Dois Afluentes de Rio e Janeiro: a cidade por fragmentos dos tempos de garoto

Rio-De-Janeiro-ao-cair-da-noite

Se os portugueses foram os primeiros europeus a chegar ao resto do mundo, sem dúvida separaram para si o que de mais belo havia nesse périplo

α – [Extrato de um artigo mais longo, sobre Roberto Carlos (“O Que do Rei Não Perdeu a Majestade”. Ressalvo, em especial ao F. Fonseca, que a Urca é vizinha ao Leme. E a Teresinha citada na canção bem pode ser a nossa Conceição, que dá a volta ao mundo em menos de oitenta instantâneos)]:

Lembro que na primeira e mais decisiva vez que fui ao Rio, o clima estava ameno, com ares de inverninho, embora já fosse outubro. Chovia quase tod’ia. E o dia todo. E, pela noite, as minas do Leblon iam para os barzinhos de gola roulé. Um charme só aquele bronzeado impecável sob pulôveres: 14ºC na Cidade Maravilhosa. No mínimo era algo mediterrâneo, mas parecia até mais. Quer dizer, até menos no termômetro. Era o cúmulo. Eu saíra de São Paulo por Congonhas, com o desejo febril de pegar uma praia, e levara um calção de banho na mochila. Sem chance. Inútil paisagem.

O Cristo permanecia encoberto, lá em riba, por brumas que, com certeza, eram mais espessas que as de Avalon. O Centro antigo da cidade revelou-se uma maravilha não cantada em crônica anterior o bastante. E entrar em certos locais – a Leonardo da Vinci, a Confeitaria Colombo, o Gabinete Português de Leitura, a Biblioteca Nacional – um sonho. E os serviços, em geral, um pouco mais bagunçados que em São Paulo. E, no entanto, parecia que definitivamente a gente estava mais no Brasil. De volta ao Brasil, depois de um ano ininterrupto, sem fugas ao Nordeste, em São Paulo. E desde que o samba é samba, etc.

Especialmente na Lapa, à noite, num boteco contemplando os arcos. E imaginando ao tomar umas e outras, as outras mesas ocupadas também por quem já as tinham ocupado: Manuel Bandeira, Jaime Ovalle, Noel Rosa, Mário Lago, Niemeyer, Jobim, Madame Satã, Rubem Braga, Dolores Duran… Eu também teria gostado de haver tomado um refresco na companhia de um conterrâneo ilustre que andou por lá, um pouco antes destes: Adolfo Caminha.

Havia grupos de chorinho no Carioca da Gema. E num tempo em que era impossível manter-se sóbrio por mais de oito horas. Na sobriedade, contudo, conversávamos por um pouco com Juca Santabaia e Aderbal Freire Filho, entre outros. Mas estes, inevitável, acabavam falando do Ceará mais que do Rio. E sempre diziam:

–Ele não parece com o Wilker? — o que eu só tomava como elogio provável, porque não estava devidamente borracho e sincero.

No Bairro Peixoto, ali entre Copacabana e a montanha, onde arranchei-me, todo mundo parecia morar em prédios de apartamento. Havia pequenas padarias, praças com playgrounds, babás de avental, crianças, totós, lulus e uma sossegada ambiência de bairro. Além de belas garotas debaixo de pulôveres e cardigãs, voltando da faculdade. Por conta disso, dessa onda de frio temporã, o meu Rio de Janeiro, para todos os efeitos e até hoje, ficou sendo uma cidade “temperada”. Uma cidade à beira das ondas, sim. Porém meio fria, como Floripa. E que nem sempre dá praia.

Mas, então, certo fim de tarde, em que o sol abriu com mais pormenor e promessa, já mais familiarizados, fomos caminhar pela Urca, com um olho na Marina da Glória, outro na Enseada de Botafogo, um terceiro no Pão de Açúcar, etc. Há muitas direções para se olhar em quase qualquer parte por onde se passa no Rio. Geografia física, mas não menos humana. E foi então que alguém disse apontando para um condomínio antigo, de aspecto cansado, e não muitos andares:

-O Roberto Carlos mora aí.

Imediatamente começamos a cantar: “Se você pretende saber quem eu sou…” E depois, emendamos, com “As Canções que Você Fez Pra Mim”; e, em seguida, tornamos a “Quero que vá tudo pro inferno” – esta cantada com uma particular ênfase. E a coisa foi rendendo pelo menos até o Cassino, sob o qual passa a avenida do bairro. O prédio foi recuperado recentemente. Mas à época encontrava-se fechado. E com aquela autoridade muda de quem viu coisas do arco da velha. Mas ainda não era propriamente o inferno. E estávamos quase dois meses entrados na primavera.

E, logo, a noite veio caindo sobre aquela cidade cinza e fria, úmida; de montanhas e mar. Quase tão inóspita quanto Liverpool.

*

ω – [Crônica (“Outra Noite Para Rubem Braga”) escrita em 2003, para o Jornal O Povo, de Fortaleza, em homenagem a Rubem Braga (1913-1990), o cronista brasileiro cujo centenário, aliás, comemora-se este ano. O Manuel fala muito do Nelson Rodrigues, mas em matéria de crônica e temperamento, fico com o velho Braga. Escolhas. Cada um faz as suas. Faz das suas.]:

 Outra noite para Rubem Braga

Há esse avião voando numa noite etérea. Voando em placidez, acima de colchões de nuvens sob um luar de filme. Ainda um turbo-hélice. Provavelmente com o logo da Pan-Air na fuselagem. O percurso é de São Paulo para o Rio. E, em uma das vigias, o rosto de um jornalista extático diante da paisagem de uma noite de sonho, acima das nuvens. Cofiando bigodes em perfeita satisfação. Metido consigo mesmo e com a beleza do mundo.

