Eu vivo abaixo das minhas possibilidades

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Um dos palácios de Estherhazy, só para fazerem ideia do que é a minha ideia

Vivo claramente abaixo das minhas possibilidades. Digo isto porque sei que nasci para ser rico e não sou. Sou, o que o Fernando Assis Pacheco chamava um noveau pauvre.

Eu nasci para ter um iate. Dos grandes, porque não gosto especialmente de navegar e precisaria de uma tripulação. Digamos de 10 a 12 homens (serei mal entendido? Talvez seja melhor dizer pessoas, para não ser confundido com sexista). Também nasci para ter um Falcon 7X, ou um pequeno Citacion X. De qualquer modo um jato – com tripulação. Mandava o barco para um coral distante – perto da Nova Zelândia, lá está! –, talvez no subliminar Kiribati ou no Tuvalu, e depois, devagarinho, no avião, com muitas escalas a acampar em hotéis de 5 estrelas, iria lá ter. Umas semanas relaxantes com uma companhia simpática de senhoras generosas. Escusam de ser virgens, como já afirmei não gosto de dar trabalho.

Eu nasci para ter uma mansão. Coisa em grande. 20 quartos, um salão de baile lá dentro e um grande jardim com um caramanchão a cobrir uma fonte, cá fora. Se lá passasse um rio, melhor. E também uma quinta no Douro e um castelo no Loire. E uma cabana em Aspen e outra em Lenzerheide (esta só por causa de uns amigos que lá têm uma). A ilha privada seria apenas para o verão.

Eu nasci para ter um Steinway & Sons de concerto e uma orquestra privada (vá lá uma orquestra de câmara). Para os músicos tocarem comigo e me mentirem elogiando a sensibilidade, acerto e técnica com que toco. E gostava de ter um maestro privativo, assim como o Estherhazy teve o Haydn.

Eu nasci, claramente, para viver bem. Sinto-o quando entro numa loja e escolho sempre o que não tenho dinheiro para comprar. Não me terão trocado na maternidade? Não serei eu o herdeiro de um multi-hiper-super-milionário? Eu nasci para ter alguém que investigue isso por mim… e nem isso tenho!

Eu vivo muito abaixo das minhas possibilidades. E mais, se fosse rico praticava o bem. Assim também pratico, mas tem menos efeito. É o que dá não ser rico. Tudo tem menos efeito.

Eu sei que o dinheiro não traz a felicidade… mas a falta de dinheiro também não!

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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26 respostas a Eu vivo abaixo das minhas possibilidades

  1. José Pedro Rodrigues diz:

    Há um tipo que acha que o seu humor tem algo de sublime e então escreve uns disparates a auto-elogiar-se constantemente…
    Ele tem destas coisas!!!
    Depois coloca um ar de intelectual bem pensante com queda para a ópera, e aí tudo afina pelo belo diapasão da arrogância pseudo disfarçada de inteligência.
    Há cada um por estes dias!!!

    • Henrique Monteiro diz:

      Onde é que está esse tipo, que eu vou lá e dou-lhe uma coça???!!!

    • Bruto da Silva diz:

      Se o encontrar, merece um belo brinde acima de Louis Roederer Cristal Brut 😉

    • Maria Sousa diz:

      E há outros tipos isentos de humor, porém “afiados” na critica negativa.

      Será ironia ou aquela necessidade incontrolável de libertar a tristeza acumulada e solitária!!!!

      Cada ponto de vista é a vista a partir de um ponto.

      Seja feliz e sorria :o)

      Gostei do post.

  2. olinda diz:

    muito eu gosto dos teus textos, Henrique. e é por isso que ainda bem que vives abaixo – se vivesses acima não terias tempo, às tantas, para ter graça e jovialidade.

  3. Francisco diz:

    Eu nasci para ser amigo do Henrique.
    Fazer tudo isso sem partilhar com quem apreciamos… é triste!

  4. Fernando Venâncio diz:

    Boa, Henrique! Sinto-me agora menos extravagante, menos extraterrestre.

  5. antonio diz:

    Eu tenho uma pergunta para o senhor : Pensa que se equivocou de ano de nascimento o só de país ?
    Cumprimentos dum leitor espanhol

  6. Inma diz:

    O dinheiro não é um Deus, porém, faz milagres.

    • Fernando diz:

      Dá para lavar os pés ao cristo. O outro também dizia que Samora Machel lhe lavou os pés e foi argomento para subir na vida, o Samora ria-se

  7. Carla L. diz:

    Tem gente que com uns trocadinhos à mais consegue uma pequena orquestra de cordas:
    http://youtu.be/-ZNkfoh7xq8

  8. Carla Seixas diz:

    Estou assim …uma “nouvelle pauvre”….Tiras-me as palavras da boca….
    Bravo,meu querido Henrique Monteiro!!!!

  9. Miguel Sá diz:

    Gostei.. E identifico-me a 100% com a sua teoria!

    Henrique.. Ganhou um fã!

  10. Subscrevo inteiramente. Acrescentaria apenas a melhor videoteca mundial com 30 mil títulos.

  11. Manuel S. Fonseca diz:

    Henrique, ando mal dos olhos e só agora te li. As coisas que eu perco neste nosso blog nefelibata!
    Ah, e basicamente o que tu queres ser é o Hugh Heffner (poupo-te a virgens, bem vês!)

  12. Maria do Céu Brojo diz:

    Sofro de incompreensão semelhante. Ainda garota e segundo me contaram, cheguei ao mundo numa caixa pendurada no bico de uma cegonha vinda expressamente de Paris. Logo, o meu problema remonta desde o nascimento. Tivesse chegado de Elba e tudo mudaria.

  13. Paulo Camilo diz:

    Entristecido, pela sua condição, alegro-me todavia por não estarmos sós.

  14. Teresa diz:

    O que temos acima das nossas possibilidades é o sentido de humor. Felizmente! Os rancorosos são uns chatos!

  15. nanovp diz:

    Remeber : ” Hapiness cannot buy money”, prefiro viver sempre abaixo das possibilidades…

  16. O Henrique não fará a festa com um cliozito, vá lá…híbrido?

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