Ao negro e ao nada

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O mundo é assim não é de outra maneira.
Podemos sonhá-lo mais justo, mais fraterno,
mais moderno ou sem custo.
Podemos acreditar na boa vontade
ou na bondade do vizinho mas, em boa verdade,
o mundo é assim não é de outra maneira.

Podemos ter fé na ciência,
ajoelharmo-nos à religião ou convocar a razão,
tudo depende da preferência.
Podemos ter vacinas prò sarampo e prà papeira
e comprimidos pra caganeira.
Mas o mundo é assim não é de outra maneira.
É caos, incerteza e bandalheira.

É melhor abraçar o negro, ter fé no nada
e esperar, ardentemente, coisa nenhuma.
Não o digo por desespero, descontentamento
ou por males do coração.
Nem por abjuração da esperança
por pressão da conjuntura.
É antes por convicção.
Por crença no negro, que é cor,
e no nada, esse vazio libertador.

(A luz vive-se mais quando acreditamos no negro)

Uma pistola na gaveta da mesinha de cabeceira,
mesmo ao lado da almofada onde se pousa
a cabeça, pode não ser nada má ideia.
Como não será fugir para os montes
com víveres, cobertor e espingarda
e cavar um abrigo bem fundo
porque, parece, a bomba já não tarda.

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
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15 respostas a Ao negro e ao nada

  1. olinda diz:

    giro, giro, giro, coube cá tudo. 🙂

  2. Bruto da Silva diz:

    Triste sentimento duma Sexta-Feira da Paixão?

    (chuvosa, triste, entroikada)

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Otimista, sim, este escalpelizar da sociedade em que vivemos. Doutras também.

  4. A pistolita na gaveta da mesinha de cabeceira… Uma Star?

    • Pedro Bidarra diz:

      Star, browning, beretta. Qualquer coisa maneirinha, para não encher a gaveta toda edeixar lugar para o resto da tralha

  5. nanovp diz:

    Este negro afinal não é tão escuro assim…

  6. ERA UMA VEZ diz:

    Tão frágil este lugar em que vivemos
    este tempo em que a ciência estuda revela e antecipa
    os segredos do homem e o caminho dos céus

    Tão frágil este lugar
    onde um louco(basta um)
    a quem ensinaram a brincar aos soldadinhos
    os alinha, estupidamente felizes
    e lhes promete carregar no botão

    mais valia nunca ter estudado História
    ou então não ter memória…

    Tão frágil, não?

    • Pedro Bidarra diz:

      Está a ver, Era Uma Vez, a ciência, fascinante narrativa do mundo, e instrumento para com ele lidarmos, o que trás não é o caminho doscéus. O que revela, quano destapa o negro, é o negro que se segue. Os céus são utopia (que eu gosto como gosto de estórias) o que a ciência revela, sempre que faz luz sobre o negro, é mais negro; o negro por detrás do negro por detrás do negro.
      E está bem assim. Pelo menos pra mim.
      Já o louco do botão não é o outro: somos nós.

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