Le donne della Signoria

(continuando …)

Ainda não é hoje que vou falar de Isabella de’ Médici como pretendia quando me sentei aqui. Ao abrir a pasta, na qual vou guardando imagens nos dias em que tomo a séria resolução de ser uma pessoa arrumada, vi alinhadas algumas das Médicis pintadas por Bronzino. Uma galeria de mulheres mortas pela doença, pelo poder, pelo turbilhão das muitas razões para morrer na Florença medicea.

Quando Bronzino se torna o pintor favorito de Cosimo, os retratos oficiais, os retratos com vestidos de corte, as poses hieráticas começam a encher as paredes do pallazzo. Ei-los, sem ordem cronológica, retirados deste meu sótão virtual, pois, virtual porque o Manuel Fonseca é que tem um sótão real. Sacudi-lhes um pouco o pó, apenas.

Bia. Bia de’ Médici, filha bastarda de Cosimo. A mãe, ninguém sabia quem era a não ser Cosimo e, ao que se dizia na época, a mãe dele, a poderosa Maria Salviati. Quando Cosimo se casa com Eleonora de Toledo, a jovem esposa desagrada-se da presença da criança no palácio e o marido envia-a para junto da avó, para a Villa di Castello. Morre aos seis anos e Cosimo encomenda a Bronzino este retrato póstumo, feito a partir de outros retratos ou da máscara mortuária. Não é um retrato oficial, é um retrato para os aposentos íntimos, para o olhar do pai. O pintor imaginou-a tão séria, gravezinha nas suas pérolas, de seda branca, ela que, provavelmente se chamaria Bianca, daí o Bia afectuoso.

biaporbronzino

De Eleonora de Toledo, o retrato mas conhecido é o que mostrei no post anterior no post anterior. Há, todavia, um outro que me agrada bastante.

eleonora(bonito)

É uma Eleonora recém-chegada e tudo nela prenuncia o outro retrato em que a segurança da senhora de Florença atingiu a sua plenitude. O vestido é de um vermelho belíssimo, bordado a bouclé de ouro, e no encaixe dos ombros dispõem-se geometricamente pérolas que Eleonora também usava nos brincos, na rede que prendia o cabelo. Bronzino gostava de pintar as mãos à altura do peito: as mãos esguias com anéis pesados, até parecem ali estar casualmente, quando nada é casual nestes retratos.

A imagem mais conhecida de Isabella (a ela volterei, prometo) foi pintada por por Alessandro Allori, discípulo de Bronzino. Mas, hoje, estou nos quadros do mestre. E ele também pintou Isabella.

isabella-bronzino

É ainda uma Isabella muito nova, com encaixe de renda no vestido e olhar firme. Parece-se com a mãe, mas o ruivo florentino dos cabelos e o sorriso contido mostram os genes de Cosimo e da avó, Maria Salviati, com que diziam que se parecia no carácter e no gesto. Cosimo deu a esta primeira filha atenções que não deu a nenhuma outra. Só assim se explica que o contrato do malogrado casamento com Paolo Giordano degli Orsini contivesse uma cláusula que permitia a Isabella permanecer em Florença após o casamento. Inteligente, culta, influente, os florentinos amavam-na  e aclamavam-na quando se deslocava pela cidade. A morte da mãe dá-lhe o primeiro lugar feminino nas cerimónias oficiais da signoria, a morte do pai deixa-a vulnerável. Talvez o irmão Francesco secundasse o marido dela e com ele lhe preparasse a morte,  a pretexto da ligação com Troilo.

Lucrezia tinha tanto de fragilidade quanto a irmã de força.

lucrezia

Outra das filhas de Eleonora e Cosimo, estudou, como os irmãos, grego, latim, música, literatura, mas os autores referem que os seus talentos não iam mais além do que escrever uma carta. É uma menina muito bonita e muito triste. Aos 13 anos, casam-na com Alphonso II d’Este. Dois ou três dias depois do casamento, o marido parte para a corte de França, onde tinha relações familiares, pois era filho de Renée da França, e de onde só regressa após a morte do pai, para receber o título de duque de Ferrara. Alguns meses depois manda chamar a duquesa sua esposa. Lucrezia chega a Ferrara mergulhada numa profunda melancolia. Nem os acordes do Te Deum celebrado em sua honra na catedral a animam. Alta, muito magra, muito triste, a duquesa de Ferrara definha nos seus 16 anos. Cosimo manda, de Florença, Andrea Pasquali, o médico de confiança, mas a morte de Lucrezia é inevitável. De tuberculose, muito provavelmente.

Foi sobre este retrato, sobre a triste beleza de Lucrezia di Cosimo de’ Médici, duchessa di Ferrara, que Robert Browning escreveu o seu poema My last duchess, aquele poema que começa “That’s my last Duchess painted on the wall / Looking as if she was alive.” É uma fala de Alphonso, frio e calculista, que se dirige ao embaixador Nikolaus Mardruz, após a morte de Lucrezia, para negociar o casamento com  Barbara da Áustria.

Este post vai longo, sentei-me aqui e esqueci-me do tempo. Ah, mas quero mostrar outro retrato. Ainda de Eleonora, ainda de Bronzino.

eleonora.velha

Ela continua a gostar de pérolas mas envelheceu. Envelheceu como se envelhecia naquele tempo. Eleonora morreu com 40 anos e este quadro foi pintado um ano ou dois antes de a malária chegar. O colo cobre-se de rendas, não há anéis pesados nos dedos, apenas um lenço na mão enluvada. Uma senhora idosa.

Sobre Ivone Mendes da Silva

Entre lobos e anjos me habituei a escrever. É talvez por isso que, para além de asas e de uivos, as palavras me tropecem e não encontrem sozinhas o caminho das folhas. Nessas alturas, peço para elas a bênção da tristeza, musa de sopro persistente, que triste me faz e a acolhedoras mesas me senta.

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5 respostas a Le donne della Signoria

  1. Ivone, já viu que têm todas testa alta, cabelo penteado com um risco que o divide ao, sem franja, um guarda-roupa que nem Adrian em Hollywwod (e nem vale a pena inovcar Edith head apesar dela ter o mestrado em línguas neo-latinas. Como se Bronzino pintasse sempre a mesma mulher…

  2. Ivone Mendes da Silva diz:

    🙂 Oh, Manuel, os pintores pintam sempre a mesma mulher …. pode é não se dar logo por isso.

    • Maria do Céu Brojo diz:

      Verdade que partilho. Retratos que encantam. À laia de presente segue o vídeo.

  3. nanovp diz:

    Que maravilhosas historias, pintadas em palavras, estas que traz para aqui…E sobre Lucrezia só tenho a dizer que saber escrever um carta já não é nada mau….

    • Ivone Mendes da Silva diz:

      Ora, pois, Bernardo, escrever bem uma cartinha é do mais prestável que há …

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