Eu hoje fui padrinho e a criança é um mimo

Eu hoje fui padrinho… de um concerto. É assim! Puseram-me no colo a criança e pediram-me que a apadrinhasse, na Igreja de São Roque, em Lisboa.

Desde logo a igreja é líndissima. Mas vou falar do afilhado, ou seja, do concerto. Bom (e praticamente sem tosse, embora um telemóvel tenha tocado durante um minuto, felizmente na pausa entre duas peças).

Tratava-se do IX Ciclo de Concertos de Ramos Voxlaci, ou como o maestro Myguel Santos e Castro prefere chamar-lhe, foi uma viagem – que percorreu 500 anos. Desde o renascentista inglês Thomas Tallis (1505-1585),  até ao maestro e compositor Raimon Romaní, que nasceu em 1974. Foi este, aliás, o condutor da viagem, juntando os coros Vox laci, Intuição e Hirmandade na interpretação de 12 obras de música sacra, que iam sendo sublinhadas pelas leituras de Myguel a partir do Evangelho de São Lucas (isto presumo eu, mas pode ser outro o Evangelho).

Eis as 12 peças:

 

Christus factus est (Felice Anerio);
Verily, verily I say unto you (Thomas Tallis)
Ecce quomodo moritur (Jacob Gallus);
Adoramus te Christe (Quirino Gasparini);
Tenebrae factae sunt (Michael Haydn, o irmão mais novo do Haydn famoso);
Salvum fac regem (Carl Loewe);
O crux aves spes unica (Ferran Sor);
Ave Verum Corpus (Camille Saint-Saens);
Salve Regina (Josef Rheineberger, cuja existência desconhecia e passo a conhecer um compositor do séc. XIX nascido no Liechenstein…);
In monte oliveti (Jouzas Naujalis, idem para um lituano);
De profundis clamavi (Vic Nees, compositor contemporâneo belga, ainda vivo)
Ave Maria do já mencionado Raimon Romaní.

Não foi perfeito, porque nada é perfeito, mas foi um mimo. Foi bonito, lindo, naquilo que a pureza e a universalidade da música tem de belo.

Um exemplo, só para verem de que música falo

E, pensando bem outro exemplo

E, um terceiro, mais moderno, de Vic Nees, já com tosse de criança e tudo

Resta-me dizer que, amanhã, no Convento de Mafra, o programa repete-se às 21:30, com um padrinho verdadeiramente conhecedor – Rui Vieira Nery; e que na terça-feira, também às 21:30, na Igreja Matriz de Cascais, com o padrinho, verdadeiramente compositor, João Gil há um encore. E as entradas são LIVRES!!! (o que é uma coisa a ter em conta nos tempos que passam).

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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3 respostas a Eu hoje fui padrinho e a criança é um mimo

  1. Devia ser possível fugir-se para dentro desta terra peregrina. Lindíssimo.

  2. O público aderiu?

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