Uma vez em terra firme, ele desembarca. A noite é chuvosa e lamacenta. Inteiro o inverso da outra noite: superior, luminosa – só alcançável, agora, pela alça da memória. De volta para casa, o jornalista de bigodes e basto cabelo apartado ao meio, diz ao taxista do contraste entre as noites. Entre aquelas duas noites sobre um mesmo mundo. Sobre a mesma cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Uma branca, límpida, ao luar, lá acima. Outra escura e enlameada nas ruas debaixo. E o rumor dos pneus do carro resvalando sobre o asfalto úmido.

O taxista, acompanhando a verve do jornalista. Põe-se a sonhar com essa outra noite. Devaneio. Será que existiria mesmo uma outra noite assim? E, ao final, da corrida agradece-lhe, por essa perspectiva – que nem remotamente lhe ocorrera existir, quando só se pensa no aluguel, na caderneta da mercearia, na vida que se tem de ganhar. E agradece-lhe com ênfase. Meio como se o outro a houvesse presenteado. Meio como se o outro lhe houvesse ganho o dia através da descrição daquela outra noite, acima.

Assim é o enredo de uma crônica de Rubem Braga. Me lembro exatamente a primeira ocasião em que a li. Foi em 1975, e eu cursava a sexta série no Colégio General Osório, em Fortaleza. Ela estava em meu livro de Português. Portanto, há milhares de quilômetros e muitos anos de distância daquele registro. Daquela dupla noite sob um mesmo, agudo, olhar.

Passados vinte e seis anos, eu mesmo vivi essa crônica em uma visita ao Rio. Em coincidência, provindo de São Paulo, numa noite límpida, de quase lua plena, acima das nuvens. E lá abaixo – tão logo a aeronave transpôs a barreira de nuvens, e a baía surgiu com a cidade à margem e as montanhas ao fundo – uma segunda noite: lamacenta, aguada e respingando. Uma noite de catorze graus, das mais frias do ano, no Rio. Uma em que todas as minas do Leblon foram aos bares envoltas em pulôveres de gola roulé.

Dando tratos a bola, também pensei em outras colheitas. Como por exemplo, a demasiada necessidade de meus pares poetas de hoje em assuntar somente o desagradável, o sórdido, a escatologia. Será que só isso para falar? Será que neste mundo lamacento e cinza não sobrou sequer uma réstia daquela outra noite, luminosa, acima?

E, uma vez em terra firme, calado, dentro do táxi que me levava para Copacabana, os vidros cerrados sob água, pneus serrilhando o saibro úmido no asfalto, agradeci uma vez mais a Rubem Braga. Por propor-me uma utopia e uma viagem. Com vinte seis anos de antecedência.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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8 respostas a Dois Afluentes de Rio e Janeiro: a cidade por fragmentos dos tempos de garoto

  1. Lindo texto, como sempre. Está correndo uma lágrima de saudade dessa cidade maravilhosa!
    Deixo esta:

    http://youtu.be/u-sbPpxxYpo

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Ah, então é isso, Ana. Quero mais é lágrimas de minhas leitoras preferidas. Ao invés de só friezas analíticas e frigidezes acadêmicas. (Interpretação, essa palavra espúria).

    Obrigado, pelo vídeo. Jobim e Miúcha. Lindo esse samba. Também morro de saudade do pouco Rio que me coube. Mas coube bem.

  3. ana diz:

    Hoje, dia da Poesia, deixo-lhes este meu poema que fiz para expressar a frieza (desculpe Ruy) com que podemos “executar” files e Faces das nossas redes….

    Lixo Digital

    “Apague ficheiros não usados”
    Dedos rápidos no teclado
    Respondem logo, apressados

    Bastou um dedo seu no botão
    E a marcação do “ ratinho”
    Para activar a bateria de execução

    Foi assim, sem emoção nem culpa,
    Que a pasta Charlie e muitas files
    Foram eclipsadas em catadupa

    Atiradas para a lixeira digital
    Se evadiram no momento real
    Rumo ao reino do espaço virtual

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    Muito obrigado, Ana. Devo entender isto como homenagem? Sim ou não, acho ainda bacana da mesma forma. Sugiro-lhe, no entanto, um pequeno estudo das rimas. Para não ficar só em ados ou al’s ou upas encarrilhados. Não faz mal a ninguém estudar. Procure saber das toantes também. É sempre bom. Quanto à pasta Charlie, files e Faces, não sei exatamente à que você se refere. Mas presumo que não parece muito satisfeita. Então, alegria, prezada Ana.

    Alegria é a prova dos noves. Mesmo entre “tristes”.

    Beijinhos sinceros,
    XXXXXXXXXXXXXXXXX

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Sempre que fui ao Rio, umas sete vezes (ou foram dez?) estava calor para xuxu. Uma vez, que fui pelo cinema e não pela televisão, tive esse Rio que é seu. De carro daqui para ali, com copos em botecos, de apartamento em apartamento e à espera no carro, numa bela praça velha, que alguém viesse antes de irmos ao Teatro. Foi o meu Rio mais bonito.
    E não é, Ruy V., que pareces mesmo Wilker?

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    Também já fui ao Rio no verão, Manel. Um sufocamento. É insuportável. Faz aliás, muito, muito mais calor que aqui por cima.

    Mas guardo esse Rio “semi-hibernal” com grande carinho.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    E assim fui ao Rio. Este e São Paulo, metas próximas.

  8. nanovp diz:

    Avivou memória da minha única ida ao Rio. E não saberia contá-la como aqui em cima…

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