Árias – levem esta também: ele, sem ela, não é ninguém! (14)

Andava o Orfeo por aí a tentar salvar Euridice, tendo ido até ao inferno e depois aos Campos Elísios (não me refiro a Paris, claro) resgatá-la, quando – e aqui já vamos no terceiro ato – ela pede que o pastor e ‘inventor’ da música a deixe morta. Orfeo recusa, mas ela desmaia, cai ao chão e parece morta. Orfeo, vendo-a assim, e sendo músico, canta uma bela ária: Che farò senza Euridice? (que farei sem Euridice).

Pois, meus tristes, era o mesmo que eu cantaria, se me visse sem vós… Che faró senza este, senza aquela, senza qualquer um de vós.

Aqui se canta o amor puro e virginal da mais importante ópera do séc. XVIII excluindo as obras primas de Mozart que foi um compositor que nasceu apenas para fazer de qualquer génio vulgar.

O autor deste Orfeo ed Euridice, Christoph Willibald Gluck (para os amigos, apenas Gluck), que viveu 1714 (nascido na Alemanha, em Erasbach, cujo nome sempre me fascinou, porque não há Erasbeethoven nem Erasmozart) e falecido em 1787, ou seja 73 anos depois, em Viena foi prolixo, tendo escrito uma La Clemenza de Tito ainda antes de Mozart, que escreveria outra, nascer e, também, Il re pastoreTelemaco, o sia L’isola de Circe, Alceste, Iphigénie en Aulide e Iphigénie en Tauride (ambas em francês), como Le recontre imprévue, Echo et Narcise e Armide.

De todas estas, a mais conhecida é Orfeo ed Euridice, que muito à imagem da época repega os temas da mitologia clássica. Algo que só Mozart, mais tarde iria romper, a partir de 1782 com Die Entführung aus dem Serail ( O rapto do serralho) e, sobretudo, em 1786 com Le nozze de Fígaro (As Bodas de Fígaro), já com o libretista Lorenzo da Ponte. Mas isto são contas de outro rosário.

Desta ópera há ainda a registar o monumental instante em que Orfeo encontra Cerbero, o guarda do Hades. A música transmite o pavor e o terror, como poucas vezes se conseguiu. Mas, para já, ouçamos Teresa Berganza a fazer de pastor, porque o pastor original era um alto e… bem vocês sabem, não sabia mesmo que a havia de fazer com Euridice.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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5 respostas a Árias – levem esta também: ele, sem ela, não é ninguém! (14)

  1. Luís Paiva diz:

    Na “Follie! Sempre Libera”, teria preferido a Monserrat Caballé e, aqui, a Callas.
    Mas é por isso que o mundo se não tomba (e o Youtube não é imenso)!…
    De qualquer modo, venham mais (não quantifico, porque não gosto de ser mal interpretado).

  2. Lindo! Muito me apraz ouvir Tereza Berganza.

  3. olinda diz:

    ai que querido! 🙂

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Henrique, um dia que a gente morra feitos Eurídices, contamos contigo feito Orfeo para nos ir lá buscar.

  5. nanovp diz:

    Que voz, mesmo para estes ignorantes incautos ouvidos!!

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