Façam lá justiça à cigana fumadora

 

Gypsy with a cigarette Edouard Manet, 1862

Gypsy with a cigarette
Edouard Manet, 1862

 

Finalmente, tenho uma tribuna para me defender. Bem sei que negligenciei o prazo que me concederam para o efeito. Mas, pelas minhas contas, ainda vou a tempo. Isto é coisa de advogado, deixar os prazos para o último dia, eu sei. Já que se fala dessa particularidade dos advogados (direi mais: dos bons advogados, que aproveitam até ao limite todo o tempo disponível para a preparação dos seus argumentos), que fique aqui registado que só não pertenço à classe porque sou de raça cigana. E, vá lá, o facto de ser mulher também não ajudou quando me recusaram liminarmente a candidatura à faculdade de Direito (e, como vêem, até sei empregar a preceito termos jurídicos como “liminarmente”, o que diz bem da injustiça de que fui vítima). Estávamos no século XIX, meus senhores: passaria pela cabeça de alguém deixar entrar uma cigana na universidade? E não me venham com histórias de que os tribunais estão fechados, que estamos no fim-de-semana, ainda para mais fim-de-semana de Páscoa. A justiça não descansa e toda a hora é boa hora para se fazer justiça. Eu, que esperei 151 anos (leram bem, 151 anos, a porra do quadro que está lá em cima é de 1862) para me fazerem justiça, não admito que agora me venham dizer que o meu tempo já passou. No mínimo, já que não se dignaram ouvir-me durante mais de um século e meio, percam cinco minutos a ler a minha história antes de me julgaram apressadamente como todos os outros. Vamos então aos factos.

Facto 1: fui bem enganada pelo sacana do Edouard. O Manet, sim, o mesmo que me pintou lá em cima de cigarro na boca nesse maldito ano de 1862. O filho da mãe que não tem outro nome apanhou-me numa feira onde a minha família toda montava banca lá para os lados de Montmartre e, zás, não me largou enquanto não me conseguiu levar para o esterco do seu atelier. E se alguém se atrever a dizer que a barraca onde vivia é que era um esterco, é porque não viu a pocilga onde o Edouard e os seus amiguinhos das artes viviam e trabalhavam, tudo ao monte, e sempre tudo cheio de putas a saltar de cama em cama. Já que falo em putas, que fique claro aqui que, à época, eu não era uma delas. Era uma cigana digna e honrada, era sim senhor, até conhecer o cretino. Virgem até à medula, que isso de dar o pito, lá pelos valores em que os meus pais me educaram, era coisa só para mulher casada. Mas o cabrão levou-me à certa com as suas falinhas mansas e delicodoces e o seu arzinho de menino bem comportado. Que eu era a modelo que andava à procura desde sempre. Que eu era a mulher mais sensual e expressiva que tinha encontrado. Que não havia outra com a minha textura de pele. Que eu era isto e aquilo. Tudo, claro está, justificado com os mais nobres propósitos artísticos, que para ele, já agora, se resumiam a ver-me e pintar-me mais nua do que Deus ao mundo me deitou. Na cama, toda oferecida, como a mais reles profissional do sexo. Ou, até, vejam lá onde chegava a perversão do homem, em cima da relva num parque, enquanto fazíamos um picnic com os amiguinhos dele. Eu lá ia resistindo e o malandro a insistir, a insistir. Até que veio a cena do cigarro. Respondi-lhe que mulher que fumasse, na terra de onde venho, era coisa de mulher desavergonhada. Não tem mal, não tem mal, não precisas de fumar, é a fingir, é só o cigarro na boca, ninguém vai saber. E eu, ingénua, lá acedi. O resto já toda a gente sabe: o Edouard ficou famoso por ter sido recusado no Salon de Paris (onde é que já se viu alguém ficar famoso por ter sido recusado?) e o quadro tornou-se tão conhecido que, um dia, os meus pais deram com uma cópia dele na montra de uma loja. Fui escorraçada de casa (ainda me ecoa nos ouvidos o meu pai a gritar-me “femme qui fume est une pute!”). Só aí o cabrão do Edouard conseguiu o que queria: levar-me para a casa/atelier onde vivia e fazer de mim uma igual a todas as outras que por lá passavam, mais despidas do que vestidas.

Facto 2: não fui eu que passei a sífilis ao Edouard. Que se acabe de vez com essa mentira escabrosa. Chega de fazer dele uma vítima e de mim a megera que lhe trouxe o vício e a morte. Então não sabem que, depois de me ter pintado com o cigarro na boca, não passou mais de um mês – o tempo suficiente para me desflorar e me levar a todo o tipo de práticas sexuais com a gentalha que andava lá por casa dele – até me enxotar como cão rafeiro para a rua? E que depois disso até que a sífilis o levou desta para melhor decorreram vinte e um anos em que ele não voltou a pôr-me a pata em cima?

