Atalaia

forte-remedios

ESP. TAITI

a proeira

De idas e vindas inesgotáveis se faz a grande arte de velejar. Faz-se muito mais por derrotas de elipse e meandro que por linhas retas e objetivas. E, se uma vez, ela é posta em prática ao largo de Fernando de Noronha, entra para a antologia do inolvidável. E ainda que de proeiro faltem alguns quilos no corpo ou alguma agilidade mental acumulada em acese para nós ou testadas de vento.

Foi assim em 1989, ao largo de Noronha, com suas rochas e franja esmeralda abrolhando-se do mar. O arquipélago são pequenos retalhos de rocha e verdura cercados por um mar que avantaja-se por todos lados. Às vezes com magníficos estrondos. Dista 550km da costa, Atlântico a meio. E já no sec. XVI, a maior das ilhas fascinou o cristão-novo que a baptiza. Ingleses, holandeses e franceses disputaram-na à chumbo e bala, até ser nossa, depois de muito alternância. Há como não lembrar de abutres, angras, heroísmos? A ilha maior semelha um veleiro em mar alto, antecipando a flotilha, como um guardião ou atalaia. Tênue vanguarda de uma terra imensa. E a ironia haver sido apenas um presídio até algumas décadas atrás.

Um pouco antes, e uma primeira ida a Noronha foi mais espiritual. Foi por amigos músicos de Fortaleza. Eles compuseram uma canção para a Praia de Atalaia, uma das mais belas do arquipélago, e um ponto privilegiado para mergulho. Essa canção guarda para mim um significado especial, pois foi gravada pelos primeiros músicos com quem tive comércio na cidade. À época, viviam numa espécie de comunidade hippie, como mandava o figurino de então. Era um amplo e, algo, esparso casarão, que já tinha conhecido melhores dias, na Avenida Santos Dumont. A gravação é do disco coletivo Massafeira, do fim dos anos 1970 e, apesar de irregular, muito saborosa. O tema é de Francisco Casaverde, que então assinava-se Ferreirinha. A letra, dos irmãos Graco e Caio Sílvio, que depois responderiam pelo grande sucesso de “Coração Alado”, tema de novela da Globo. Casaverde, em entrevista, considera a gravação apenas sofrível. E de fato ela guarda em seu arranjo, de levada barroca, algo de bisonho. Mas de um bisonho bom. De gauche. De bombordo, que é o lado do coração: o esquerdo. Grãos de um primeiro esforço ou querer fazer, que a gente não esquece. Que permanece conosco, a bombordo da memória. Alguma sorte de principiante.

Há em “Atalaia”, a canção, algo da praia de Noronha: essa pátina de utopia e novidade que não exime certa falta de jeito do navegador de primeira viagem. Mas a atração, que só as primeiras coisas trazem quando devidamente evocadas como primeiras coisas. E, para bom navegador, na vida como nas ondas,  primeiro as primícias.

 

 

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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8 respostas a Atalaia

  1. Panurgo diz:

    Magnífica popa.

  2. Mário diz:

    Ruy, cada post seu ilustra um pedacinho de Céu na Terra. Deus, afinal, é mesmo brasileiro. De Pernanbuco. Apetece mergulhar no mar, dar umas braçadas e ficar estendido no areal. Então em dias como o de hoje, com a chuva a bater na janela, é uma crueldade.

  3. Bruto da Silva diz:

    Atalaia magnífica, do princípio ao fim, esmorecendo em cor, ganhando em forma 😉

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    Isso,ganhar em forma.

  5. nanovp diz:

    É a música que nasce da ilha, ou a ilha que nasce da música? E quem sola na guitarra ? O Ruy?

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