Em Milão, com os laços de Beatriz

Este post é sobre design italiano mas disfarça. E tenho de ir devagar porque me perco muito nestes assuntos.

Nunca seria capaz de escrever um romance histórico. Quando olho para o passado, sou incapaz de me concentrar num ponto. Vejo sempre uma tela tão densamente bordada, que não há escada que não dê para outro patamar, onde uma porta abre para um corredor de onde se acede a uma antecâmara que dá para um quarto através do qual se passa a uma sala … e há saídas secretas, alçapões, enfim, labirintos. Fui à procura de umas imagens de Beatriz d’ Este, de Lucrécia Crivelli e de Cecília Gallerani para deixar aqui e acabei, por causa das fitas suspensas dos vestidos da primeira, por encontrar um animalzinho que nunca tinha visto, a espreitar das mãos de uma estátua jacente, e se eu já tinha olhado tantas vezes para aquela estátua. Já mostro, lá mais para baixo.

Para dar alguma ordem a esta conversa, partamos então para a Lombardia, que estas coisas de moda sempre se deram em com Milão, e começo por Beatriz. Beatriz d’ Este, filha de Hércules d’ Este, duque de Ferrara, e de Leonor de Nápoles.

beatriz.este.leonardo

Este retrato é, tradicionalmente, atribuído a Leonardo e terá sido um presente de casamento. Janeiro de 1491. Beatriz tem 15 anos e o seu casamento com Ludovico Sforza, o Mouro, duque de Bari e regente de Milão estava contratado desde os 5 anos. Foi educada para  Renascença, para o esplendor das artes e letras, para acolher os artistas e fazê-los florescer. E para se mover, subtil e segura, nas voltas da política. Em Milão, os poderes do ducado estão nas mãos de Ludovico, tio de Giangaleazzo Sforza, o duque em título. Como este, depois do assassínio do pai, ascendera ao poder com apenas 7 anos, Ludovico ficou como regente. E manteve-se. Em 1491, Giangaleazzo tem 22 anos e está casado com a lindíssima Isabel de Nápoles, prima de Beatriz, que foi modelo de Leonardo em tantos quadros. A tensão que existia ente o tio e o sobrinho não se verificava, na opinião dos historiadores mais modernos, entre as duas duquesas, apesar da ambição de Beatriz e do seu apoio incondicional à causa do marido.

Leonardo pintou-a assim, de perfil, com uma rede orlada de pérolas sobre o cabelo e uma ferronnière sobre a fronte. Tira de seda, de veludo ou couro maleável, atada ao lado com um laço de pontas rematadas com pingentes de pérolas. Beatriz gosta de laços, de pontas que esvoaçam. Vemo-la daqui, depois dos séculos, e conseguimos ver a miúda atrás da duquesa e olhamos, com alguma estranheza, para um mundo em que gente tão nova ditava destinos e encomendava aos pintores quadros para a eternidade.

Quando Beatriz chega a Milão, a cama de Ludovico está ocupada por Cecília Gallerani.

cecilia.gallerani

Pintada aqui por Leonardo da Vinci, no quadro conhecido como A dama do arminho, Cecília é amante Mouro desde há algum tempo. Dois anos mais velha que Beatriz, embora em linhagem não pudesse competir com ela, podia fazê-lo em cultura e encanto. Parece que, durante o tempo em que posava para Leonardo, gostava de juntar um grupo de artistas e pensadores como se de um círculo literário se tratasse. Cecília falava fluentemente latim, que como se sabe não é língua em que seja fácil ser-se fluente, e escrevia versos. Ludovico mantém para ela uma ala do palácio ducal, mesmo depois da chegada de Beatriz. Aliás, terá um filho de Ludovico quatro meses depois do casamento dele.

Essa coexistência pouco dura. Assim que Beatriz fica sabedora da presença de Cecília e do seu estatuto, força o marido a procurar-lhe outros aposentos. O Mouro desde cedo se revela incapaz de resistir aos pedidos da mulher e muito menos às suas fúrias. Cecília é afastada para outro lado e hão-de  casá-la  com um nobre compreensivo e muito honrado com a dádiva. Vai envelhecer no palácio Carmagnola, onde usou, decerto muitas vezes, a elegante e fina ferronnière com que Leonardo a representou neste quadro.

Nesse mesmo ano, Ludovico envia Beatriz como embaixadora a Veneza onde a sua capacidade política se torna notória. De regresso a Milão, supervisiona a fase final da contrução do duomo, Santa Maria delle Grazie, e mantém perto de si Leonardo, Castiglione, Correggio e muitos outros. É uma princesa da Renascença na sua corte de pintores e poetas. Em 1493, tem o primeiro filho, Maximiliano Sforza e, em 1495, o segundo, Francisco Sforza.

