Árias – Pela liberdade, mais do que pela igualdade (13)

Conheço muitas mulheres que nunca quiseram a igualdade de género, como agora se diz. São de um género semelhante ao meu – livres. A minha mãe, por exemplo, foi sempre uma mulher livre de preconceitos, de amarras e de convenções. Se alguma vez a vi revoltada contra alguma coisa foi contra a Pide e contra umas batatas fritas que salpicavam o chão de óleo. A minha mãe nunca soube cozinhar e ainda hoje, nos seus 80 e muitos, serve-se, com o meu pai, diariamente, do restaurante em frente, onde têm por certo uma mesa e uma garrafa de vinho.

A minha mulher também é livre. Ainda ontem, num jantar, recusou uma flor que um cavalheiro lhe quis oferecer por ser dia 8 de Março, dizendo que aceita flores todos os dias, menos no dia 8 de Março. São mulheres que não se queixam de ser diferentes dos homens – pelo contrário, acho eu. Apenas querem ser livres, sem contabilizar as vezes que se levanta a mesa ou se faz o jantar.

A minha mãe lia-me poemas de Cesariny quando eu era novo. “No país, no país, no país onde os homens eram só até ao joelho e o joelho que bom, está tão barato” e é, em conjunto com o meu pai e o resto da família, a responsável pelos genes de loucura que me atormentam e divertem. Toda a vida trabalhou, mas nunca a vi preocupada com a desigualdade de género, apenas com o facto de não haver liberdade. No primeiro emprego (que foi o único, porque era assim a vida), ainda quase miúda, quando lhe pediram para fazer um chazinho apenas respondeu que não era criada do administrador. Foi na década de 50. Quando ela, que nunca fumou, puxava de cigarros e vestia calças, quando ia a Viseu , para em conjunto com umas primas escandalizarem a parolada.

É a mulheres assim, sempre livres, que não se deixam amarrar nem ao ar do tempo que esta ária é dedicada. É sei quem é a Violeta (de La Traviata, ou a Margarida da Dama das Camélias). Mas ainda que a liberdade que ela fale seja diferente do conceito de liberdade das mulheres de que eu falo, talvez esteja mais perto – porque o pensamento voa, como se diz nesta ária – desse do que o discurso daquele feminismo fechado e, por vezes raivoso, onde se deteta uma inveja, uma revolta não contra  a injustiça, mas contra a natureza.

E a diferença, meu Deus, que boa é. E tão barata!!!!

Aqui vai a ária – e pela Callas outra vez, porque eu acho que ela era pela igualdade de género, do género que eu aqui defendi, claro! (como sabem os que conhecem, a voz do Alfredo que se ouve está atrás de um biombo, cortina ou assim). Mas sintam a liberdade da música…

Sempre libera degg´io
folleggiare di gioia in gioia,
vo´che scorra il viver mio
pei sentieri del piacer.
Nasca il giorno, o il giorno muoia,
sempre lieta ne´ ritrovi,
a diletti sempre nuovi
dee volare il mio pensier

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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4 respostas a Árias – Pela liberdade, mais do que pela igualdade (13)

  1. olinda diz:

    na diferença o portento. e é isso mesmo, portanto, ser livre. mesmo.

  2. nanovp diz:

    A “igualdade” sempre me pareceu um conceito pouco abrangente, a justiça ou a liberdade já não. Como prova a voz única da Callas, igual apenas a ela própria.

  3. Abençoada e muito bem defendida in-igualdade.

    • Henrique Monteiro diz:

      A liberdade é a mais mal compreendida das deusas. Poucos entendem que a liberdade é-nos interior, individual, ao passo que a igualdade tem de ser social, porque ninguém deixa de – como dizia o velho Chalana – ser igual a si próprio.

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