Deus, procura-se vivo ou morto

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Morreu, é certo. Deus foi assassinado, crê-se. Um alemão, Friedrich, reclama a autoria do crime. Alega tê-lo feito a mando de uma silhueta fantasmática que mal se vislumbra atrás do obscuro nome de Zaratustra.

A pretensão de Friedrich enferma de defeito. O confesso criminoso não apresentou prova material: o corpo do delito nunca foi encontrado. Não se estranha que outros alemães – a sanha alemã! – reclamem ter sido eles os autores da matança: Karl, que viveu penosamente em Londres, fez clandestino protesto de o ter morto a ópio. Adolph, pintor da escola suástica, jurou que Deus era judeu e matou-o gaseando-o. “O cristianismo, essa superstição judaica”, terá depois dito, eufórico, o matador.

A notícia da sua morte omite todavia o que alguns acólitos advertem ser um facto essencial: a imortalidade da personagem. Possibilidade que essa seita blasfema, sustentando a inverosimilhança ontológica, denuncia como uma trivial narrativa de maldição metafórica: Deus, esse falecido imortal, é apenas e só um dos nomes duma maldição, a da eternidade.

Outros, numa improvável combinação de ciência e esoterismo, sustentam que Deus deve ser imaginado como um incrível burlão que tivesse, primeiro, roubado o tempo para, num segundo momento, decretar a sua inexistência.

Não é fácil executar-lhe a biografia, sobretudo quando os seus mais acérrimos defensores pretendem que a sua idiossincrasia é apofática: só o poderíamos descrever dizendo aquilo que ele não é. Desse sublime desconhecimento emergiria então o seu rosto.

Se tentarmos ser positivos, reunir as peças da sua vida é uma tarefa atrapalhada por torpes fantasias. Relatos heterogéneos dão conta da sua súbita presença no naufrágio de um transatlântico, salvando uma centena de aflitos enquanto deixa que mil infortunados se afoguem. Herói de superpoderes, terá salvado um bebé no meio de um terramoto, uma virgem na queda de um avião em que, talvez por repentino pudor, permitiu que todos os passageiros perecessem carbonizados. É olímpica a sua indiferença ao sofrimento, é juvenil e arbitrário o seu modelo de heroísmo.

Épico parece ter sido o seu apetite sexual. De Deus, nome de guerra a que nunca juntou apelido, conhecem-se episódios insensatos, detalhes dissolutos. Manteve uma relação mais íntima com Teresa d’ Ávila e com João da Cruz o que revela uma sexualidade melancólica, preenchida por silenciosos êxtases. Em San Francisco, mais a norte na costa californiana, iniciou um movimento ácido, caracterizado pela recusa do sabonete e banho, o “flower power”. O movimento outorgou-lhe a paternidade nomeando-o num lema mítico: “Deus é amor”, diziam.

Mestre do disfarce, entretendo uma vida lúdica, ninguém conheceu o seu rosto. Cega quem o olhar de frente, asseguram testemunhos balbuciantes. Homem sem rosto – um olho só, intolerável e imenso, como surge em retratos apócrifos – os seus soldados, os seus ministros, certos adeptos do seu culto delirante e arrebatado, apagaram-lhe as imagens, abominando a pintura, a escultura, a fotografia como elementos ruinosos e ridículos, obstáculos à ontoteologia que proclamam.

Apreciador de uma ironia múltipla e excessiva, ao rosto velado contrapôs uma interminável lista de nomes. Sociedades secretas, agremiações teosóficas, seitas rebarbativas enumeram os seus nomes. Um grupo de iluminados ou ungidos assegura serem 99 os nomes verdadeiros, de alfa a ómega. Outros, radicais, defendem que é o Inominável. “Unum” foi como o chamou, com inefável serenidade, Mestre Eckhart.

Múltiplos são também os sinais da sua passagem por cidades e desertos, por remotas aldeias e incansáveis rios. Abundam os símbolos da sua passagem: há cruzes e crescentes, rodas e pedras negras, mesmo um falo estatuário. Descrição a roçar o idólatra apresenta-o, em Ceias iniciáticas e outras formas de Missa, com uma auréola pairando-lhe sobre cabeça, o que o converte num precursor da Industrial Light & Magic e dos special effects spielberguianos, substitutos coetâneos dos esgotados lumen naturae.

Morto, sem rosto, inominável, de sobredotada sexualidade, ele é por excelência o verbo, aquele que se escreve e de quem, Triste, se escreve. Réprobo e tão próximo agora, deixou de ser a visão poética que se confundia com uma nebulosa galáxia distante. Triste e por escrito, se estava morto, está agora enterrado.

