De Montevideu a Eduardo Galeano e a Joaquín Torres García

Joaquín Torres García - Abstract Art in Five Tones

Joaquín Torres García – Abstract Art in Five Tones

Eduardo Galeano foi-me referido por mulher que muito me honra com a sua amizade. Num daqueles telefonemas choramingas por desgosto familiar ou angústia pessoal, teve resposta assisada como sempre: _ “Lê Eduardo Galeano. Estás a precisar «miúda».” Estava de facto.

Investiguei o escritor. Li a fascinante biografia. Escutei e vi os documentários. Somente depois, os poucos livros disponíveis nas livrarias. Das Wikis, soube ter nascido em Montevideu, ter quase meia centena de obras publicadas que vão além de qualquer rótulo desde o mais ortodoxo até à ficção, análise política, jornalismo e História.

O percurso do Homem revela espírito inquieto, disponível para lutas políticas que lhe valeram ser proscrito pelo regime de Jorge Videla e constar o seu nome nos “esquadrões da morte”. Exila-se em Espanha e dá início à “Memória de Fogo”. Seguir-se-iam obras de maior êxito tendo como cenário a América-Latina.

Joaquín Torres García

Joaquín Torres García

Ler ou ouvi-lo é prazer:

_ As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não choveu ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda doce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata

Joaquín Torres García

Joaquín Torres García

Como nas pinturas do compatriota Joaquín Torres García representado em museus do mundo, descreve a injustiça social, pensa utopias, ouve as raízes. E não é assim que deve ser?

Sobre Maria do Céu Brojo

No tempo das amoras rubras amadurecidas pelo estio, no granito sombreado pelos pinheiros, nuas de flores as giestas, sentada numa penedia, a miúda, em férias, lia. Alegre pelo silêncio e liberdade. No regresso ao abrigo vetusto, tristemente escrevia ou desenhava. Da alma, desbravava as janelas. Algumas faziam-se rogadas ao abrir dos pinchos; essas perseguia. Porque a intrigavam, desistir era verbo que não conjugava. Um toque, outro e muitos no crescer talvez oleassem dobradiças, os pinchos e, mais cedo do que tarde, delas fantasiava as escâncaras onde se debruçaria. Já mulher, das janelas ainda algumas restam com tranca obstinada. E, tristemente, escreve. E desenha e pinta. Nas teclas e nas telas, o óleo do tempo e dos pinceis debita cores improváveis sem que a mulher conjugue o verbo desistir. Respira o colorido das giestas, o aroma dos pinheiros nas letras desenhadas no branco, saboreia amoras colhidas nos silvedos, ilumina-a o brilho da mica encastoada no granito das penedias.
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7 respostas a De Montevideu a Eduardo Galeano e a Joaquín Torres García

  1. Bruto da Silva diz:

    Uma espécie de ‘greguerías’?

    Lo que defiende a las mujeres es que piensan que todos los hombres son iguales, mientras que lo que pierde a los hombres es que creen que todas las mujeres son diferentes.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Querida Céu, permita-me discordar. Desta feita com ‘ênfase’. Mas também com argumentos.

    *

    Felizmente temos Jorge Luis Borges, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Bioy Casares, García Márquez, Julio Cortázar… e até mesmo Jorj’Amado. Temos Glauber Rocha ou Joaquim Pedro, se virarmos para a tela. E podemos prescindir desse escritor demagógico, populista, órfão de uma época, que é Galeano. Há melhores autores no bravo Uruguay, com Mario Benedetti. Mais generosos, atentos às mudanças, ao correr dos minutos. À diversidade das ideias. Verdade, Galeano ainda vende livros aqui pela América. Especialmente para militantes estudantis de uma esquerda ainda um tanto stalinizada, fossilizada. Daquele tipo de estudante que não quer ovo com estudar. Daquele tipo de esquerda do “quanto pior, melhor; para só então fazermos a revolução”. A mesma “esquerda” que nunca perdoou o retorno à democracia, porque não tem mais um opressor para chamar de seu. A esquerda cujo modelo era, por vezes, o albanês. A esquerda que, se pudesse, suprimiria, de fato, a democracia nos mesmos moldes das ditaduras de direita da época de Médici, Videla ou Pinochet. Ou aí da margem de vocês, mas vindo de antes e de mais anterioridade: Franco e Salazar.

