Do meu bisavô, um texto com quase 100 anos – Da gratidão dos povos e das pessoas.

Uma prima minha (daquelas primas que não sobrinhas desta tia) enviou-me um artigo do meu bisavô António Maria sobre a gratidão, embora melhor dissesse sobre a ingratidão. A ingratidão política e a ingratidão pessoal. Por entender (serei o único) que a opinião é atual, aqui a deixo. O texto é de 1916, em plena Grande Guerra e foi publicado em ‘O Lusitano’, órgão português publicado em Manaus, Brasil, onde ele tinha parte dos seus negócios (que infelizmente foram à vida e me deixaram noveau pauvre, como aqui já referi).

Ei-lo, transcrito com a devida vénia e a ortografia da época, o texto do meu colega bisavô, o qual termina com uma máxima curiosa: “vos aconselho a não fazerdes lhes o mal, para não creardes inimigos e que sejais muito cautelosos, ávaros mesmo, na prática do bem, se não quereis fazer ingratos”.

teatro_amazonas

A ópera de Manaus, onde ele ha de ter ouvido música e parece que viu a Sarah Bernhart (se não é mito)

A gratidão

por António Maria Monteiro

O sentimento e o dever de gratidão parece ser, tanto nas nações como nos indivíduos, uma espécie de trambolho que lhes tolhe os movimentos; uma preocupação constante e incómoda; uma cousa aborrecida e enervante que tira o sono; um peso esmagador que a todo o custo se procura alijar; finalmente uma grilheta chumbada à perna.

Realmente o credor, quer o seja por actos de ordem puramente materiais, quer o seja por actos exclusivamente morais lembra sempre ao devedor o momento da sua fraqueza, da sua necessidade e, portanto, da sua inferioridade. Esta inferioridade que ele tem de confessar, asfixia-o, humilha-o . É a ponta de um agudo punhal que o vai ferir, em cheio, no seu orgulho de homem ou de nação. Se consegue elevar-se, ou se o benfeitor tem a infelicidade de descer, a lembrança dessa sua inferioridade transforma-se em um pesadelo horrível que o apoquenta como se fora um remorso!

Apagar essa lembrança, quebrar esse elo que o liga ao credor, passa a ser nele uma obstinação. A   princípio deseja-o pelos meios de uma altruísta e honrosa reciprocidade; mas se estes não chegam ou se demoram demasiadamente, então, põe de parte toda a espécie de considerações, e vai ao ponto de direta ou indiretamente concorrer para o desaparecimento do seu benfeitor. Quando isto se consegue, que alívio, santo Deus!

A atual guerra apresenta factos que, evidentemente, provam o que acima fica dito. A Bulgária, ninguém desconhece, deve a sua independência à Rússia, que a impôs à Turquia pelo tratado de paz de 1878. Apezar disso, apezar de pertencer à mesma raça e professar a mesma religião, não hesitou em alistar-se nas fileiras do seu inimigo natural, para combater a nação que tão generosamente, a libertou do cativeiro.

A Turquia deve à Inglaterra, ter ainda hoje o predomínio nos Dardanelos e a posse de Constantinopla, porque ela não consentiu que a Rússia a tomasse em 1877. Modernamente, quando de viu sem crédito, foi a França a única nação que lhe emprestou dinheiro para fazer face às suas enormes despezas com a guerra dos Balkans. E, todavia, nada disso obstou que la se aliasse ao seu mais encarniçado inimigo de hontem, a Bulgária, para combater aqueles que só bem lhe fizeram.

A quem se deve a reorganização da Grécia senão à Inglaterra e à França!? No entanto, todos conhecemos  o vil sofisma de que a Grécia se serviu para não ajudar a Sérvia, apezar da clareza do tratado, que tanto a auxiliou na tomada de Salonica.

