Árias – Uma deusa e basta! Diva e casta (11)

Não escapam sem esta de Vincenzo Bellini. Meus senhores e minhas senhoras, diretamente da Norma, a mais famosa ópera do autor, com libretto de Felice Romani, estreada em 1831, temos Casta Diva – a ária de soprano que hoje me apetece classificar como mais bela.

Da Norma podia dizer muitas coisas que a maioria não ia entender. Por exemplo, que tem ensembles longos, ou que o soprano (que é uma mulher, mas diz-se no masculino, ouviram ó comentadores e jornalistas, porque é um registo de voz e não uma regista), o soprano, dizia, tem de ter uma coloratura de grande poder, alcance e virtuosismo. Mas adiante!

Quem canta é a Maria Callas, é está justificado porque este é o melhor papel de Callas e o papel melhor para Callas.

Por último, resta-me dizer que a coisa se passa assim. Numa floresta, está lá um druida cujo nome esqueci (mas que é o baixo) à espera que Norma que é a sacerdotisa expulse os romanos. Mas o pai dos filhos de Normal (que não cantam nem contam para esta parte) é o procônsul romano, Pollione. Este, para fazer inveja , diz que ama outra sacerdotisa do druida, Adalgisa. Estamos nisto quando a Norma diz que serão os deuses a decidir e todos lhe obedecem porque ela é a Deusa Casta (a Casta Diva).

Pronto, ouçam lá e digam-me coisas (simpáticas, de preferência)

E aqui o Libretto

Casta Diva, che inargenti
queste sacre antiche piante,
a noi volgi il bel sembiante
senza nube e senza vel…
Tempra, o Diva,
tempra tu de’ cori ardenti
tempra ancora lo zelo audace,
spargi in terra quella pace
che regnar tu fai nel ciel…

NB – Para o maître Manuel não se queixar que eu não lhe ligo, aqui fica em lugar discreto, apesar de contra os meus princípios operários.

Até depois….

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

14 respostas a Árias – Uma deusa e basta! Diva e casta (11)

  1. Luísa Tavares de Mello diz:

    Não sei se é o melhor papel de Callas. É divino.Devo-lhe este enorme prazer. Obrigada.

  2. Ricardo Correia Afonso diz:

    A “Norma”, e esta Norma, em concreto, suscita-me a seguinte observação: no período da opera chamado do bel canto, tornou-se usual escrever duetos de amor entre as personagens românticas principais. Pois a “Norma”, para além de ter um dueto de amor entre o Poliao e a Adalgisa (secundaria), tem o único dueto de odio deste período musical, entre a Norma e o mesmo romano. E a Callas, acompanhada do Del Mónaco, fizeram história, na abertura do Scala, de 1955, exactamente com este dueto. Ora, youtubem la este ” in mia man alfin tu sei”, e arrepiem-se. No mínimo. Obrigado Henrique pela inspiração 🙂

  3. Isto é de ir morrer e voltar devagarinho! Tenho uma gravação, justamente de 55, não diz que é a de abertura do Scala, mas é a minha mais que tudo, conduzida pelo Antonino Votto. E uma versão nova da mesmíssima coisa, com menos ruído e mais quelque chose, mas não sei se é melhor.

    Ps: a Solveiguezinha nem merece uma palavra?

    • Henrique Monteiro diz:

      A Solveig é música de cena para Ibsen a quem depois fizeram uma letrinha e isso tudo. Não é opera, e eu – ó Goddess – estou snob

    • Ricardo Correia Afonso diz:

      Exactamente Eugénia. Pena que da parte visual dessa produção, encenada por Margherita Wallmann, reste apenas 5m do final do ato II, e as esplendidas fotografias de Erio Piccagliani, fotografo oficial do teatro milanes.

  4. Foi um adeus às árias? Não pode ser, com este sagrado, antigo canto? Ficamos a querer mais. Muito mais. Pelo menos uma ária por semana.

    • Henrique Monteiro diz:

      O basta é por hoje. Amanhã há mais. Se não for amanhã é depois. Ou um dia destes. E lá tens a Solveig para te entreteres, ó Maître…

      • Já estou mais descansado. Já vi e ouvi a Solveig, ora eu queria era o teu belo paleio, mas já disseste alià princess que não descias lá do teu alto trono. Mas vou fazer-te outro desafio.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Sou mesmo «infoexcluída» nalgumas artes. O belcanto é uma delas. Nem precisa responder a esta mera confissão.

  6. São José Almeida diz:

    Olá, Henrique. Não te conhecia este lado melomano, mas estou a gostar. Parabéns pela qualidade da divulgação que tens feito. E para quando a Lucia di Lammermoor? Pela Callas, claro! Beijos

  7. António Barreto* diz:

    5* para Ana Nestrebko.

  8. nanovp diz:

    Só agora consegui ouvir. Perante a Diva recolho-me a um “Silêncio Maravilhado”.

Os comentários estão fechados.