Da bondade dos maus hábitos ou como vencer um inimigo

Que os maus hábitos são bons não será novidade para muitos. A defesa dos maus hábitos é que pode conter originalidades. E essa é apenas uma das muitas razões que valem o embarque nesta viagem.

(É que “pode um homem não ter maus hábitos e ter coisa pior”, lá dizia um Borda D’Água americano citado pelo autor).

A mark twain

“We sailed to America (…) Two members of my family elected to go with me. Also a carbuncle. The dictionary says a carbuncle is a kind of jewel. Humor is out of place in a dictionary”, começa Mark Twain, e cá seguimos nós por esse Equador adentro em barco a vapor, a bordo com o autor, parentes e jóia. E um lugar certo para o humor em cadeira de madeira.

Estamos em 1897, já passaram 20 anos sobre Tom Sawyer, uns 10 sobre Huckleberry Finn. Isto agora não é ficção, é viagem (se é que os dois termos não viajam sempre juntos) e dura um ano. Tempo de sobra para sérias divagações.

O enfeite de pele do primeiro parágrafo vem a calhar, salvo seja. Seja de superfície ou vício entranhado, o autor presta-se a atacar o mal pela raiz…sem desistir dele completamente.

É esta a decisão: se um compromisso é como uma corrente a chocalhar e a lembrar um homem que não é livre…a melhor táctica de guerra é não fazer compromissos definitivos. E ficar livre para retomar o vício quando assim decidir.

Foi assim que Twain acarinhou aqueles que chama os seus 19 injuriosos hábitos. Conta que em 5 dias arrumou o desejo de fumar. Mas depois de um ano de preguiça, quando voltou a escrever um livro, a caneta não mexia. Fumou 10 cigarros por dia durante 5 meses. Acabou o livro e não fumou outra vez até passar um ano e começar outro livro.

Tentou o esquema com uma doença. Tinha estado de cama com lumbago e não melhorava. O médico protestava que os remédios não tinham nenhuma hipótese. Além do lumbago, tinham de lutar contra o tabaco, bebida, comida desregrada. Segue diálogo elucidativo em tradução livre:

– Se reduzir este consumo, pode ser que resolva.

– Não posso, doutor.

– Porquê?

– Não tenho força de vontade. Posso cortá-lo completamente, mas consumir apenas moderadamente não consigo.

Vai daí o doente Twain cortou todo o tipo de comida e bebida, excepto água. Ao fim de 48 horas, conta que o lumbago se sentiu desencorajado e o deixou. E ele pode voltar aos deliciosos maus hábitos, muito agradecido.

Como a receita lhe parecia mais que válida, recomendou-a a uma senhora que já tinha corrido todos os médicos e medicamentos, sem efeito. Disse-lhe que ela devia parar de praguejar, beber e fumar  durante 4 dias. Ela disse que não podia…por nunca ter feito nada disso. Mark Twain encontra assim a raiz da questão: ela tinha negligenciado os maus hábitos. Não tinha nada para abdicar. Era um navio a naufragar e sem nada para deitar fora e aliviar a carga. E pensar que apenas um ou 2 maus hábitos podiam tê-la salvo.

Ou seja, resume o pensador, estas coisas dos vícios têm de ser adquiridas enquanto se é jovem. Senão, quando a velhice e a doença chegam, não há nada com que as combater.

(Dada a crescente juventude deste blogue, parece que ainda vamos muito a tempo).

Está escrito.

É matéria para análise e para boa continuação de leitura, Following the Equator. E talvez as notícias da morte deste senhor continuem a parecer “manifestamente exageradas”.

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
Esta entrada foi publicada em Está Escrito. ligação permanente.

11 respostas a Da bondade dos maus hábitos ou como vencer um inimigo

  1. Henrique Monteiro diz:

    Este livro é um portento! E a inveja que eu tenho de não ter sido eu a escrevê-lo é… indescritível

  2. Mário diz:

    Hábitos de longevidade.
    Tenho um tio meu com nome de árvore (pode ser Macieira, tem tudo a ver), um tipo atarracado (é do lado da minha mulher, do meu lado somos todos altos e loiros), que só conhece dois tipos de estado: o seco e o molhado. Ora, para cada tipo de maleita ele identifica o estado: gripe é seco (dores no corpo e nas articulações, corpo preso) logo, é preciso equilibrar o grau de humidade – e lá vai um bagaço; o enfartamento é molhado (excesso de tudo no estômago), logo, é preciso secá-lo – e lá vai uma cigarrilha.
    E com isto vão 89 primaveras…

  3. olinda diz:

    que vivam os maus, porque os sem adjectivo não contam – são fanados, hábitos. 🙂

  4. Mário, o que já me fez rir. O que os hábitos podem fazer por nós. Esse seu tio dava um tratado.
    Pelos vistos, Mark Twain tem seguidores à altura.

    • Mário diz:

      E ainda por cima é surdo como uma porta e míope como uma toupeira, mas com carta de condução renovada aos 85…calma, ele não conduz, mas gosta de ter a carta just-in-case (acho que tem medo de se aborrecer com as viagens de autocarro do INATEL)!
      [estou a exagerar no grau mas não no conteúdo]
      🙂

  5. teresaconceicao diz:

    Ainda vai muito a tempo, Henrique. Já tomou fôlego com o Kiribati, agora Following Kiribati…

  6. Olinda,
    Parece que há hábitos que fazem mais que monges 🙂

  7. Gosto uma fartura deste homem, menina Tê, tem coisas verdadeiramente detestáveis e irresistíveis – e do que ele escreveu também.

  8. Manuel S. Fonseca diz:

    Apanhando-te a ler Twaun é que percebi, Teresa, que este blog é um injurioso há biot. Isto livra.nos de muitos males, amen.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Parabéns pela escolha da obra e pelo texto. Contra tudo e todos, Mark Twain é um dos meus!

  10. nanovp diz:

    Sinto o cheiro do barco, do vapor, da viagem, a chamar (ou será o cheiro do tabaco?) e apetece fazer as malas…

Os comentários estão fechados.