi­nais que podia lá ima­gi­nar – ras­teja cabrão e mar­chas finais – uma tes­tos­te­rena de alto lá com ele, capaz de mor­der este mundo e o outro, e o cabrão do inglês, blu­eish tanto ou mais do que Keith Richards, putos bran­cos, súb­di­tos da velha rai­nha com tanta von­tade, era como eu, de serem pre­tos, a ensinar-me Love Like a Man.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Eugénia, isto talvez dê para um conto, mas não é G3 para um romance. Thanks anyway, lady.

      • Antes de ir dormir sempre lhe digo que um romance é um conto que cresceu – mete as munições na G3 desata a disparar e já está. Isto, e agarrar bem o rabo à cadeira, é a verdadeira Teoria da Literatura.

  2. Panurgo diz:

    Com o meu pai foi a mesma coisa. A guerra deixou-lhe o rock. Um movimento religioso e nietzschiano, o rock n’ roll. É uma coisa que me ferve o sangue.

  3. Vai para a escola:

  4. nanovp diz:

    Imortal ficou também o “I’m going home ” no Woodstock, um puto branco a tocar música de negro. Grande texto Manuel!

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