No ano anterior, morrera Giangalleazzo. Os historiadores acreditam ter-se tratado de veneno administrado a mando do tio. Um boato posto a circular queria fazer acreditar que o jovem duque morrera de uma intensa actividade sexual, já que era bem conhecida a sua insaciedade. A legitimidade do título de duques de Milão chega, assim, para Ludovico e Beatriz que, depois, da batalha de Fornovo, participam na conferência de paz em Verceli, com Carlos VIII, rei de França,  e os príncipes italianos. A requintada habilidade política e os dotes de retórica de Beatriz fizeram dela um elemento fulcral das negociações.

No final desse ano, Beatriz descobre a ligação do marido com uma das suas damas de companhia, Lucrécia Crivelli. É ela La belle ferronnière, o quadro de Leonardo que está no Louvre.

la.belle.ferroniereProvavelmente. O quadro chama-se, na realidade, Retrato de mulher desconhecida e por causa da fita, ou fina cadeia com uma jóia, sobre a testa, passou a ser conhecido por La belle ferronnière. Poderá ser Lucrécia, na opinião de muitos.O duque não estava, desta vez, disposto a seguir os desejos da mulher. Beatriz desesperava com a presença de Lucrécia no palácio. Aos ciúmes juntava as impaciências de uma terceira gravidez. Para tornar tudo ainda pior, a amante do marido engravidara também.Na manhã de 2 de Janeiro de 1497, depois de umas horas de oração em Santa Maria delle Grazie, Beatriz entra em trabalho de parto. A criança ainda nascerá viva, mas morrerá umas horas mais tarde. Pouco depois da meia-noite, Beatriz morre também. Tinha 22 anos.

O Mouro, confrontado com esta súbita morte, entra num desespero sem consolo. Isola-se,  manda forrar os aposentos de negro, come de pé as refeições que um pajem lhe traz num tabuleiro, torna-se devoto e sombrio. O filho de Lucrécia nascerá em Março, quando o duque ainda se encontrava prostrado por uma enorme melancolia.

Voltemos a outras imagens Beatriz que aqui tenho:

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beatrice_det

Eu sou muito desarrumada a guardar estas coisas. Já as vi ao vivo, mas acho que erro se  disser que são frescos no Palácio Sforza, em Milão. Talvez de Bramantino, ou de Giovanni Ambrogio de Predis. No entanto, também podem ser, creio, um pormenor da Pala Sforzesca, na Pinacoteca de Brera, em Milão. É o mais certo. Tenho-as por causa do vestido. Um vestido incrível, com as liste coloridas que se usaram num tipo de vestidos chamados a la castellana. Uma explosão de cor na veste de uma duquesa muito nova, um vestido lúdico para uma ocasião solene com uns inesperados lacinhos rosa, uma profusão de fitinhas, suspensas das mangas.

Os mesmos laços e fitas que voltei a encontrar no túmulo dela.

beatriz.túmulobeatriz.fitas

A estátua jacente é de Cristóvão Solari. Um trabalho sumptuoso sobre o mármore feito para o duomo de Milão e que se encontra,  agora, na igreja de Certosa em Pavia.

 

Na imagem de baixo, lá estão as muitas fitas que parecem cair das costas do vestido. Mas o mais engraçado é isto: 

beatriz.furãoUm zibellino a espreitar debaixo da mão.  Design italiano, pois claro. São muitas as pontas que é preciso puxar para contar estas histórias e dar os laços certos. Muitas delas se perderam, outras são de difícil alcance.Faz-se tarde e eu já estou cansada. Noutro dia explico o que é um zibellino.

 

(Adenda: Eu designo sempre por Isabel de Nápoles a mulher de Giangaleazzo Sforza, embora em muitos e vários registos ela seja referida por Isabel de Aragão. Bisneta de Afonso V, rei de Aragão; filha de Afonso II, rei de Nápoles, e de Hipólita Maria Sforza, torna-se duquesa consorte de Milão pelo casamento com Giangaleazzo Sforza, seu primo. É ela o rosto da Virgem do Rochedo e de outros quadros de Leonardo. Habituei-me a chamar-lhe Isabel de Nápoles e, um dia, hei-de falar dela com mais demora.)

