Anchors & Anvils e Go On lailailailai

Anchors++Anvils

De uma forma ou de outra, somos todos um bocadinho o cliché da empregada de mesa que pensa ser actriz até perceber que o único papel que representará é o de empregada de mesa – é natural, no momento em que nascemos fomos o mais importante do mundo e, bebés, acreditámos que era assim a coisa. Quando finalmente nos redimensionámos para ficarmos ombro a ombro com os outros bebés, ó, descobrimos que não somos mesmo nadinha importantes. Há beleza nesta amolgadelazinha. Não é sempre sorriso ou gravidade a beleza, às vezes é triste como escrever. E pateta.

A minha Amy LaVere canta algo disto ali em cima. E não deixa de haver ironia aqui: este era o álbum que a devia ter projectado há uns anos atrás – tal não aconteceu então, apesar da boa crítica e do lugar que ocupou nas tabelas da categoria a que pertence, nem hoje, apesar da excelente crítica que continua a ter. O produtor, o lendário Jim Dickison, que verdadeiramente entendeu, explorou bem e revelou a natureza de Amy LaVere, morreu pouco depois daquele trabalho – penso que Seasick Steve também percebe Amy LaVere. Há trabalhos a solo posteriores a este. Até o melhor aclamado e mal vendido Stranger Me. Mas não são este.

wandering-cover

O quinteto The Wandering que também integra, justamente com Luther Dickinson, um dos filhos de Jim Dickinson, lançou o ano passado este tão bom Go On Now, You Can´t Stay Here. Houve uma linha partida em Anchors & Anvils que se colou neste álbum, não completamente, claro, é um projecto mais rente ao folk e plural. Gosto muito. Apesar de em Glory, Glory, Hallelujah, um dos temas, haver uma puta de uma flauta que nunca mais se cala e me dá nos nervos – a mim e ao Cão, devemos ter um ouvidinho parecido.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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9 respostas a Anchors & Anvils e Go On lailailailai

  1. Curti de mansinho a mansa LaVere. E ela que acredite que não há bebé como o bebé que ela é.

    • Se calhar ela é como o nosso Álvaro de Campos e nunca conheceu quem tivesse levado porrada. Todos os conhecidos dela têm sido campeões em tudo.

      Também acho que ela é um bebé como não há dois. Ainda bem que gostou.

  2. Mário diz:

    Qual é a marca do cão?

    • O Cão é yorkshire terrier. Um lobo. Um tigre. Um leão. O melhor Cão do mundo.

      • Mário diz:

        Yorkshire Terrier: (…) raça canina de pequeno porte e personalidade destemida, carinhosa, afectuosa, versátil e independente (…) é o cão miniatura mais popular de todos.
        As hipérboles são todas suas!
        Eu herdei um Rafeiro Alentejano, um cãozarrão. Mas não gosta de mim, temos pena. Outro dia tentei aproximar-se dele, olhei-o nos olhos, ele olhou-me nos meus (é neste momento que as semelhanças com a obra de Sérgio Leone são evidentes, grandes planos e gaitas de beiços), li-lhe o pensamento “do you feel lucky, punk?”

        • Nenhuma hipérbole… Factos!

          O momento Sergio Leone tem humor. E no entanto, o seu cão não gosta de si…

          • Mário diz:

            Esqueceu um detalhe…eu disse que herdei o cão, não era meu…
            A frase é do Dirty Harry, o Clint ajudou a fazer a passagem…
            Eugénia e o Cão ou a Audrey Hepburn e o Gato em Breakfast at Tiffany´s?

  3. nanovp diz:

    Tanta porrada se leva na vida a fazer aquilo que se gosta, e é, como disse, triste, como o é escrever …

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