Do baú do bisavô – Sobre o pecado original

image

Ticiano, Adão e Eva

Dado o sucesso de um escrito do meu bisavô António Maria, e estando eu disposto a viver à custa do ilustre antepassado, decidi deixar aqui outro texto de sua autoria (para mais dedicado aos descendentes), desta vez o tema é

PECADO ORIGINAL – POR QUE RAZÃO PÔS DEUS AQUELA ÁRVORE NO PARAIZO?

Se hoje uma nação, das que se dizem civilizadas, punisse com a morte ou com trabalhos públicos por toda a vida, o crime de simples desobediência, sem querer admitir atenuantes, como a sugestão de terceiros, nós verberaríamos tal sentença e condenaríamos essa nação como barbara e cruel. Nenhum pai, que honre esse nome, que tenha pelos filhos o amor que lhes é devido, seria capaz de castiga-los, só pelo facto de lhes desobedecerem, numa pena tão dura como aquela a que Jeová condenou Adão e Eva!

Um pai extremoso procuraria desviar do caminho do filho querido, todos os obstáculos materiais e morais que porventura lhe pudessem causar dano. Essa previdência era o reflexo do seu amor.

Quanto maior este fosse, maior deveria ser aquela. Todavia, apezar disto nos parecer axiomático, o Criador foi, com as suas próprias mãos, colocar no caminho dos seus filhos, feitos à sua imagem e semelhança, à laia duma ratoeira, a maldita árvore da ciência do bem e do mal.

Não se compreende, que sendo o Criador, como dizem todos os teólogos, infinitamente previdente, não previsse o mal, o grande mal que desse ato adviria para o homem, para o mesmo homem para o qual criou a terra, o mar, o sol, o céu, os milhões de estrelas que brilham no firmamento, a infinita variedade de todas as plantas, e sobre todos viventes lhe conferisse o cetro da realeza.

Infinitamente misericordioso, infinitamente caridoso, condena os nossos primeiros pais ao máximo da pena e leva o seu rigor até igualmente condenar a sua descendência…

Nem eu, nem vós, meus filhos, sem sermos divinos, sem termos os atributos do belo e da bondade em tão alto grau, mas cientes do mal que poderia advir  a nossos filhos, plantaríamos tal árvore no Paraizo.

Essa prevenção, como todas em geral, valeria mais do que o remédio que mais tarde resolveu enviar-nos na pessôa do doce Jesus.

E, depois, que necessidade teve Jeová de criar o universo? Que vontade superior à sua o obrigou? E, se isso apenas dependeu da sua soberana vontade, porque o fez assim, tão cheio de misérias, inundado de dôres? Ao menos, porque não nos fez melhores?

Mas continuemos:

Mais tarde o Criador, condoído da pobre humanidade, vergada sob o peso da sua terrível sentença, (quem sabe, talvez arrependido da severidade da pena!) mandou ao mundo para a resgatar do pecado original, seu filho, essa sublime figura, a mais bela encarnação do Amor  a prégar a boa nova do perdão do seu divino pai.

Na verdade as terras da Judeia foram o palco onde se representou ao vivo uma das mais horríveis e cruciantes tragédias da humanidade.

Á ferocidade da Lei e dos homens, respondeu Jesus com a maior das caridades – o perdão para os seus algôzes!

O meigo, o doce Nazareno, inocente cordeiro, é imolado, sem que dos seus lábios saia um aio, um lamento, uma censura para os que o sacrificaram. Dá se a todas as torturas, sofre resignado todos os ultrages, crente que a sua morte salvará das geenas infernais a pobre humanidade, a elas condenada por um simples crime de desobediência!

Bárbaro e inútil sacrifício, porque o homem, depois da tragédia do Calvário, continuou o que sempre tinha sido – HOMO HOMINI LUPUS. – o homem lobo do homem.

Depois da tragédia do Golgota, outras, muitas outras, se teem representado com igual ferocidade.

Caim continuou a matar seu irmão Abel.

Vejam esta terrível guerra que ensanguenta o mundo, e digam-me se valeu a pena o sacrifício do meigo e justo Nazareno!

O mal foi tirar a humanidade do NADA e atirá-la para a vida.

Depois de terdes lido o que acima fica escrito e o que escrevi sobre a religião, , é meu dever acrescentar o seguinte:

Não professo religião alguma no sentido teológico do termo. Para os efeitos do meu viver social, são-me completamente indiferentes as varias religiões em que o nosso planeta está dividido. Mas, contudo, estou longe de ser um ateu. Creio numa causa primeira.

Deus?…. Seja.

Mas o que é Deus? Quais são os seus atributos? Não sei. ´Não sei absolutamente cousa alguma, por mínima e simples que nos pareça.

Eu tenho até para mim que sobre tão intrincado e complexo assunto, tanto sabe o atual homem de casaca e dos salões, como sabia o homem primitivo que vivia nas cavernas.

O sábio de hoje não está mais adiantado do que estava o troglodita. Vamiré não vale menos, neste caso do que Kant, Descartes ou Haeckel

António Maria Monteiro

 


[1] Publicado no Jornal “ A Acção”, n.º 17, Ano I. Semanário Republicano, redactor Monteiro Junior, Viseu a 21 de Agosto de 1919.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

7 respostas a Do baú do bisavô – Sobre o pecado original

  1. Luisa Tavares de Mello diz:

    Acabei de adoptar o seu bisavô. Páscoa Feliz

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Agora se sabe a quem saiu o Henrique.

  3. Escrevia bem o teu bisavô, Henrique. É engraçado como variaram as analogias, alghumas metáforas… Amanhã, daqui a 100 anitos, também hão-de estranhar este blog se tivermos a sorte de ainda se ler ou querer o paraíso.

  4. nanovp diz:

    Extraordinária clareza, a sobreviver ao tempo.

Os comentários estão fechados.