Laranja sobre Azul

cacilheiro

Laranja sobre azul para cá e para lá deixando um rasto branco no rio, como os aviões que nos levam ao céu.

O Cacilheiro levava-me para Cacilhas e agora Joana Vasconcelos leva-o para Veneza. Nunca tal foi o destino do Cacilheiro, mas só quem não o teve por quotidiano poderá desconhecer os seu portos.

Nessa altura os meus dias eram muito compridos, independentemente de ser inverno ou verão, e o Cacilheiro era uma brisa fresca que me transportava até ao sagrado. Até à frustração. Até ao teatro. Ensaiávamos nos armazéns do Ginjal, um dos espaços mais soberbos que conheci/vivi até hoje.

Descia as escadinhas da Costa do Castelo até ao Terreiro do Paço, sempre atrasada para não perder o barco, sempre atrasada para não chegar atrasada ao ensaio.

O Cacilheiro ligava as minhas marginalidades: o Chapitô ao Ginjal.

Sempre na margem. Atrasada de um sitio para o outro, nessa altura os dias eram muito longos. Assim como os meus cabelos compridos eram o prolongamento dos meus sonhos e no Cacilheiro eles voavam ao vento. Livres.

Lisboa ficava para trás deixando um rasto de espuma branca e eu sonhava com o futuro. Sonhava em fazer espectáculos… Um espectáculo no meio do rio. Um espectáculo no Cacilheiro. Cordas e mastros não faltariam para nos pendurarmos e fazermos acrobacias ao som de uma banda que tocaria ao vivo. Danças, coreografias, saltos. Beleza, experimentalismo e destreza. Haveria um microfone que seria disputado por todos os performers. Nos espectáculos do Ginjal era frequente a presença do microfone. Todos queriam falar, beijar, respirar ao microfone. As influências das duas margens estavam bem presentes neste espectáculo ou nesta performance. Seria antes de mais uma performance. A performance é um vestido preto com o qual não me comprometo, vai bem com tudo. Nessa altura nem gostava de ser chamada de actriz, preferia performer. Pormenores de quem vive à margem ou na margem.

O Cacilheiro era um palco flutuante para os meus sonhos.

No regresso, depois do ensaio estava novamente atrasada para apanhar o barco. Se perdesse o das 02h só lá prás 05h é que atravessava novamente o Tejo, juntamente com os primeiros operários do dia.

Ainda suada do ensaio no Ginjal corria naquela margem escura, iluminada pelas luzes que Lisboa reflectia nas águas e só parava dentro do barco. Foram também várias as vezes que saltei já com o barco em andamento. Saltava eu e o fim da corda que era puxada pelo trabalhador da TT.

Numa noite quente de primavera, no ultimo barco das 02h, falava com a Filipa sobre o ensaio e nem reparámos que o barco entretanto ja tinha atracado no Cais Sodré, libertado todos os seus passageiros e navegava novamente. Quando caímos em nós estávamos no meio do Tejo e no meio de um barco vazio a navegar sem destino.

Estamos a ir para África – fantasiei eu com os meus cabelos compridos, como as fantasias que tinha. A Filipa assustada, não reconhecia as margens e decidimos mostrar-nos ao capitão. Não que estivéssemos escondidas. Estávamos apenas no cantinho mais refundido (os Cacilheiros têm muitos recantos) a falar da vida, que naquele caso era teatro. Quando nos viram, a tripulação riu-se – numa noite quente escura e estrelada estavam duas primaveras escondidas no cacilheiro. No meio do Tejo há mais estrelas.

Laranja sobre azul para cá e para lá. Para lá e para cá.

Tenho muitas recordações e histórias mais compridas que os meus cabelos compridos da altura.

O Cacilheiro é aquele barco que continua a viajar nas águas da minha adolescência e nele viajava também a minha vontade de ser artista.

As margens. Ir de um, para outro universo artístico. Da Fame para a Bahaus.

O Cacilheiro era uma máquina do tempo. Um aquário da realidade. Um processo de alquimia. Foi um barco da minha vida onde entrei de uma maneira e saí de outra.

Laranja sobre azul vai deixar rasto e espuma em Veneza. As águas de Veneza vão saber de mim.