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.
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21 respostas a Em Milão, com os laços de Beatriz

  1. nanovp diz:

    Mas temos quase o romance Ivone! E bela surpresa escondida…

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Ora, Bernardo, falta-me tempo, engenho e arte. E sabe lá as vezes que eu olhei para aquela imagem sem ver o zibellino …

  2. Ivone, o Mouro era doido por fer­ron­nières. Comprava-as por atacado e obrigava todas as suas amantes a usá-las. De alguma forma denunciava-se (por se querer denunciar?), mas Beatriz (ó tão nova) tantas artes e letras e pouca vida, demorou a perceber o truque. A questão é: em que Velentino ou Aramani comprava o Mouro as fer­ron­nières?

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      🙂 Pois, Manuel, aquilo das ferronières, das fitas e dos atilhos, tinha muito que se lhe dissesse, ó se tinha …

  3. Mário diz:

    Zibellino (…) é um acessório de moda feminina popular no final do século XV e no século XVI, que corresponde a uma pele de zibelina (espécie de marta castanho-escura) usada à volta do pescoço, pendurada na cintura ou simplesmente levada na mão. Alguns zibellini (plural) foram ornamentados com representações do focinho e das patas do animal feitas por ourives, com pedras preciosas no lugar dos olhos e brincos de pérola, embora também se pudessem usar as peles sem adornos.
    Fonte: wiki

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Não me leve a mal, mas nunca hei-de compreender por que razão alguém que se predispõe a comentar um post, o faz transcrevendo um trecho da wikipédia. No mínimo, é pouco criativo… Já agora, a sua fonte está incompleta. O zibellino´tinha uma função, além do simples ornamento, era uma pele para pulgas. Isso mesmo: as pulgas eram atraídas pelo pêlo e deixavam em paz o corpo da portadora. 🙂

      • Bruto da Silva diz:

        Espero que não leve a mal esta intromissão, achando eu que é esclarecedora e bem intencionada: a lontra era tida como amuleto da fertilidade naquela época e só muito posteriormente (1894) é que um alemão veio sugerir a função de capta-pulgas sem qualquer sustentação histórica.

        • Bruto da Silva diz:

          À falta de fundamento histórico acresce um argumento lógico e sensato:

          The term flea fur is some what of an anachronism as no self respecting flea would reside on a dead skin as they need a living host to feed off.

          mais, aqui

          http://www.webcitation.org/query?url=http://www.geocities.com/curvess2000/muff_in_sixteenth_century_dress.htm&date=2009-10-25+17:59:18

          • Ivone Mendes da Silva diz:

            Caro anónimo incapaz de assumir um nome ou link reconhecível, coisa que ultrapassa a minha capacidade de entendimento:

            1. não, não levo a mal a intromissão;
            2. sim, estou ciente das diversas interpretações dadas à função do zibellino;
            3. também sei da necrose que impossibilita a possível interpretação funcional.

            Além do mais, acha o caríssimo anónimo que a minha intenção era, neste post, falar de zibellini? Não, não era. Era um petit rien, coisa de nada. Talvez voltasse ao assunto, mais tarde, cheguei a pensar. Agora já não volto, enjoei.

            Cordiais cumprimentos.

            • Bruto da Silva diz:

              Espero que seja capaz de aceitar que assumi um nome como me agrada e que, sem qualquer desprimor, é tão válido como qualquer outro.
              Ali em baixo, a marie parece não lhe merecer qualquer reparo… (ainda bem)

              Aqui, valorizo a partilha e não a fulanização.

              E não, nunca achei isso: sinceramente, pareceu-me que a coisa (por agora) ficaria entregue às pulgas… deixando aquelas belas nobrezas em maus lençóis. Lamento o enjoo provocado.

              Salva a honra do convento, retribuo a cordialidade 😉

              • Ivone Mendes da Silva diz:

                Explico: “marie” não é comentadora compulsiva, logo não é maçadora.
                Ficamos por aqui.
                Ainda com maior cordialidade.

                • Bruto da Silva diz:

                  Também não gosto do ‘ficamos por aqui’. Obriga-me a ser compulsivo.
                  Afinal, não é o nome que maça 😉
                  Não consigo aumentar o cordial habitual, desolé 🙂

            • Bruto da Silva diz:

              Um pequeno reparo: permita-me discordar da ‘ose’ do ponto 3 🙁

  4. Pedro Bidarra diz:

    Continue. Estou pendurado na história

  5. marie diz:

    Outro passeio no tempo e no espaço. Delicioso.

  6. Maria do Céu Brojo diz:

    Conto, livro, já! Uma, entre outras joias da sua coroa.

  7. Maria do Céu Brojo diz:

    Conto, livro, já! Uma, entre outras jóias da coroa.

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