Falhado Nóstos

orpheu eurydice (1)

desci à mansão dos

mortos, e implorei a

Hades por ti e ele

disse que não, e de jeito

nenhum, amizade. pluguei

a Telecaster, e cantei refrão

té de manhã. de saco

cheio, mas também

olhos de lágrima, pois

até pedras choravam, ele

disse: “tá, ok, meu chapa,

você venceu, pode levar:

o que é seu, o bicho não

come. mas olha lá, não

tem devolução nem

recall, passado o portal e

o prazo: é como se

ela tivesse outro nome.

e fica esperto, num

olha pra trás no mei’ do

caminho, senão a rosa

vira espinho, some, volta

por onde veio para o

mesmo cantinho. e aí,

brô, como no poema de

Poe: nevermore. e lembra

da mulher de Lot, que

virou estátua de sal. não cai

na esparrela de olhar pra trás,

senão já era, babau, nunca

mais. não esquece: esse

é teu laço, pedágio, até

sair do pedaço”.

senti teus passos

na escada, tua sombra, teu

vulto, halo, pingentes, perfume,

tua sola nos batentes acercando

-se de mim, o articular dos

teus artelhos, baita

fluência de ciranda, mesmo

naquele vale de lágrimas

– um sobressalto, um xafarraz –

teu ninho de água-marinha,

senti teu cheiro de flor,

e até senti algo mais:

teu dente mordente ao lóbulo

óbulos de tanto carinho

teu hálito, rumor de seda nos

braços, teus panos quentes, teus

passos sem repercusso ao

longo do corredor. teu

pigarro, alfazema, o jeito de

mascar cravo, assim de mor

charme, lá pela praia de iracema

a ponta dos teus saltos batendo no

trottoir. mas a certa altura, numa

dessas horas – xis gê dê ou agá –

(ou seriam dias, praias, crises,

rios ou raios, décadas a fio)

o tropeço. teu grito. me

fez olhar de soslaio,

desprevenido ponto com,

cambaleei, quase caio.

e de tua sombra, ah, minha

Eurídice, não ficou nem som  

06.11.12

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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13 respostas a Falhado Nóstos

  1. Ivone Mendes da Silva diz:

    Oh, que beleza desmesurada a deste texto, Ruy muito querido. E eu que gosto tanto do mito de Orfeu … embora esteja convencida de que, quando ele olhou para trás, ela suspirou: “Uf! Estava a ver que nunca mais…”

    (me desculpe por ter postado logo de seguida, seu post ainda não estava publicado quando espreitei o blogue)

  2. Ruy Vasconcelos diz:

    Ora, Ivone, no need to apologize, Ladies first. Quanto à Eurídice, o que ela disse ou deixou de dizer pode ter sido o que a Ivone reivindica. Ou quem sabe quedou-se naquela oficial imobilidade captada por Bronzino, repleta de pose.

    Pose é algo que me faz gostar dos autores argentinos. Eles têm pose. Jogam muito com isso. Bioy-Casares por exemplo. Era um poseur. Dos imprescindíveis. Suas entrevistas, divertidíssimas. Mas, enfim, se toda vez que postasse algo fosse logo ultrapassado pela Ivone, postaria duas vezes ao dia sete dias na semana.

  3. Manuel S. Fonseca diz:

    Ruy, ainda agora eu proclamava que o Henrique ficava de Orfeu para o caso de irmos parar a Hades, mas agora que acabei de o ler e rir, acho que se Hades for ponto come, Orfeu tem que ser mais twitter que dó de peito.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    A proposta é bem essa. Orfeu na era Twitter.

  5. Rita V diz:

    ah, meu
    primo, não ficou nem som

    ainda ’tou embasbacada
    vou reler!
    😀

  6. Teresa Conceição diz:

    Ah Ruy, esse é mais um texto lindo seu para levar no bolso, agora que vou de viagem.
    Sem olhar para trás.

  7. Ó primo que coisa boa! Já reli e ri, e gostei tanto.

  8. Maria do Céu Brojo diz:

    Uma beleza para imprimir e guardar.

  9. nanovp diz:

    No more words for such great ones…

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