Sobre Sandra Barata Belo

Nasci em Lisboa no final da década de 70. Cresci em Alfama e nas férias, que não são grandes, vou sempre para o Alentejo. Sou filha única, aprendi a brincar sozinha. Gosto que me contem histórias mas também gosto de as contar. A palidez da realidade pode pôr-me sem cor, por isso nada melhor que uma boa gargalhada. Gosto de coisas simples, de pessoas generosas, gosto de arte. interpretei a grande Amália no cinema. Seguiram-se as novelas da SIC. Isso faz com que as pessoas me reconheçam na rua. Estudei no Chapitô onde aprendi todas as bases do que sei fazer hoje. Já fiz muitas coisas, dancei, fui trapezista, malabarista e clown (fica sempre melhor em inglês). Produzo, dirijo e levo a palco livros e autores que admiro. Continuo a querer fazer muitas coisas diferentes. Sou curiosa e não quero deixar de o ser.
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14 respostas a Laranja sobre Azul

  1. ERA UMA VEZ diz:

    “e navegando…a idade foi chegando, os cabelos branqueando…mas o Tejo é sempre novo”
    ————————————————————————————————————————–

    Era a primeira vez que ia a uma revista.
    Não era grande o entusiasmo, já na altura bem mais interessada por outro tipo de espectáculo. Também pelo cinema que dourava os meus domingos e apaixonada, isso sim, pela música, sobretudo brasileira, mas também anglo- saxonica e francesa. O mundo jorrava criatividade nesses anos e havia bom e menos bom para todos os gostos

    Voltando à revista, estávamos ali, um casalinho de namorados um pouco cépticos( confesso) fazendo “o jeito” aos pais.
    Entrar no Parque Mayer era só por si uma Festa.

    Depois, muita piada política subtil, muita perninha ao léu, muita dança, muitos actores conhecidos e amados pelo público(o que é tão bom) e quase no fim do espectáculo surge o grande Zé Viana e canta O VELHO CACILHEIRO.

    Então, foi a entrega total, sem reservas nem tolos preconceitos, nem intelectualites baratas
    Estava ali, naquela canção aparentemente ingénua, a alma de um povo generoso, a sabedoria, a dedicação a um trabalho que era bem mais do que isso, que era como diz a Sandra, “o parque flutuante doutros sonhos”…
    E repetiu.
    E o público cantou de pé, uma e outra vez.
    Então aquele CACILHEIRO agigantou-se como se fosse uma caravela, de novo a cortar os mares à procura de mundo.
    E aquele actor e pintor e homem das artes, naquele momento, foi a nossa gente,atravessando o rio, sedenta de outras margens…

    Ainda hoje, sei de cor o “velho cacilheiro”
    O caminho para ser actor,de uma certa forma, conheço-o bem. Oxalá os Xapitôs deste País consigam sobreviver aos novos” malabarismos”
    Ainda bem que a Sandra atravessou o rio.
    Ainda bem que a Joana Vasconcelos atravessa o óbvio.

    • Sandra Barata Belo diz:

      e ainda bem que Era uma Vez acrescentou um ponto a este conto.
      venham mais Cacilheiros que nos contem mais histórias.
      enquanto as contarmos, existimos.
      obrigada.

  2. Bruto da Silva diz:

    Uma triste beleza…
    E hoje uma verdadeira tristeza: pela primeira vez, cinzenta de mais, atravessei no Fernando Pessoa para lá (e no Damião de Goes para cá).

  3. Ruy Vasconcelos diz:

    Muito bacana.A vivacidade da impressão. E eu sequer sabia que ‘ferryboat’ (ou ‘barca’, assim chamadas as que fazem Rio-Niterói, pela Baía de Guanabara) chamava cacilheiro por aí.

    • Sandra Barata Belo diz:

      é Cacilheiro porque vai para Cacilhas, mesmo aqui à frente de Lisboa.
      vocês poderiam ter um Niteroíceiro, quanto muito …

  4. Maria do Céu Brojo diz:

    A sensibilidade na pele. Muito bom, Sandra.

  5. obrigada Maria,
    ainda bem que gostou!

  6. Agora, em Cacilhas ou Veneza, quando entrar no cacilheiro vou ter até medo de te pisar um pé

  7. Diogo Leote diz:

    Mas que belas memórias, Sandra.Lisboa é ainda mais maravilhosa vista do Ginjal. E o cacilheiro da Joana Vasconcelos, se não tiver as tuas impressões digitais nos lugares com vista para a fantasia, não tem encanto nenhum.

    • temos que ir a Veneza espreitar a fantasia.
      se não tivermos dinheiro para o bilhete de avião, compramos um bilhete para Cacilhas. é quase a mesma coisa…

  8. Mário diz:

    Texto lindíssimo, quase as vi conversar (a si e à Filipa) no cacilheiro 🙂
    Não deixa de ser curioso que uma pessoa tão nova tenha uma narrativa tão distanciada de um passado que terá sido, necessariamente, recente. Identifico-me imenso com os seus últimos posts. Até ao próximo.

  9. Sandra Barata Belo diz:

    obrigada Mário.
    o passado guarda-se na gaveta da mesinha de cabeceira. não está longe nem perto.
    até ao próximo texto.

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