Se, até hoje, o rei Constantino e o seu estado maior, não se pozeram abertamente ao lado da Alemanha, não é devido a qualquer sentimento de gratidão para com aquelas nações, ou para com Venizelos, o grande patriota a quem a Grécia deve todo o seu atual engrandecimento, mas porque não sabem para que lado penderá a vitória, nem confiam muito no amôr e dedicação do povo e do exército. Depois o espéctro de uma revolução triunfante apavóra-os! Não há português medianamente ilustrado, e que não esteja obcecado pelo ódio das paixões, que não saiba perfeitamente, que o seu país deve, actualmente, a sua independência à Inglaterra. Não somos só nós que o dizemos, é o próprio sr. Brito Camacho que o afirma num dos números da “Lucta” saída um mês ou dois, após o rompimento das hostilidades, nas seguintes palavras, que, de memória, para aqui transcrevo: “Quando em Portugal se souber ( e ha-de vir a saber-se) os esforços titânicos que a Inglaterra tem feito nestes últimos dez anos para nos conservar o nosso império colonial e, até, a nossa independência no continente, não haveria um só português que não se coloque abertamente ao lado da Inglaterra”.

 

_ Pois, apezar disto, ainda há pessoas nascidas em Portugal, filhas de portugueses, que odeiam a nação inglesa, a ponto de serem …germanófilos! São poucos, muitíssimos poucos, mas, infelizmente, existem.

 

 

Eu poderia ir buscar à história, para reforçar a minha opinião, factos como o caso do grande general Belisário que tendo coberto de glória as armas romanas, na Pérsia e na Itália, foi pelo imperador Justiniano, desterrado depois de lhe ter mandado arrancar os olhos! Podia citar os casos de D.Manuel para com o grande Afonso de Albuquerque e Duarte Pacheco, mas, todos nós sabemos como fomos galardoados os serviços desses heróicos portugueses, o último dos quais foi acabar os seus dias  na maior miséria, em um hospital de Toledo. A ele se refere o nosso èpico nas seguinte estancias dos “Lusiadas”:

“Aqui tens, companheiro ([1]), assim (nos feitos,
Como no galardão injusto e duro;
Em ti veremos altos peitos
A baixo estado vir, humilde e escuro
Morrer nos hospitais, em pobres leitos,
Os que ao Rei e à lei servem de muro!
Isto fazem os Reis, cuja vontade
Manda mais, que a justiça e a verdade

…………………………………………………….

Mas tu, de quem ficou tão mal pagado
Hum tal vassalo, ó Rei só nisto inico,
Se não és para lhe dar lhe honroso estado,
É ele para dar-te um reino rico”.

 

Eu podia tambem, se quizesse, lembrar casos recentes do domínio de todos; mas acho desnecessario porquanto não há ninguem que, no seu meio, não conheça um ou mais casos desses que nos levam a crêr que a ingratidão é um sentimento nato no homem.

Os eternamente gratos, são excepções da regra; são os oásis do deserto desta vida; marcos milenários dos quais só de longe em longe se encontra um para provar que a gratidão não é exclusivo da raça canina, nem uma palavra sem sinónimo. Talvez uns anormais, sim… talvez.

Ora, dizia não sei que sábio, provavelmente da Grécia ( a Grécia teve na antiguidade o monopólio dos sábios) para os seus discípulos e ouvintes:

“Nunca me arrependi  de não ter feito mal, mesmo aos meus inimigos, mas muitas vezes me tenho arrependido de ter feito bem, mesmo aos meus amigos. Pelo que vos aconselho a não fazerdes lhes o mal, para não creardes inimigos e que sejais muito cautelosos, ávaros mesmo, na prática do bem, se não quereis fazer ingratos”.

 

Está certo, não lhes parece?

 

In “O Lusitano” ,Orgão português do Amazonas”, Manaus, 17 de Junho de 1916

 


[1] Refére-se ao general Belisário

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

17 respostas a Do meu bisavô, um texto com quase 100 anos – Da gratidão dos povos e das pessoas.