Facto 3: Podem não acreditar mas a marca Gitanes* deve tudo ao retrato aqui da ciganita com o cigarro na boca. Ah pois é. Foi tal o sucesso que fez a tela do filho da mãe com a cigana a fumar que uns gajos de Lille com olho para o negócio se lembraram de chamar Gitanes a uma marca de cigarros. Que fiquem pois sabendo que esses gajos, até falirem já no século XXI, fizeram muito dinheirinho à minha custa e eu não vi nem um cêntimo.

Então: mereço ou não mereço que me façam justiça? Tenho ou não razão para me sentir indignada? E agora, depois de uma vida inteira de abusos de toda a ordem de homens da estirpe do Manet, como é que vão trazer de volta a minha honra? E o dinheiro a que tenho direito, como é que o vou buscar a uma massa falida? Sabem que mais? O mínimo, já que fizeram perder tudo e mais alguma coisa, é que me deixem entrar na faculdade de Direito. Ou também têm medo de uma advogada cigana?

 

* Para quem não sabe, gitane é a palavra francesa para cigano(a)

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.

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21 respostas a Façam lá justiça à cigana fumadora

  1. Mas que depravação oitocentista vai por aqui, Diogo. Faço é votos de que, mesmo depois de dar o pito, a gitane tenha ficado com a medula virgem. Livra. On a bien rigolé.

  2. Bruto da Silva diz:

    Verdadeiramente a ci ganada, triste como o fado, resuscitada em sábado de ale lui a, não precisou de meter o cavalo (ou égua?) na narrativa e, se justiça vier a ser feita, bem merece entrar na faculdade direita (e, dada a reinante igualdade de género, será largamente compensada da bem vista – e longa – espera).

    PS – Talvez se tenha retraído de indicar a sua provável procedência:

    January 6, 1862 – French, Spanish, and British forces arrive in Veracruz, Mexico, beginning the French intervention in Mexico.

    • Diogo Leote diz:

      Caro Bruto da Silva, isso do México é outra história do Manet. A que levou à obra A Execução de Maximiliano,

      • Bruto da Silva diz:

        A história dele também não acaba no México:

        «Os péssimos resultados obtidos por Édouard na escola fizeram sua família repensar nas ambições nutridas no filho primogênito, a família queria que Manet estudasse direito. Cientes que Édouard não tinha vocação para uma carreira jurídica seus pais não se opuseram ao seu desejo de tornar-se marinheiro. O primeiro fracasso ao tentar entrar na Escola Naval fez com que Édouard só entrasse para carreira de uma maneira menos nobre: pelo trabalho. Em dezembro de 1848, Édouard embarcaria no barco-escola “Havre et Guadeloupe” para o Brasil como um simples marinheiro. Se esta experiência não confirmou que Édouard não tinha vocação para a marinha lhe trouxe uma grande experiência. Foi no Brasil que ele desenvolveu um certo gosto pelo exótico, pelas mulheres e desenvolveu uma repulsa ao escravismo. Marcou-o muito a luminosidade da baia de Guanabara que haveria de deixar traços marcantes na sua maneira de pintar. De volta a França em junho de 1849, Manet novamente fracassaria ao tentar entrar para Escola Naval.»

        Vida dura (a de certos artistas)

  3. O Manet era danado para a brincadeira…

  4. Luisa Tavares de Mello diz:

    Que narrativa do caraças como agora se diz, sem a concordância de ilustres comentadores. A ficção está linda e leva-nos ao atelier de Manet.

    Faculdade de direito? Agora? Só se for na clássica ..Se não, ainda se arrisca a ser colega do Relvas!Aliás com o curriculum que tem, basta comprovar a história, fica logo mestranda em Direito Internacional Privado.

    • Diogo Leote diz:

      Ainda bem que gostou, cara Luísa. Resta-nos agradecer ao Manet. A Grande Arte tem destes efeitos sobre a imaginação.

  5. … façam justiça, deem-lhe um rendimento social de reinserção. Boa Páscoa a todos /as

  6. Diogo Leote diz:

    Se o Gaspar sabe, a cigana ainda vai é pagar impostos retroactivos por todos os serviços sexuais remunerados que prestou. Mas que coisa desagradável me lembrei eu para se dizer na Páscoa. Boa Páscoa em todo o caso.

  7. Ivone Mendes da Silva diz:

    Muito bem resolvido, Diogo. A pressão de um prazo é muito inspiradora, estou a ver.

  8. Ivone, deformação profissional minha. Venham lá mais prazos.

  9. nanovp diz:

    Aí esses artistas, são todos iguais, uns depravados….coitadinha da ciganita que até não parece nada mal…dá-lhe lá um lugar no escritório Diogo, uma estágiosito …

  10. Maracujá diz:

    Mas que surpreendente e deliciosa agressividade a do seu texto, caro Diogo.

    • Diogo Leote diz:

      Cara Maracujá, já fiquei a saber que a agressividade também pode ser deliciosa.

  11. Maria do Céu Brojo diz:

    A cigana merecia este escrito.

    • Diogo Leote diz:

      Já viu isto, Maria, eu só consigo resgatar ciganas com mais de 150 anos.

  12. Bernardo, esta cigana no meu escritório não ia deixar ninguém trabalhar…

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