Entre dois retratos

Já contei deste alfabeto feminino aqui. E do gosto que me deu fazê-lo dedicado todinho a Agustina Bessa Luís. Era para o ter publicado. Bem, só o de A a Z de carne e osso que ficcionei, as letras completamente inventadas não, tive de ir roubar outras à história para substituir consoantes e vogais irreais por reais vogais e consoantes. Depois, mea culpa, não quis alterar o que não podia alterar, e zás, vai para o castigo bebé, ao cantinho da sala com orelhas de burro. Ó. Não faz mal. Não se pode fazer tudo o que se quer e gosta, mas pode-se escolher o que não se quer ser.


MARIA DE BORGONHA

Isabel, a de Portugal, estava feliz: nascera-lhe uma neta. Maria. O narizinho arrebitado, a boca, dois lábios presos num ponto, tão juntos, fechados em botão, anunciava determinação. E o queixo? Sim, Isabel estava feliz – nem o marido, as carnes já caídas, desfeitas num pré-apodrecimento de faisão, a maçava. Não vou ao baptizado, anunciara o faisão da travessa onde jazia antes da morte o comer de tanto vinho, tanto fio tecido, tanta luz de metais e pedrarias, tanta cortesã, criada de servir, arrotados indistintamente. Não vou, é só uma mulher que nasceu.

Ninguém via em Filipe, o Bom, duque da Borgonha, patrono das artes, caçador de Joana de Arco, feitor de alianças, hedonismo de ponta de dedos para não constranger o requinte, seco, porém pendido, esguio, ninguém via em Filipe, o Bom, Filipe, o Mau. Apesar de todas as traições, acusações, tratados destratados. Ninguém. Só a corte aristocrática e cremosa viam, só a música de torneios e volutas ouviam, só a hiper-abundância de tapeçarias pelas paredes sentiam, só a opulência das jóias fulgia. Isto era o que se lhe colava à presença: o Bom. Contudo, não se desprende disto aquele inequívoco, intenso, odor de faisão? Oh, sim, Isabel sabia: nada escapa a um nariz atento, nada acorda mais memórias, ou mais aguça o instinto que o cheiro do perigo, de sangue. Ninguém via em Filipe, o Bom, o Mau. E ele estava lá: em cada olhar outros olhos espreitavam de dentro dos próprios olhos. Há gente assim, ferina de predação, suave suave enquanto as unhas rasgam com calma e lentura a presa. E a verdade de Filipe estava toda em Joana: nenhuma mulher lhe dera o prazer que Joana de Arco supliciada no fogo lhe dera – ainda sentia a convulsão  estrangulada no corpo quando a recordava, ainda as pálpebras se lhe cerravam, as narinas dilatavam porque o ar lhe fugia do peito. Joana donzela. O grande amor chegara-lhe vestido de ódio: Joana, o rosto do avesso das próprias entranhas. Há amores assim, de ódio, de entranhas. Tivera outros amores, poucos, nadas. Já amantes… Para quê o amor se pode um homem ter de uma mulher o mel sem mais e o mal que entender? Não é doçura bastante? Prazer? É.

Exactos vinte anos depois do dia do seu nascimento, acabada de enterrar o pai morto na batalha de Nancy, Maria tinha o pensamento em trânsito: do retrato de juventude de sua avó Isabel para retrato da maturidade da sua avó feito Rogier van der Weyden. A avó sorria com o sorriso que se esconde e só os cantos dos lábios, leve, imperceptivelmente subidos, denunciam. A íris, mansa e firme, dizia do fundo do escuro castanho: este é o mundo, assim é o mundo, eu vejo. Tu?

Também vejo.

Via. Decidira. Apesar dos tantos pretendentes à sua imensa riqueza, não fora difícil. Pelo contrário, nem hesitara. Em poucos meses casaria com Maximiliano i, imperador do Sagrado Império Romano, filho de Frederico iii, imperador igual e de Leonor, linda de morrer, a mais bela das princesas portuguesas, filha de Dom Duarte. Nunca casaria com um faisão. Queria um homem ao lado. Alguém como ela. Um par. Nem demasiado forte, nem demasiado fraco. Sensato. Em idênticas circunstâncias de fortuna. Amante de cavalos e falcões.

O amor é uma fita que o tempo faz laço e o convívio aperta num nó quando dois falam a mesma língua. Este é o mundo, assim é o mundo, eu vejo. Tu?

Maria de Borgonha morreu cinco anos depois de casada, aos vinte e cinco anos, num acidente de caça. Foi Maximiliano, ao presenteá-la com um anel de noivado, um diamante que Maria usou sempre, quem determinou tal moda, ou modo diamantino de se ficar noivo, rastilhada até aos dias de hoje.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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8 respostas a Entre dois retratos

  1. Que linda que é a princesa portuguesa. Fica-lhe bem a sua sintaxe agustina.

  2. Rita V diz:

    «O amor é uma fita que o tempo faz laço e o con­ví­vio aperta num nó quando dois falam a mesma lín­gua.»

    – Com ou sem sintaxe agustina esta sua frase é de uma grande beleza.

  3. Ivone Mendes da Silva diz:

    Eugénia, este texto é fabuloso. Acho que já lho tinha dito. Agora repito.

    • Gostei tanto de fazer isto Ivone! No dia de abertura deste blog, plasmei a primeira letra e depois por aí fora. Mas o B original era Beatriz, a literária, que tive de substituir por esta. Fiquei com duas, ou um BB… A ver se as vou repondo.

      Merci.

  4. nanovp diz:

    Ignorante mor da nossa historia, delicio-me com estes presentes tão bem escritos, um sincero obrigado…

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