    Mas, enfim, há quem goste de ler Galeano. Aqui, não poucos o vêem como uma espécie de fenômeno de época. Ele funciona como datação. Bem, cada um com o gosto que melhor lhe sabe. E ao tempo que lhe calha. E isso ainda é democracia. Porém Galeano parece haver parado no tempo. Ou haver permanecido a escrever nos 1960. Àquela altura, ainda se viam transmontanos esquálidos aguardarem no porto de Lisboa a chance de emigrar para o Rio de Janeiro ou Durban atrás de uma vida mais digna. Hoje, quando muito, vêm portugueses formados em engenharia trabalhar na Petrobrás. Ou empreendedores do setor da construção civil. Ou da área de telecomunicações. Ou da publicidade. O ser dono do pequeno comércio, da cantina acanhada, da padaria da esquina, o ser o vigia do prédio ou o pequeno biscateiro ambulante, dissociou-se do imigrante português.

    Os tempos, portanto, são outros. Bem outros. Aí como aqui. E, embora gosto só se discuta, não há de se discutir já.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Nem imagina como lhe agradeço toda a informação que eu não possuía. Nas minhas leituras parto para outra já, visto que após esta crítica adquiri um novo olhar sobre o contexto da sua obra. Valeu!

    • Bruto da Silva diz:

      Não conhecia… mas apetece fazer o contraditório (a partir da Wiki):

      Galeano nasceu em 3 de setembro de 1940 em Montevidéu em uma família católica de classe média de ascendência europeia. Na infância, Galeano tinha o sonho de se tornar um jogador de futebol; esse desejo é retratado em algumas de suas obras, como O futebol de sol a sombra (1995). Na adolescência, Galeano trabalhou em empregos nada usuais, como pintor de letreiros, mensageiro, datilógrafo e caixa de banco. Aos 14, vendeu sua primeira charge política para o jornal El Sol, do Partido Socialista.
      Galeano iniciou sua carreira jornalística no início da década de 1960 como editor do Marcha, influente jornal semanal que tinha como colaboradores Mario Vargas Llosa e Mario Benedetti. Foi também editor do diário Época e editor-chefe do jornal universitário por dois anos. Em 1971 escreveu sua obra-prima As Veias Abertas da América Latina.
      Em 1973, com o golpe militar do Uruguai, Galeano é preso e mais tarde forçado a se exilar na Argentina, onde lançou Crisis, uma revista sobre cultura. Em 1976, com o sangrento golpe militar liderado pelo general Jorge Videla, tem seu nome colocado na lista dos esquadrões de morte e, temendo por sua vida, exila-se na Espanha, onde deu início à trilogia Memória do Fogo. Em 1985, com a redemocratização de seu país, Galeano retornou a Montevidéu, onde vive ate hoje.

      Em seu livro mais recente, Espelhos, o autor tem o intuito de recontar episódios que a história oficial camuflou. Galeano se define como um escritor que remexe no lixão da história mundial.
      Apesar da clara inspiração e relevância histórica de suas obras, Galeano nega o caráter meramente histórico destas, comentando que é “um autor obcecado com a lembrança, com a lembrança do passado da América e, sobretudo, da América Latina, uma terra intimamente condenada à amnésia”.

      Em 2006, Galeano se juntou a outros artistas renomados como Gabriel García Márquez, Mario Benedetti, Ernesto Sábato, Thiago de Mello e Pablo Milanés na assinatura da Proclamação de Independência de Porto Rico do Congresso Latino Americano e Caribenho.

      Em uma entrevista ao jornal Zero Hora, disse o seguinte sobre a vitória de Barack Obama nas eleições de 2008: “Agora, ele entra na Casa Branca, que será a sua casa. Tomara que não esqueça que a Casa Branca foi construída por escravos negros. Chegou a hora dos Estados Unidos se libertarem da sua pesada herança racista”.

      Em julho de 2008, Galeano foi agraciado com o primeiro título de Cidadão Ilustre do Mercosul.

      Fiquei a gostar muito dele!

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    Foi exatamente o que me aconteceu pela investigação feita.

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