Árias: duas para Bizet – uma no mar, outra no ar (8 e 9)

Andam-me a pedir árias, como quem pede esmola ao tipo mais rico da cidade. E eu, atacado de preguicite aguda, só volto hoje, depois de faltar dois dias, sem meter baixa nem nada. Mas redimo-me e é já.

O nosso comentador Magnocatulo pediu uma ária líndissima de Les Pêcheurs de PerlesJe crois entendre encore; a nossa comentadora Jan Ian Uni (temos comentadores com nomes engraçados) pediu essoutra líndissima ária da CarmenL’Amour est un oiseau rebelle. Satisfaço os dois. Já o maître Fonseca pediu a canção de Solveig, que inicialmente era só orquestral, fazendo parte de música de cena composta por Edvard Grieg para para uma peça de Henrik Ibsen – e não leva nada. É a vida, quando há ética os amigos não são favorecidos.

As duas árias pedidas são de Bizet (e é por isso que biso), sendo que uma é do mar (a primeira) e outra do ar.

Mas vamos por partes, como dizia o esquartejador. Em Les Pêcheus, estreada em 1863 com libretto de Eugène Cormon e Michel Carrè, temos das árias mais belas da música francesa. Em particular esta, Je crois entender encore, ária de tenor a cargo da personagem Nadir. Em suma a história (até ao ponto, que é logo no Ato I) é a seguinte: Zurga é eleito chefe dos pescadores de pérolas e espera com os seus amigos uma sacerdotisa virgem (lá está, a mania das virgens!!!) que os irá proteger. Nadir é amigo de infância de Zurga e recorda com ele um dia que viram uma linda mulher, como ambos se apaixonaram por ela e como ambos juraram, em nome da amizade um pelo outro, esquecê-la. Não é preciso ser um alho para descobrir quem é a tal sacerdotisa, Leïla, a tal. Nadir lembra-se de ter traído a promessa ao amigo Zurga, pois tinha-a seguido. E entra a ária – Creio ouvir ainda, escondida nas palmeiras, patati, patatá… Aqui cantada pelo já falecido tenor francês Alain Vanzo (deixem a coisa chegar a 1 minuto e 45, porque aí é que começa)

Ouvida  a do mar, ouçamos a do ar. Carmen, estreada em 1873, 10 anos depois de Les Pêcheurs, com libretto Henri Meilhac e  Ludovic Halevy, segundo uma peça de Merimée, é a mais popular das óperas francesas e uma das mais populares do mundo. O papel principal foi totalmente deificado mesmo antes de Callas lhe dar um significado inexplicável. A ação passa-se em Sevilha, onde Carmen trabalha a enrolar charutos (nas pernas, como era tradição). É logo no início da representação, quando Carmen sai da fábrica para um praça apinhada de pessoas, nomeadamente soldados, que ela faz a sua apresentação, com esta notável ária que é um programa de vida – O amor é um pássaro rebelde. No final, atira uma flor a D. José que será o início da trama que a levará à morte.

Mas deixemo-nos de histórias e ouçamos a Callas na habanera e com legendas e tudo:

E pronto. Dei duas seguidas. Amanhã (ou depois) há mais.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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5 respostas a Árias: duas para Bizet – uma no mar, outra no ar (8 e 9)

  1. Luís Paiva diz:

    Cresci com a versão do Tino Rossi… de que ainda tenho o EP…

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Mesmo muito sentido – ó para mim – com a tampa, rendo-me ao lirismo do Vanzo e às promessas da Callas.

  3. Emocionante! Fiquei com pele de galinha e andaram kilovátes no ar! Depois de ouvir vários intérpretes, Del Mónaco, Di Sefeno, Alagna, Caruso e outros,…encalhei em Kraus, mas este Vanzo…tem unhas!
    Callas é mais para se “ouver” e está soberba nesta habanera.
    Obrigado.

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