Amor em terra queimada

 

 

Antonella Cinelli - Segreti

Antonella Cinelli – Segreti

Queria-o para sempre e não lhe dizia. Fora em Madrid, Picasso e Modgliani como patronos, que acendera a paixão. Ao telefone, ele no Porto, ela caminhando, cega, pelos danos da lonjura na cidade um dia renegada agora fermento de pão novo, nunca ázimo, descobria. E palmilhava quilómetros de frio, a pele e a vulva e a fisga do desejo esticada ao limite da mulher. Ele ficara, ela fora. Que não podia, que tinha ensaios e concertos em agenda. Talvez no granito, talvez viajante em pedras distantes. Mas era a fala que lhe trazia a rédea. Gostava. O sentimento de pertença definido por mais um vértice na geometria onde era.

No início, assombrara-a o elo intenso e contado e remetido a idos próximos. Ninguém faz o luto de um amor tão depressa, disse. Ele negara. Dela, abespinhara-o a oferta de ombro amigo. _ “Os amigos não fazem ninguém feliz. Só o amor na terra queimada e onde é majestade me interessa. O resto é deserto sem incluir oásis de breves deleites.”

Quisera-o, apesar da intransigência. Ele coberto por manto de tragédia que escondia no ator recitando falas de António Silva. A repetição da pele e das coxas e dos êxtases e dos dizeres de que ela desconfiava confiando. _ Que seja! Que não tente cercear a minha autonomia. Que venha e vá, e me dobre a perna na entrada quente.

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
Esta entrada foi publicada em Ficção. ligação permanente.

9 respostas a Amor em terra queimada

  1. um b’cadinho, vá…picante…lol

  2. curioso (semi frio) diz:

    com de leites e entrada quente, a juntar a terra queimada, acaba tudo numa grande carga danada 🙁

  3. Ó menina Céu, este blog está ao léu!

  4. Um belo prenúncio para o porco sublime que aí vem.

  5. nanovp diz:

    Picante como o “segreti”…

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Ora ainda bem, conquanto tenha de haver mão certa ou a digestão é difícil. Não afirmo ter sido este o caso, mas tentei.

Os comentários estão fechados.