Árias – O que faz um pai… ai ai! (7)

Marie Duplessis é o nome da cortesã (eu sei que queriam que escrevesse puta, mas recuso-me) mais famosa do mundo. De tal modo, que se tornou a personagem principal de um romance de Alexandre Dumas (filho), de uma peça do mesmo Alexandre (ambos sob o título A Dama das Camélias, sabendo-se que o escritor a conhecia muito bem, biblicamente, do Génesis ao Apocalipse) e de uma ópera do incontornável Francisco Maria Piave, que deu tanta sorte a Verdi como Lorenzo da Ponte a Mozart.

Na versão operática, a Dama, em vez de Margarida chama-se Violeta, mas continua a ser uma flor, e não fica claro, como no romance, se gosta assim tanto de camélias. A ópera, de nome a transviada, La Traviata (a mulher caída) é um dramalhão próprio da época. Toda a gente conhece o início Libiamo, libiamo! quando os convivas batem os copos e cantam em coroTem, no entanto, uma das árias de soprano mais lindas, Sempre Libera e a minha ária de barítono preferida, talvez por causa das palavras: Di Provenza il mar il suol. O contexto é o seguinte: o pai de Alfredo, um jovem rico que se tinha apaixonado por Violeta, a Traviata, convence-a a deixar o filho, o que ela faz. Alfredo fica desfeito e é consolado pelo pai, que lhe diz (olha a tradução do italiano):

Di Provenza il mar, il suol  chi dal cor ti cancello?  (Quem te apagou do coração o mar e o sol da Provença?)

Não há como ouvir (e referir que este também foi a pedido de ouvintes que disse a frase certa, aquela do nosso sublime). A interpretação de Tito Gobbi, numa gravação que data de 1955, é para arrasar. Podem encontrar tão bom, mas não melhor. Aqui fica:

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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8 respostas a Árias – O que faz um pai… ai ai! (7)

  1. Bonito! Ouvi várias vezes a Traviata (com a fantástica Joan Sutherland; em CD) e não tinha reparado nesta ária (fiquei a conhecer o Tito Gobbi). Desta ópera, recheada de arias belissimas, fascina-me, tanto ou mais a respetiva entrada; algo sublime…engraçado…a fazer lembrar o fundo musical do Springsteen em Philadélfia. (assim comássim; vou procurar a frase para fazer um pedido).

  2. Então lá vai: “Uma ária que estime para o hum…sublime”

    “Je crois entendre les pecheurs de perles”, na intérpretação da sua preferência.

    • Henrique Monteiro diz:

      Será atendido, meu caro. Por muito que não acredite, quando li isto estava a ouvir Les Pecheurs (Orquestra du Capitole de Toulouse, Barbara Hendricks/John Aller). Creio referir a ária de Nadir – Je Crois entendre encore

      • E esta? Mas não me admiro; ouço-a volta e meia, porque…”tem que ser”, faz-me bem, não sei a quê! Aos nervos acho eu!
        Sim; Je crois entendre encore…obrigado.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Abençoado Henrique, que fez deste blog o primeiro blog que canta!

    E será, Henrique que te posso desviar ligeiramente dos faustos operáticos para uma peça norueguesa e nos escolhas – in a sublime mood – a mais bela interpretação da Solveig’s Song?

  4. Luisa Tavares de Mello diz:

    É isso, um blog que canta. Obrigada Henrique Monteiro. Gostei.

  5. Correndo o risco de ser intrometida essa a que me encanta ……….L’amour est un piseau rebelle
    Que nul ne peut apprivoiser
    Et c’est bien en vain qu’on l’appelle
    C’est lui qu’on vient de nous refuser….<3 ….(
    Carmen
    Georges Bizet)

  6. nanovp diz:

    Mais vale tarde do que sem música…obrigado Henrique por esta maravilhosa enciclopédia “ariática”…

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