Enigmas e haikus

Bebedor Nocturno

Por pudor ou liberdade, Herberto Helder diz na capa que são poemas mudados para português. O livro chama-se, uma imagem felicíssima, “O Bebedor Nocturno”. Nele se reunem poemas mexicanos e canções indonésias, enigmas maias e haikus japoneses. Em todos perpassa a língua portuguesa naquela forma única que ganha quando Herberto a escreve ou diz. É um livro que paira num lugar inlocalizável: está acima da cultura, da literatura, da academia, situando-se na nómada curva da alegria.

Volto a lê-lo, em meias-horas de volúpia silenciosa, tão diferente e tão igual ao riso com que, no primeiro ano da década de 70, entre Luanda e a barra do Kwanza, o lia aos gritos na areia a ferver das praias do km 36 ou, Jesus Cristo sobre as ondas, no kayak a deslizar sozinho pelas águas quase rasas dos mangais.

Por exemplo, tão bonito este enigma asteca:

– Uma coisa que vai pelos vales fora, batendo as palmas das mãos como uma
mulher que faz tortilhas?
– A borboleta voando.

Ou então este haiku:

Libélula vermelha.
Tira-lhe as asas:
Um pimentão.

Foi o que, corrigindo a natureza, escreveu Kikaku. Mas logo o sábio Bashô lhe corrigiu a correcção:

Pimentão vermelho.
Põe-lhe umas asas:
Libélula.

E é Busson que, pela mão, põe a minha felicidade de leitor na sua verdadeira casa:

Ah, o passado.
O tempo onde se acumularam
os dias lentos.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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11 respostas a Enigmas e haikus

  1. Belo post!
    Herberto Helder conheci com “Os passos em volta”. Cativa-nos de imediato!

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Nas ficções curtas de “Os Passos em Volta”, na poesia desde “O Amor em Visita”, Herberto é único.

  3. Rita V diz:

    um dia quando tiver paciência explique-me os haikus
    passo a vida a esquecer-me

    • Rita,
      os haikus são poemas concisos, que nas linguas ocidentais se escreves em três versos, o primeiro e o terceiro mais curtos (5 silabas), o segundo ligeiramente mais comprido (7 sílabas). Justapõem duas imagens ou ideias que se confrontam com uma palavra que rompe com elas produzindo um sentido inesperado.

      É o que consigo dizer em 3 frases e já me devo ter espalhado…

  4. O que gosto disto! E não seja egoísta: essas meias horas são quartos de hora porque as divido consigo.

    (Só o raio dos Passos é que me chegaram tarde, mas, vá, a tempo.)

  5. Haiku antes da morte:

  6. nanovp diz:

    Um dos grandes para mim Manuel, mas nunca li este!!…mas muitos dos outros, como este aqui:

    “Se houvesse degraus na terra…

    Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
    No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
    E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
    e à porta do meu amor o ouro se acumulasse…”

  7. Manel, que bom lembrar este poeta! Acabei de comprar o livro 🙂
    Cito outro delicioso:

    Caracol,
    lento,lento, lento – sobe
    o Fuji

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