Da minha liberdade e da nossa igualdade

Gostava de poder deixar isto claro: a liberdade é um valor que parte de nós, do nosso interior. Pode existir, ou não, na sociedade, mas a liberdade de cada um é irrevogável. A minha liberdade é minha; um ser humano pode ser livre na prisão ou na maior adversidade; como pode ser escravo na melhor das sociedades. A igualdade, que não renego, longe disso, mas coloco abaixo na hierarquia dos valores, é sempre um valor social.

A igualdade é algo que reivindicamos de outros. A liberdade tem de começar por nós. Disse!

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Escrita automática. ligação permanente.

7 respostas a Da minha liberdade e da nossa igualdade

  1. Emi Castanheira diz:

    …alegre e triste, na ambiguidade que a vida é.

  2. A Liberdade de que fala o mantra triádico não é a liberdade individual, o que seria absurdo, mas a Liberdade Primordial. Ou seja, aquela Liberdade que é outorgada pela Criação a todos os seres providos de responsabilidade, com total Igualdade entre eles, no sentido de agirem ou pensarem de acordo com princípios que a sua própria vontade estabelece e em compatibilidade com o meio e as circunstâncias às quais foram trazidos a evoluir. A Igualdade na outorga dessa Liberdade resulta de a todos os seres unir o laço fundamental do Verbo, origem e fim de todos eles, laço esse que estabelece também, à partida, a Fraternidade como valor primordial em torno do qual todos eles se estabelecem como entidades evolucionantes, sujeitas ao princípio da interdependência e da intersubjectividade.
    É assim que o mantra triádico não pressupõe hierarquia entre cada um dos seus vértices, pois cada um deles é ele próprio e os outros dois, não podendo nenhum subsistir senão nessa gramática de complementaridade, dissolvendo-se imediatamente quando transposto para a irracionalidade geométrica do individualismo. Tal como acontece, aliás, ao triciclo da criança ao qual se retira uma das rodas, qualquer que ela seja. Não só deixam as outras duas de oferecer ao movimento qualquer utilidade, como o triciclo deixa de ser triciclo e as rodas deixam de ser rodas, passando tudo a assumir a condição de mera sucata.

    É o entendimento compartimentado, fracturante e individualizado do mantra triádico que está na origem da degenerescência dos sistemas sociais do ocidente, entre os quais, o de Portugal.

    • Henrique Monteiro diz:

      O seu comentário, sendo muito interessante, levar-nos-ia muito longe. Eu não distingo a liberdade -como lhe chama – primordial da liberdade individual. O livre arbítrio permite-nos escolhas justamente individuais. Sinto que há nas suas linhas algo de predestinação ou de ligação entre a comunidade que me afasta do que escreve. Não acho, desse modo, a liberdade indissociável dos outros dois valores. Acho que os vértices do triângulo não se equivalem. Nascemos livres e iguais, mas desigualmente livres e livremente desiguais.

  3. Panurgo diz:

    Sociedade livre é um oximoro. Não existe. Pode haver um homem livre, mas é raro. O Ocidente deu-nos três: Prometeu, Sócrates, Cristo – um pregado no Cáucaso, um outro envenenado, e o último crucificado. Aí está a Liberdade.

    É verdade que o homem nunca é inteiramente livre; é, por natureza, um ser finito, que só se liberta da morte através de falsas esperanças e ilusões. Todavia, os gregos (esse povo antigo e atrasado, que pouco tempo perdia com discussões patetas de igualdade) associavam o homem livre – um pleonasmo – a duas ideias para nós estranhas: a Justiça e a Beleza. A Liberdade não é algo a que se possa aspirar – é uma consequência de um bem de natureza superior, a Sabedoria – aquela descrição intemporal do Homem magnânimo de Aristóteles. Cristo ao entrar na Sinagoga, meteu mãos ao trabalho e tratou de pontapear e chicotear os fariseus. Disse-lhes: “Não fazeis da casa de meu pai um mercado”. A casa do Seu Pai, entenda-se, é o Homem. Também Ele, como os gregos, tinha a pior impressão dos negociantes, dos credores e devedores, que tudo vendem e traficam. Um homem não é negociável. Para Cristo, claro está. Essa ideia do homem livre há muito que se perdeu – por artes e manhas históricas o trabalho – coisa típica dum escravo – foi santificado, para alívio de Reformadores, Mercadores e Iluminados.

    E repare-se que há apenas três profissões que servem o nobre propósito do insulto: puta, sofista e usurário. Putas há as de rua e as gourmet – mas trata-se apenas do tráfico do corpo, e o preço varia consoante a qualidade da carne; os sofistas da nossa época, como os outros, também transportam consigo a cultura do tempo: abre-se um jornal, liga-se uma televisão, e não se encontra um laivo de inteligência, de estudo, de investigação, de sabedoria – tratam apenas de propagar a sua excelsa estupidez diante do rebanho amestrado. Os usurários, indivíduos cuja vida é um crime continuado, são os Hércules da nossa feira pública. Como é que o Grão-Inquisidor do Ivan Karamazov dizia? “Um homem passa a vida a interrogar-se: perante quem me devo inclinar?” (qualquer coisa deste género).

    «Em todos os sistemas, o propósito está em impedir o afluxo da Metafísica, em domesticar e adestrar, no sentido da colectividade. Mesmo no caso em que o Leviatã não pode prescindir da coragem, como no campo da batalha, tratará de simular ao combatente uma segunda ameaça e mais intensa do que o perigo, que o detém no seu posto. Em Estados destes, confia-se na polícia», escreveu Jünger naquele seu Tratado do Rebelde, livro maior de um homem sábio e corajoso. O Estado contemporâneo já não se equipa para lidar com ameaças externas: arma-se contra os seus próprios cidadãos. Ao homem livre resta apenas a solidão. É um caminho cheio de perigos, de dúvidas e de dor. E, ao mesmo tempo, o caminho do homem digno, o caminho de Cristo.

    Jesus chamou os discípulos e disse-lhes: «Tenho compaixão desta multidão, porque há já três dias que está comigo e não tem nada para comer.» (Mt 15, 32)

    Então Pilatos perguntou à multidão: «Quem quereis que eu solte: Barrabás, ou Jesus, chamado Messias?»

    E foi como foi.

    • Henrique Monteiro diz:

      A grande frase que disse é “Ao homem livre só resta a solidão”. Como eu creio em comunidades de homens livres, diria a frase de outro modo: O homem livre é o resultado de uma busca do conhecimento acumulado pelos que já passaram e de uma busca individual e interior do eu. Conhece o que vem dos outros e conhece-te a ti mesmo. A primitiva Academia era isso, em parte

      • Panurgo diz:

        Porque o Saber da primitiva Academia, ao contrário da nossa, não era vendável. Quem procurava a Verdade, procurava-a desinteressado, desocupado, livre. Compare-se à nossa. Até é cómico ver gente dita liberal repetir Marx. Os abortos nascidos dessa relação incestuosa estão bem à vista de todos: o doutor-trolha, o mestre-empregado de balcão, etc. Só me espanta haver quem chame de Crise a um Corolário da lógica bovina.

        Acreditarei numa comunidade de homens livres quando a vir. O Hesse fala duma, Castália. Mas isso foi na Literatura, «e o gajo morreu na mesma.»

  4. nanovp diz:

    Começará em mim e termina quando invado a dos outros.

Os comentários estão fechados.