Espectro para lá de preto – uma síntese

Estava a rever e reler a dupla Almada Negreiros/Ivone Mendes num post de uns meses atrás (‘Tão desesperadamente português que até dói‘). Foi síntese melhor que muita análise empolada em livros de ensaio ou em tediosos artigos num economês mal-ajambrado. No quadro, parece que cada um faz questão de olhar para o lado em que melhor ignora o outro. O próximo.

Português deve procurar as larvas das larvas das sarnas num momento de bodes e expiatórios. Coçar-se não basta. Não basta falhar juntos, há que buscar a tristeza à unha. E estendê-la ao outro. Mas não como um troféu. Como um cigarro ou caixinha de rapé. De modo que se o outro recusar, ainda assim há de tossir. Nem que na marra do excesso, por contiguidade de fumo.

E o pior é que uma tristeza dengosa, miudinha assim, já não pode ser trágica, evidente. Pois sabe mais a neurastenia. A bronquite de tiazinha. Ou então, vai soar sempre como um espirro distante. Isolado. Lá na periferia da Alemanha e seu fausto. Espirro de doente que já não possui o plano de saúde premium, e pode ser deixado meio à míngua, meio à previdência. Embora não seja bom que morra.

Também ocorre que quando o sonho de consumo, em termos de utopia geográfica, é a Nova Zelândia, lá no absoluto fim do mundo e uma ilha, é porque a coisa tá num espectro para lá de preto. Mas quem não precisa de mapas e algum sonho em tempos assim?

Ocorre também haver encontrado estudantes portugueses na Inglaterra, no início dos 90. Eles eram só sorrisos. À época era eu que não tinha onde pôr o rosto: saíra do Brasil para não ter de aturar Collor de Mello. O país era pintado em cores de hecatombe, estava quebrado. A receita? Teria sido, segundo os economistas (sempre eles), haver entrado para o Nafta. Imaginem.

Como tudo muda. Lembro de como tive de pedi-los, certa feita, que me explicassem o que diziam por ‘o flano’. Para só então entender que era ‘o fulano’. Nunca rápido em deduções, especialmente auditivas, apanhava um pouco na hora da conversa. Mas lembro de Esmeralda, uma nortenha, que estudava filosofia, e cujos olhos brilhavam mais que luar de agosto ao falar no auspicioso futuro português dentro da Europa.

Não me iludo. Em quinze anos, há de estar tudo às avessas outra vez. E o único discurso cujo grau de prepotência não terá variado, será o dos economistas. Para além, claro, dos alemães.

Estes estão sempre certos.  (Ainda quando a solução foi Auschwitz. E vejam em torno da autoridade moral de quem a Europa estaciona seu sedan). 

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.
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12 respostas a Espectro para lá de preto – uma síntese

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Ó, como se diz neste blogue. Ficar assim junto do mestre, feita em dupla com ele pela sua mão é coisa de mimar que não mereço. Já não preciso de ir para Pasárgada: fico em seu post porque aqui eu sou amiga do rei, tenho os homens de quem gosto até nos posts que não escrevo 🙂

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Primeiro, foi você quem trouxe o quadro e o comentou. Logo, não vou me estender em escusas e relativas. Segundo, não vale citar Bandeira, é golpe baixo. Terceiro, a parodia ficou muito boa. E verdadeira. 🙂

  2. Pedro Bidarra diz:

    tanto tiro, todo na mouche

  3. Mário diz:

    Auschwitz não teve nada a ver com os alemães. Teve a ver com os nazistas. Os alemães referem-se aos nazistas sempre na 3.ª pessoa. Qualquer alemão vulgar confirmar-lhe-á este discurso esquizofrénico. Deutschland uber alles.
    PS: e eu que fiquei contente com a queda do muro…

    • Pedro Bidarra diz:

