Ces petits riens – i

SWEET ON MY LIPS

i – C´est quoi l´amour? Mirabai amava Krishna. Uma mortal e um deus. Como em todo o amor, une-se o humano ao divino – haverá outra forma de arder? Ao samsara correspondem as provações todas que as ilusões fazem crescer. Mas quando usadas como jóias, como nestes poemas, cantos devocionais, não é no próprio samsara que Braj se reflecte? Em que espelho assomaria o idílio desse outro mundo se a paixão tão dedicada não mergulhasse nos braços do mais escuro dos senhores, o amor?

Em Mirabai, o canto coincide com a carne e esta com o desejo, aspiracional ou extático, sempre presente, pela consciência da ausência ou pela comunhão. Canto aspiracional como o de qualquer amante, ora pedinte, ora satisfeito, no lamento de si mesmo ou na alegria. Extático na união fulmínea do céu com a terra.

Pergunto-me. E deus, o sopro, o espírito, o céu? Não foi Krishna que escreveu, “doce nos meus lábios”, foi Mirabai. Não sabemos nada de deus. Sabemos que o molhado corre para o seco: amar é inclinar-se na direcção amada, amante. Amar é tender. Tenro, terno, teso, tender. A mulher para o homem, humanos e deuses os dois. O corpo para o corpo – não há outro lugar onde a alma ecoe.

Mirabai A&A

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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5 respostas a Ces petits riens – i

  1. os pequenos nadas
    ouro em pó do dia a dia
    vale mais que pesa

  2. Ouro de letras: ler é do melhor que pode haver.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Fiquei com vontade de ler a minha Mirabai. Vou já ver se a encontro.

  4. nanovp diz:

    Não conheço, mas fiquei convencido pelo texto…

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