Árias – A cantar é sempre a aviar (15)

Dentro das árias de baixo esta é a que agrada mais ao público. Não tem, digamos, a sabedoria de La Calunnia de Rossini, mas tem a graça de Mozart, que é imparável, A cena (logo no I Ato) põe Leporello, criado sem escrúpulos de D. Juan, ou D. Giovanni, como no nome da ópera –  Il dissoluto punito ossia il D. Giovanni – a contar à caidíssima Elvira os feitos do seu patrão. Ora reparem: Senhorita, o catálogo é este (ele tem um livro na mão)….Observe, leia comigo. Em Itália 640, na Alemanha 231, mais 100 em França e na Turquia 91 e só em Espanha 1003. Tudo junto, acho que dá 2065. Se eu fosse cabalista diria que é a data do fim do mundo. Para adensar esta tese, direi que Leporello é aquele que nota, no final da ópera, quando D. Giovanni vai ao jantar do Comendador, que está tudo morto. É uma das intervenções mais divertidas de uma personagem: Ah padron, ah padron, ah padron siam tutti morti.

Este Leporello é Ferruccio Furlanetto, um baixo de grandes recursos, numa produção da ópera de Viena em 1987, conduzida por Karajan. Ouçam que vale muito a pena.É um poema, digamos, à diversidade – vão criadas, burguesas, condessas, baronesas, marquesas, princesas, mulheres de todo o grau, de toda a forma de todas as idades. Algo que eu pessoalmente – (ouviste, Luísa Maria?) – condeno, mas tolerantemente compreendo!

Madamina, il catalogo è questo
Delle belle che amò il padron mio;
un catalogo egli è che ho fatt’io;
Osservate, leggete con me.

In Italia seicento e quaranta;
In Alemagna duecento e trentuna;
Cento in Francia, in Turchia novantuna;
Ma in Ispagna son già mille e tre.

V’han fra queste contadine,
Cameriere, cittadine,
V’han contesse, baronesse,
Marchesane, principesse.
E v’han donne d’ogni grado,
D’ogni forma, d’ogni età.

Nella bionda egli ha l’usanza
Di lodar la gentilezza,
Nella bruna la costanza,
Nella bianca la dolcezza.

Vuol d’inverno la grassotta,
Vuol d’estate la magrotta;
È la grande maestosa,
La piccina è ognor vezzosa.

Delle vecchie fa conquista
Pel piacer di porle in lista;
Sua passion predominante
È la giovin principiante.

Non si picca – se sia ricca,
Se sia brutta, se sia bella;
Purché porti la gonnella,
Voi sapete quel che fa.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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5 respostas a Árias – A cantar é sempre a aviar (15)

  1. olinda diz:

    e a encantar também. 🙂

  2. A cantária é que a gente se entende.
    Gosto muito desta sua férie, Henrique. Fora de série.

  3. É bonito sim senhor! Gostei. Ler e ver fica para mais logo (tenho a roupa na lexívia).

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Esta sua série de textos tenho lido e ouvido de fio a pavio. Não sendo intenção, quase juro, pedagogia, tem-me ensinado muito.

  5. nanovp diz:

    Durante quase um ano, no longo trajecto para o trabalho, ouvia, ainda em “cassete”, D. Giovanni. Belas memórias que agora relembro….

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