Árias – tu e eu vamos para o céu (16)

Caros tristes, a partir deste momento, ou talvez de outro, podereis dizer com espanto e admiração: ah! o que se aprende com o Monteiro! É verdade. Vou falar-vos de três óperas numa só – o chamado Il Trittico, de Giacomo Puccini, estreado no Metropolitan de Nova Iorque em 14 de Dezembro de 1918, tinha a Grande Guerra acabado há pouco.

O tríptico é formado por Il Tabarro; Suor Angelica e Gianni Schicchi. Cada ópera tem apenas um ato e dura apenas uma hora, pelo que o cliente sai de lá mais depressa do que em qualquer obra de Wagner. Mas adiante. A primeira (composta em 1916) tem libretto de Giuseppe Adami e as duas últimas (compostas em 1917 e 1918, respetivamente), de Giovacchino Forzano. Desta última faz parte a maravilhosa e nunca por demais cantada ária O mio babbino caro, mas não é essa que vão ouvir hoje. Hoje está reservado o dia para Kiri Te Kanawa, de quem sou fã, e para Senza Mamma, que faz parte de Suor Angelica.

A ideia é simples: a freira Angelica está num convento porque teve uma gravidez indesejada, da qual resultou uma filha ilegítima (passa-se no séc. XVII). Uma tia, que é princesa, vai lá dizer-lhe que a criança morreu. Desesperada com a morte da filha, Angelica bebe veneno, mas lembra-se que o suicídio é um pecado mortal, pelo que reza fervorosamente a Nossa Senhora para que esta a salve. Condoída, a Nossa Senhora aparece com a criança nos braços e leva as duas para o céu. Ponto final, cai o pano!

Kiri, a neozelandesa que melhor canta no mundo, interpreta justamente o momento em que Angelica desesperada vai tomar o veneno. Ouçam:

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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5 respostas a Árias – tu e eu vamos para o céu (16)

  1. ana diz:

    Bravo!!!, com muitos, muitos aplausos….

  2. Triste mas lindo! Fantástica intérprete, que desconhecia. Vai para a agenda.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Assim qualquer um quer ir para o céu.

  4. Carla L. diz:

    Gostei muito do que nos conta o Monteiro! O melhor é que ainda tem trilha sonora…

  5. nanovp diz:

    Tristíssima, mas de final milagroso, a história. A voz e a música, divinas.

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