Melodia a régua e esquadro: as sanidades de São Paulo

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Vilanova Artigas e Carlos Cascaldi, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (Fau-Usp), São Paulo

Quando chegou a vez, achei o Rio de uma beleza fácil e carcomida. Pois, de outro modo, o Rio ainda é o mesmo mar do Nordeste. Só que menos atraente, apesar das montanhas e certo efeito pirotécnico o tempo inteiro, não só na Passagem de Ano. A sensação de o cartão-postal não dar descanso. E a fealdade das favelas roendo os morros. A mim sempre me impressionou mais São Paulo. A escala brutal da cidade. Sua beleza áspera e arquitetura moderna, de um classicismo ressaltado, equilibrando-se sobre pilotis. Certa visão diáfana de um futuro do passado, como num condomínio de Vilanova Artigas, em Higienópolis. Ou o quanto o Conjunto Nacional, com sua praça interior, cita – de forma adequada, inopinada – os mercados e feiras do Nordeste. A promessa de calor na fria impessoalidade dos espaços. E se está melhor num boteco debruçado sobre a Paulista ou na balada de Vila Madalena, no inverno, que em Copacabana. O Rio é chafurdo tão gostoso quanto raso. É-se amigo de todos logo, animadamente. Mas só por umas horas. Em São Paulo há mais prazos para antes e depois. O silêncio surge um pouco mais. Ruge um pouco mais. E nele se esconde um naco de pouso e insuspeitado passado. A chuva fina borrifando esquinas. Possibilidades de estudo. Às vezes, quebradas pelos raios das grandes tempestades de verão abatendo-se sobre os vales, onde a metrópole e a quitanda se misturam. A fascinante franja entre o que é do bairro e do país. Circular anônimo pela Pompeia. E almoçar contemplando a Igreja de São João Vianey. A distância recente no traço das pessoas. E o tanto que elas se parecem nas suas diferenças. A migração segue por todos e tudo. Na pressa de tudo. Até no ato de se ir para o mar pela serra, a toda, sem tempo de ver paisagem. E a serra mergulhar no mar depois daqueles elevados fantásticos, que parecem o desdobrar da cidade no rumo do oceano. E os ipês, os manacás, as quaresmeiras em flor no meio da mata. Ou imaginar os padres da Companhia escalando aqueles despenhadeiros e grotas, no muque, cinco séculos antes. Ou a gente estar sempre a dirigir um conversível, não obstante o teto revelar ser apenas um Fiat barato, quando se vai a Ilhabela ou Cambury. E, assim, as tais curvas da Estrada de Santos, mais presentes em São Paulo que no Rio, onde elas de fato estão.

 Esse negócio de escolher entre São Paulo e Rio é uma espécie de dialética. E há compensações à beira-mar ou na montanha. Mas parece meio inevitável que a gente se decida por uma das premissas.

Até segunda ordem.

Sobre Ruy Vasconcelos

Nasci mais ou menos no Brasil. Vivi em alguns lugares distantes. Em trânsito. Em transe. Em tradução. Por aí, ocupado com palavras. Palavrinhas, palavronas. Conheci estes amigos portugueses um blogue atrás. E gostei do que li.

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24 respostas a Melodia a régua e esquadro: as sanidades de São Paulo

  1. Que texto bom. Até se acredita que se pode viver em São Paulo.

  2. Panurgo diz:

    É um Goethe em viagem por São Paulo. Até meu deu pena de ainda não ter tido oportunidade de honrar o Brasil com a minha presença.

    Vá escrevendo Ruy, vá escrevendo.

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Smack! Beijinhos amorosos, amigo Urgo!

      “Era moderno o meu batom”.

      • Panurgo diz:

        Oh doce Ruy, que tanto me comove. Vamos chorar os dois com a música do Rio, e depois pode-me beijar à vontade, que eu preciso de mimo.

        • Ruy Vasconcelos diz:

          Bravo, camarada! Bravissimo! Bela peça do PAULISTA Dilermando Reis (com aquela sentimentalidade caipira, do interior de São Paulo, que vamos encontrar também em Zequinha de Abreu. Os compositores cariocas, Urgo brother, são usualmente, digamos, mais nervosinhos, sanguíneos, mercuriais, ‘upbeat tempo’. Feito Ernesto Nazareth, Pixinguinha,Guerra Peixe, Cartola, Jobim, Roberto Baden Powell, Edu Lobo, Egberto Gismonti, ou o maior deles: Villa-Lobos). Serás muy-bem-vindo. As padarias em São Paulo. Ah. É o que há. Certamente um dos aspectos da cidade que a gente leva consigo. Um pouco como o quê? Como Hemingway sugere que se acabe levando Paris. Ah, Paris. A festa. O eterno festim. (rs)