  1. olinda diz:

    actualíssimo, que delícia.

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Maravilha.

    • Henrique Monteiro diz:

      Tá vendo, primo, de onde vem minha costela brasileira???? É daí mesmo, da Amazónia. Tem por aí primo Monteiro que inda é meio índio

  3. olga diz:

    Espantoso ver como tudo se repete na história!

  4. ana diz:

    Muito interessante HM…ora aí está porque se não deve esquecer a História, mesmo a dos nossos antepassados!!!

  5. Ó Henrique, que bem trazido que isto foi! Fartei-me de gostar de conhecer o seu bisavô.

    • Henrique Monteiro diz:

      Era um gajo porreiríssimo, dizem. Morreu cinco ou seis anos antes de eu nascer. O Aquilino, de quem era muito amigo, dedicou-lhe vários livros e a história do Malhadinhas foi contada ao Aquilino por este António Maria

  6. Eduardo Pereira diz:

    Já visitei esse teatro que aparece na foto. É muito bonito, mas, infelizmente, quando o visitei não pude ver a principal atracção, que me diziam ser o pano de boca de cena, que apresenta uma imagem que reproduz o “Encontro das Águas” e que dizem ser lindíssimo, mas que estava em restauro quando eu lá estive. Só que esse teatro não é conhecido como Ópera de Manaus, mas sim como Teatro Amazonas. Já agora: “Encontro das Águas” é o local onde o Rio Solimões e o Rio Negro se juntam e aí formam o Amazonas. É um local fantástico porque as águas dos dois rios têm cores muito diferentes (barrenta a do Rio Negro, mais clara a do Solimões) e quando se encontram não se misturam, de modo que durante um pedaço descemos o rio vendo águas de duas cores que se tocam sem se misturar. Assim como uma espécie de bolo mármore na água! É lindo!

    • Henrique Monteiro diz:

      Conheço o Teatro do Amazonas e até o pano de boca de cena. Tanto esse, como o do Teatro da Paz em Belém, também com um pano de boca de cena famoso e com uma arquitetura famosa. Curiosamente, pode crer que o Teatro do Amazonas foi, na época do seringal, conhecido como ópera de Manaus.

  7. LuisaTavares de Mello diz:

    Gostei muito. O texto do seu bisavô é uma jóia de família. Parabéns

  8. Terá tido o seu avô algo a ver com a história de O Malhadinhas?
    Quanto ao tema da gratidão,bem sabemos que a natureza humana, na sua essência, pouco ou nada tem mudado; a tecnologia, a acumulação e, paradoxalmente, a dispersão de conhecimento, não alteram o egoismo vital do homem, julgo que o tornam cada vez mais indiferente relativamente ao outro..

    • Henrique Monteiro diz:

      O meu bisavô e não avô – dizem – conheceu o verdadeiro Malhadinhas (ainda há um descendente dele em Vila Nova de Paiva. Pois foi a história desse homem que ele contou a Aquilino, que era visita de casa, por motivos que um dia explicarei.

  9. Maria do Céu Brojo diz:

    Porque já todos os adjetivos de apreço foram escritos, limito-me ao facto de me ter lembrado a saga do meu clã.

  10. O que diria hoje o teu bisavô, Henrique? A quem apupamos, devemos apupar, a quem lançamos pétalas ao camino, será que merecem pisá-las? E só digo isto, neste tom lírico passadista, por ser Sexta feira Santa e me lembrar do dominicano que, teria eu uns 8 anos, foi pregar a Luanda, à Igreja de São Paulo, nessa altura maior para mim do que a Basílica de São Pedro, e vociferou ferro, fogo e enxofre que nunca tinha visto sair da boca dos meus gentis franciscanos…

  11. nanovp diz:

    As lições da história, que mesmo repetidas vezes sobre vezes, são esquecidas repetidamente também. Muito por falta de gratidão! Bem lembrada a palavra e o seu sentido.

Os comentários estão fechados.