      Desculpem meter o nariz.
      Auschwitz e toda a estrutura de extermínio, trabalho forçado e escravidão, teve a ver com o Alemão. O Alemão enquanto povo, país, sistema cultural. Não com os alemães, individualmente, mas com o Alemão como um todo.
      sabe-se agora, depois de uma investigação que dura desde 2000, que a rede de campos de extermínio, de trabalho forçado, de prisioneiros e bordéis, era de 70.000. 70.000 locais de atrocidade. Um número que se pensava, ainda há 10 anos, ser de 4.000. Para implementar e levar a cabo esta rede de terror, foi preciso um povo todo, não apenas fanáticos funcionários nazis. Vejam o artigo “The Holocaust Just Got More Shocking” no NYT.
      E, ainda assim, nos anos 50 do século passado, a troika da época – América, Inglaterra e França – perdoou-lhe, 65% da dívida. E o restante foi pago aos poucos: ao ano, só 5% do valor das exportações desse mesmo ano.
      A dívida do Alemão, para com a Europa, é o perdão.
      Tenho dito

      • Ruy Vasconcelos diz:

        Assino embaixo.
        E com a sorte de haver lido (e, por vezes, traduzido) Paul Celan, Primo Levi, Ingeborg Bachmann e Elias Canetti, entre outros.
        “Para mãos vêm boas coisas em tempos difíceis”.

      • Panurgo diz:

        Epá 70 mil? Daqui a 10 anos são 150 mil, no mínimo. Com base em estudos tão sólidos lá terá Israel de pedir mais uma indemnização à Alemanha. Nunca falha. O que falhava era a atrocidade nazi: vai-se a ver, e o arquétipo de judeu malvado que a propaganda nazi bramia aos sete ventos, esse, safou-se à grande. E não estava longe, ali na Áustria. Os alemães montaram uma indústria de morte infernal e ímpia, que tinha tanto deles (de Marx, a grande referência intelectual do tio adolfo), como de inglês (Darwin), ou de americano – os financiadores de toda aquela loucura do princípio ao fim. E, quer dizer, também muito de judaico – tanto uns como outros defendiam a mesma coisa, a separação das raças. Chocante também foi o massacre de cristãos por toda a Europa às mãos da URSS – mas disso nunca se pode falar. Não nos podemos esquecer de que para os judeus a União Soviética era o Paraíso na Terra e o judeu, como sempre, o eleito de Deus. Quantos membros do NKVD eram judeus? A ver se o NY Times faz um artigo sobre isso, um dia destes.

        Que dívida tinha a Alemanha perante essa troika? Os ingleses pagaram Dresden, por exemplo? Pagaram pelos crimes em Monte Cassino? Os alemães são um povo de bezerros incapazes de vencerem uma guerra, dignos do nosso maior desprezo, certamente; mas o que dizer dos ingleses, americanos, ou franceses (grandes amigos, informadores e colaboradores do regime nazi)? Quando é que esses pagam as suas dívidas? Nunca pagarão, naturalmente. Os católicos que paguem, como de costume.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    Há alemães e alemães, Mário. Como portugueses e portugueses. Tenho muito bons amigos portugueses e alemães. Mas falo de um sentimento geral, de um caráter geral, para escapar à terrível palavra identidade. Algo quase inescapável, se não se visita outros países ou lê jornais estrangeiros por hábito e convicção. Isso ajuda a tornar alguém patriota, sem necessariamente fascista. Ou cosmopolita, sem necessariamente tolo.

  5. Maria do Céu Brojo diz:

    Olha o perfeito que Dali nega!

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    Obrigado, Céu. Mas não é bem assim. Esse negócio de perfeição é um perigo. Entre outras, porque não comporta inquietação, humor e macacos chineses.

    E tosses, bem entendido.

  7. nanovp diz:

    Pudéssemos sair, de vez em quando, do ” comboio da história”, para o apanhar um pouco mais longe…o homem cansa-se da sua história e por isso é importante ficcioná-la.

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