Joachimlostcorridor

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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22 respostas a Deus, procura-se vivo ou morto

  1. Panurgo diz:

    O que fica é que eu suspeito que as meninas, mulheres e senhoras, muito quentes ficarão, ao saberem que um homem assim sensível, um homem das letras e do Verbo possui o vigor físico para esburacar chão que lhe apareça debaixo dos pés. É que enterrá-Lo não é tarefa fácil.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Concordo em número e grau, Panurgo. Mas acho que meu lado mulherzinha me impede concordar em gênero.

    • Panurgo diz:

      Interlúdio nº 144, Além do Bem e do Mal…

      • Ruy Vasconcelos diz:

        “Quando uma mulher tem inclinações eruditas, geralmente há algo errado com sua sexualidade. Já a esterilidade predispõe a uma certa masculinidade do gosto; pois o homem é, permitam-me lembrar, ‘o animal estéril’”. (Além do bem e do mal § 144). Considerando que o estéril é o que não produz, o que não dá fruto, os scholars dizem que Nietzsche aqui não está depreciando a mulher; ao contrário, está depreciando a erudição, o saber monumental, a Grande Verdade, que seriam apenas sublimações de uma verdadeira criação. O problema, então, Urgopan (sugiro-lhe uma troca de nome, este faria mais sucesso nas padarias e pradarias do Brasil), é que não é de hoje que Nietzsche converteu-se no saber monumental, no ‘mainstream’ e na Grande Verdade. E então: onde amarrar nosso burro, Urguinho?

        • Panurgo diz:

          Era só uma piada. Não fazia ideia. Imagine o Ruy, que eu pensava («pensava» é como quem diz) que o alemão mais não fazia do que malhar no homem-efeminado, essa criatura que ele resumia na figura do funcionário público, o típico escravo, resultado da educação alemã: o europeu contemporâneo. É portanto o oposto ao Criador, ao Homem Superior, o solitário que possui em si «a coragem da águia». Em suma, o soldado-filósofo. Mas eu também julgava que a «Vaca Malhada» era assim a modos que a Europa, até que o bom do Jung me explicou que não senhor, é uma coisa budista e não sei quê. Está bem.

          O burro amarra-se ao microfone e ao partido, para me ensinar a zurrar e a adorá-lo como a um deus.

          • Ruy Vasconcelos diz:

            Prossiga. Suas piadas são engraçadíssimas. Estou bolando no chão. Esborrachando-me de rir aqui nos Trópicos. Mas só nos Trópicos, que são tristes, segundo os franceses. Em outras latitudes do corpo, no entanto, fico impávido, que nem um sentinela. Algumas meninas e meninos aqui do blog também devem rir muito de suas graçolas. Agora, quiçá, rissem ainda mais se vissem isto. (Deve ser mesmo o aftermath de suas doutas leituras de Nietzsche):

            http://anjoseprostitutas.blogspot.pt/2013/03/feliz-dia-da-mulher.html

            Mas, como se diz por aqui, cada qual com seu cada qual.

            • Panurgo diz:

              Assim não posso. Graçola não. Piada refinadíssima. As minhas leituras nada têm de doutas. Sou fraco em estudos e com pouco conhecimento do que os Scholars dizem. E então de Nietzsche nem uma palavra entendo. Tentei uma vez e chumbaram-me logo! Zero! Apenas zurros urgopan disse. Depois, lá está, saem-me fotografias dessas. É triste.

  3. A morte is all around, até o jazz kills:

  4. E do amor nascerá outro god (isto é só porque Damiani morreu no início do mês foi reunir-se com Pasolini):

  5. Quem havia de dizer, Manuel Fonseca, que estava calhado para obituarista-coveiro na mesma linha… Bom, muito bom!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Do ETGM, onde fui desenterrar isto, era o que eu mais gostava, dos nossos mortos.

      • Ruy Vasconcelos diz:

        Apoio mais exumações do gênero.

        Grande texto. Já o trazia na mira desde o ETGM. À ocasião causou alguma discussão como Gonçalo Pistacchini Moita. Entre outras rebarbas, a propósito do termo ‘apofático’, que é central para o argumento da via negativa.

  6. olinda diz:

    que texto maravilhoso, caramba.

  7. Manuel S. Fonseca diz:

    Olinda, this is for fun. Pode ler coisas maravilhosas sovre o tema em estranhíssimos textos de Borges. Isto aqui em cima é tudo rapinado.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Não perdi pitada do texto. Para me certificar, reli. E não, não o enterrou, tira dai o sentido. Ele continua a dar pano para muitas mangas.

  9. nanovp diz:

    Vivo, metamorfoseando-se pela vontade dos homens, vencerá a morte pela desistência humana. Acabamos por torna-lo espelho das nossas ambições e devaneios , como revela este grande texto.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Espelho mesmo, Bernardo. Um abominável espelho como abomináveis são os espelhos em Borges.

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