          Venha dançar no Brasil. Um samba no Rio. Um axé na Bahia. Um frevo em Recife. Um forró em Fortaleza. Faz bem à pele. E se não trouxer uma prancha de surf. A gente te arruma uma por aqui. É bom. Para tirar essas aranhas do sótão da mente. (Acho que foi a Rita que falou em Sótão por aqui, não?) Ora, por incentivo, fique com essa amostra:

          http://www.youtube.com/watch?v=NNRnWIWEUJI

          • Panurgo diz:

            Mano, é como eu lhe disse: tenho pena de não ter ido aí. Pois tem razão, mil perdões, o Dilermando é paulista, é sim, por Deus! Olha, nem de propósito, estava ontem a ouvir um disco dum guitarrista paulista, o Fábio Zanon, em homenagem ao Villa-Lobos. E até já trouxe aqui os Afro-Sambas do Baden. As aranhas perdi-as na Argentina, mas não quero ferir sentimentos patrióticos.

            Em 2014 o Urgo vai aí ver a bola, se Deus deixar.

            • Ruy Vasconcelos diz:

              Olha, brô, nenhum país nos obceca tanto quanto a Argentina. Os ritmos, o arrebatamento, a natureza, o clima, a beleza das mulheres. Esse negócio de rivalidade é só no futebol. E olhe lá, é como família, que não admite comentário desabusado de fora. Logo, antes uma Argentina (ou um Uruguay) campeões por cá, next year, que um europeu. Ainda mais com esse Messi pela proa. Brazucas x Argentos seria a final sonhada. Totalmente austral, radical, exponencial. Depois desses, vem a África. Seria maravilhoso ter um primeiro campeão africano por cá.
              (Agora, se tiver que ser um europeu, que seja Portugal).

        • Paulo Bellinati e Dimermino Reis, dois magos genuinos “libertadores de kilovátes”, a que dar boa nota! Com vénia levá-los ei para a barraca!

          • Dilermando e Bellinati, grandes da guitarra. Você já deve ter ouvido Paulinho Nogueira, Raphael Rabello ou Yamandu Costa. E entre os mais antigos há o mítico Canhoto da Paraíba.

  3. olinda diz:

    que rico retrato. ou um retrato bem rico.

  4. Ruy Vasconcelos diz:

    “o que o homem tem do pássaro é inveja. saudade é o que o peixe sente da nuvem”

    yes, ma’am. ‘brigado pela leitura

  5. Manuel S. Fonseca diz:

    Ah, Ruy, não vais descartar-te do Rio com essa facilidade. É o meu único Brasil. Quero ouvir-te em ritmo Nelson rodrigues dirigindo o conversível da barra da Tijuca ao Leme. Vamos lá!

  6. Ruy Vasconcelos diz:

    Ah, então escrevo sobre o Rio, sim. Mas vamos espaçar um pouco, não? O próximo será sobre o Rio e justamente com uma menção ao Leme. Como adivinhaste?

  7. Ruy, vivi 10 anos no Rio, e nunca achei que iria ter vontade de conhecer São Paulo, até aqui…lendo este seu belo texto 🙂

    • Ruy Vasconcelos diz:

      Ana Rita, a minha situação foi oposta à sua. Com diferença que fui ao Rio, sim. Mas a um Rio despido de alguns dos clichês mais recorrentes.

  8. Rio e Ruy,
    Ruy e São Paulo.
    Esta sua dialéctica faz-me lembrar a briga doce ou envenenada entre Lisboa e Porto.
    Entre São Paulo e Rio são rios de escolhas.
    Para mim por enquanto é só Rio. São Paulo há-de ser um dia. Que bom tê-lo por aqui a provocar-nos a vontade.

  9. Ruy Vasconcelos diz:

    São Paulo dá vontade de retroceder à primeira vista, Teresa. Depois, não. Percebe-se que o monstro também tem um coração. Grato pela leitura, Senhora das Viagens.

  10. Maria do Céu Brojo diz:

    São Paulo tem sido adiado ao escolher fugas. Convenceu-me pela riqueza do retrato.

  11. Ruy Vasconcelos diz:

    Você pode até ir, Céu. Mas prepare-se, sobretudo no início, para achar beleza assim como se acha em um cactus.

  12. Dois Senhores! Com vénia, levarei a do Caetano para a barraca; grande interpretação, acompanhamento singelo mas digno.
    E sigo para as sugestões dos comentadores.

  13. Sim. É precisamente isso: dignidade e simplicidade.

    Mas, você que curte bons violonistas: já ouviu este?

  14. nanovp diz:

    Pois haverá varias tragédias na vida, uma será não conhecer a obra de Artigas, Mendes da Rocha e BoBardi em S. Paulo….entre outros monstros da arquitectura moderna e contemporãnea. Bem trazido…O Rio, o Rio é outra coisa como voçê sabe bem…

  15. Ruy Vasconcelos diz:

    São Paulo, pelos que você citou e alguns outros, tende a algo belo. No futuro, quem sabe. E a gente pode adivinhar essa beleza em algo ainda avulso, larval.

    (E o Bernardo ainda tem tempo de fazer essa visita).

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