Cozinhar, Lavar a Louça, Esperar

POEMAS COM ADÉLIA PRADO DENTRO – i
COZINHAR, LAVAR A LOUÇA, ESPERAR

Quando as pernas juntas
só um pouco se separam
a sombra de uma coxa
repousa na outra
escuro a abrir o escuro
Estar sentada no degrau da entrada
da cozinha – uma coisa de Adélia Prado
e de mundo com quintais
estar sentada no degrau a descascar ervilhas
quando as pernas juntas
só um pouco se separam
e cabelos obstinados caem sobre o rosto
e de volta atrás da orelha
Nem um eco de um passo de homem
bate na soleira da porta e sobe ao céu
nem um eco nem um ai
mas a luz cai com uma gota de humidade
no reflexo do cabelo agarrado à face
afastá-lo para quê
se o sol brinca no joelho
Ervilhas soltam-se à mais leve pressão
do dedo que desliza no carreiro
estreito
e a sombra descansa na sombra

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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9 respostas a Cozinhar, Lavar a Louça, Esperar

  1. Rita V. diz:

    picante ii
    😀

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Já viu bem, Eugénia, onde caem quase sempre as gotas de luz às meninas?

  3. Diria mesmo jindungo! (já sei que é na minha cabeça, mas um homem também é a sua circunstância…)

  4. nanovp diz:

    Bela vista…a de a ver sentada no degrau claro…

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