Jorge Jesus, grandessíssimo filósofo!

SLB - JJ

Fui à aula de Jorge Jesus e percebi o que é um professor no verdadeiro sentido do Liceu, aristotélico, com aulas para iniciados, os seus jogadores, e não iniciados, nós. E um digno discípulo de Platão, um filho de Sócrates. E se pensa que o digo por ser Benfiquista, ou por ironia, vem ao engano.

O homem é um crâneo, é um raio de um filósofo na faixa que se estende de Platão a Aristóteles e ocupando o vazio entre ambos que preencheu com a maior economia possível, isto é, usando-se da falta de recursos para criar uma prática. A saber.

Todo o jogo de Jesus, antes de se passar no campo, passa-se na ideia:

1.  passa-se na ideia que tem do que é o futebol;

2.  do que aquela equipa poderá substanciar dessa ideia de futebol – por isso pergunta ao presidente de qualquer clube antes de aceitar o cargo como treinador, se este quer um treinador para toda a estrutura existente, e se não for tal, não aceita, pois a estrutura é o “mundo das ideias” do futebol e é isso que serve à ideia de futebol que é ciência.

3.  e de como pode a equipa concretizar, não apenas a ideia de jogo, também a ideia de equipa e a ideia do indivíduo que é jogador, sendo função do treinador, trazer à luz – e à Luz! – a equipa e o indivíduo na sua plenitude e limpos daquilo que parecendo pertencer às suas naturezas, não pertence. Isto é possível porque, conhecendo a ideia, o treinador vê a realidade para além da aparência – mesmo na avaliação física e motivacional do jogador – e pode libertar da aparência a realidade.

Mais, há uma teoria do conhecimento que, de acordo com ele, é inerente ao ser, desvelada pela prática de pensar o ser, e subordinadora de todas as acções, e isto meus amigos é a verdadeira sageza.

A falta de competências discursivas num filósofo deste calibre manifesta-se neste elevadíssimo voo – de águia que também é preciso vénia: do pensamento à acção sem passar pela palavra. Embrulha isto em papel encarnado, tio Wittgenstein!

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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12 respostas a Jorge Jesus, grandessíssimo filósofo!

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Mas que glorioso espicho do Grande Mestre. Em papel rubro, ainda por cima.

    Jorge Jesus é o único filósofo que pensaria mesmo se a língua não existisse. É que nem Wittgenstein nos Cadernos Castanhos ou Azuis. Só Jesus escreveria um Caderno Vermelho.

  2. Ora aqui está a soberba descoberta dos mecanismos “científicos” do “mestre da tática, cujos resultados, certificam a relevância.

  3. Maria do Céu Brojo diz:

    Até poderia ser ensaio sobre a filosofia de Jesus. SLB sempre.

  4. Mário diz:

    O Código de Jesus

    A Autora agarra-nos logo no início: (…)sou benfiquista(..) e pronto, o leitor está ganho! Brilhante!

    Ele tem falta de competências discursivas? Talvez, mas transmite a mensagem como ninguém. Pelo visto. Para os jogadores jogarem o que jogam é porque o entendem. E não deve ser fácil.

    Estamos a falar do mesmo Jorge Jesus que ontem, na conferência de imprensa, disse “ambos os três!?[referindo-se aos 3 foras-de-jogo alegadamente mal tirados ao Benfica na 1.ª parte]. Está bem dito, nós é que não percebemos [lá está, é preciso ter a tal dimensão do filósofo…ou alma de poeta…ou ser benfiquista…ou ambos os três].

    O treinador não vê a realidade para além da aparência, o ponto não é esse. É mais do que isso. Ele vê para além da realidade, é um visionário. Ele pretende criar um jogador novo, à imagem daquilo que ele acha que deve ser. Aqui, no acto da criação, Jesus é igual ao Pai. Só que às vezes a obra nasce, outras não.

    Do pensamento à acção sem passar pela palavra? Nada disso. Fala é em código.

    Um último argumento, o mortal: mas afinal o que sabem as mulheres de futebol?

    Inquietação: o que levou a Autora querer assistir a uma palestra do Jorge Jesus? por ser benfiquista [e aí qualquer coisa que o homem diga é bem dito]? por gozo [e aí já não me parece tão bem]? por curiosidade? por voyeurismo [temática já aqui tratada pela Autora]? por não ter nada melhor para fazer? por ambos os 5?[sim, pode ser um benfiquista gozão que teve curiosidade em ver o Jesus ao vivo em vez de ficar em casa a ler um livro de poemas]

    Peço desculpa de “entremão” à Autora, isto parece um post…

  5. nanovp diz:

    Eugénia isto não é para todos, e logo eu que pouco sei de filosofia…mas agora percebo porque não percebo o Jesus…está tudo explicado! Vou concentrar-me na próxima conferência de imprensa.

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    Só conhecia a figura por uma rápida TV. Mas a Prima devia escrever mais sobre futebol. Uma delícia.

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